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Ciência

O café pode atrapalhar seu sono mesmo quando você consegue dormir oito horas

Conseguir adormecer depois de uma xícara de café não significa necessariamente escapar dos efeitos da cafeína. Uma nova análise revela alterações que podem acontecer enquanto você dorme.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Há pessoas que evitam café depois do almoço porque sabem que passarão horas olhando para o teto. Outras conseguem tomar uma xícara à noite e adormecer normalmente. Essa segunda situação costuma ser interpretada como sinal de que a cafeína não interfere no sono. Pesquisadores, porém, chamam atenção para algo menos evidente: você pode dormir aparentemente bem enquanto seu cérebro passa a noite em um estado diferente do esperado.

Dormir normalmente não significa que o café não fez efeito

O café pode atrapalhar seu sono mesmo quando você consegue dormir oito horas
© Polina – Pexels

A relação entre cafeína e sono costuma ser observada de maneira bastante simples: se a pessoa demora para adormecer ou acorda durante a madrugada, o café atrapalhou. Se dorme durante toda a noite, aparentemente não existe problema.

A realidade pode ser mais complicada.

Pesquisadores ligados à Universidade Médica de Wroclaw, na Polônia, chamam atenção para alterações que podem ocorrer na atividade cerebral mesmo quando a duração do sono parece normal. Para investigar esse fenômeno, entra em cena a eletroencefalografia, conhecida pela sigla EEG.

A técnica registra a atividade elétrica cerebral e permite enxergar detalhes que simplesmente contar quantas horas alguém passou na cama não revela.

Um dos elementos importantes são as ondas lentas, características do sono profundo. Essa fase está associada à recuperação física, reposição das reservas de energia e manutenção adequada das funções cerebrais.

E é justamente aí que a cafeína pode deixar uma marca inesperada.

Segundo a pesquisadora Donata Kurpas, a substância pode reduzir a atividade de ondas lentas e deslocar o padrão do EEG na direção de um cérebro relativamente mais desperto, mesmo quando a pessoa conseguiu dormir.

Na prática, oito horas na cama não necessariamente representam oito horas com a mesma qualidade de recuperação.

Seu cérebro pode estar mais acordado do que você imagina

O aspecto mais traiçoeiro desse efeito é que ele não precisa provocar uma noite obviamente ruim.

Uma pessoa pode adormecer no horário habitual, não se lembrar de despertares durante a madrugada e levantar acreditando que tudo ocorreu normalmente. As medições neurofisiológicas, entretanto, podem mostrar menos características associadas ao sono profundo.

Isso ajuda a explicar por que apenas perguntar “quantas horas você dormiu?” oferece uma visão incompleta do descanso.

A qualidade biológica do sono também importa.

É durante os estágios mais profundos que acontecem processos importantes de recuperação. Se a arquitetura desse descanso é modificada, permanecer muitas horas dormindo pode não produzir exatamente o mesmo resultado.

Mas isso não significa que uma xícara de café terá o mesmo impacto sobre todas as pessoas.

A resposta à cafeína apresenta enorme variação individual. Genética, metabolismo, idade, estresse e fadiga crônica estão entre os fatores capazes de modificar a sensibilidade à substância.

Por isso, enquanto alguém pode tomar um espresso no fim da tarde sem perceber consequências evidentes, outra pessoa pode sentir os efeitos de um café consumido muitas horas antes de ir para a cama.

E existe mais uma variável importante: não é apenas o horário da última xícara que conta.

O café da manhã também entra nessa conta

O café pode atrapalhar seu sono mesmo quando você consegue dormir oito horas
© Grace Hazell – Unsplash

A quantidade total de cafeína consumida ao longo do dia e o tempo disponível para metabolizá-la também podem influenciar o que acontece durante a noite.

Para algumas pessoas mais sensíveis, até o café ingerido relativamente cedo pode continuar produzindo algum efeito horas depois.

Essa questão ganha importância porque a cafeína está longe de aparecer apenas no cafezinho tradicional. Dependendo dos hábitos de cada pessoa, outras bebidas e alimentos podem aumentar o consumo diário.

O cenário é especialmente relevante para quem utiliza cafeína estrategicamente para melhorar concentração, resistência ou desempenho. Isso inclui desde profissionais submetidos a trabalhos mentalmente exigentes até atletas.

O benefício imediato é conhecido: a substância aumenta temporariamente o estado de alerta e reduz a percepção de cansaço.

O problema pode aparecer algumas horas depois.

Se esse estímulo ajuda alguém a continuar funcionando durante o dia, mas ao mesmo tempo diminui a qualidade da recuperação noturna, surge a possibilidade de um ciclo difícil de perceber.

A pessoa está cansada, toma café para compensar, dorme de maneira menos reparadora e acorda precisando novamente de um estímulo.

O problema pode começar na manhã seguinte

Esse possível círculo de fadiga é uma das razões pelas quais pesquisadores do sono estão olhando cada vez menos apenas para sua duração.

O que o cérebro faz durante aquelas horas também precisa entrar na equação.

Isso não transforma o café em vilão. A própria interpretação dos especialistas é mais cuidadosa: a cafeína é uma substância biologicamente ativa e seus efeitos dependem de dose, horário, idade, estilo de vida, estresse, qualidade do sono e sensibilidade individual.

Também não existe uma conclusão simples de que todas as pessoas devam eliminar o café depois de determinado horário.

A mensagem mais interessante está justamente naquilo que não percebemos.

Conseguir fechar os olhos rapidamente depois de tomar café não prova que seu organismo seja imune à cafeína. Da mesma forma, acordar sem lembrar de interrupções não garante que todas as fases do descanso tenham acontecido da maneira habitual.

Talvez, portanto, a pergunta mais importante deixe de ser “o café me impede de dormir?”.

Para algumas pessoas, vale prestar atenção em outra: mesmo conseguindo dormir, será que o cérebro realmente descansou como deveria?

[Fonte: C3]

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