Quando uma criança desenha, não está apenas brincando com lápis e cores. Ela também pode transportar para o papel elementos de seu universo particular, suas experiências e a forma como interpreta o mundo. Por isso, psicólogos podem utilizar desenhos como uma ferramenta complementar para compreender determinados aspectos emocionais durante a infância.
A partir de que idade um desenho pode ser interpretado?

De maneira geral, os desenhos começam a oferecer informações mais estruturadas a partir dos três anos, quando a criança desenvolve habilidades grafomotoras suficientes para produzir formas mais reconhecíveis e começa, por exemplo, a escrever algumas palavras ou o próprio nome.
Conforme cresce, o desenho também evolui.
A criança passa a controlar melhor os movimentos, acrescenta detalhes e desenvolve maneiras mais complexas de representar pessoas e situações.
Ao mesmo tempo, aumenta sua capacidade de controlar aquilo que deseja expressar. Durante a puberdade, por exemplo, crianças e adolescentes já conseguem esconder ou modificar conscientemente elementos relacionados às próprias emoções.
Por isso, interpretar um desenho infantil exige conhecer também a idade, o desenvolvimento e o contexto da criança.
Um desenho sozinho não permite fazer um diagnóstico
Esse é provavelmente o ponto mais importante.
Segundo Pilar Muñoz, psicóloga infantil e diretora do Centro Ábaco de Psicología Infantil, na Espanha, os desenhos podem ser utilizados como ferramentas projetivas dentro de uma avaliação mais ampla.
Isso significa que um psicólogo não deveria diagnosticar uma criança simplesmente porque ela desenhou determinada pessoa pequena, escolheu uma cor específica ou deixou algum integrante da família fora da imagem.
A interpretação precisa ser acompanhada de entrevistas, observação do comportamento e, quando necessário, testes psicológicos com evidências científicas.
Ainda assim, Muñoz explica que os desenhos podem fornecer informações interessantes sobre traços de personalidade, bloqueios emocionais e experiências vividas pela criança.
O desenho funciona, portanto, mais como uma pista do que como uma resposta definitiva.
A figura humana pode revelar como a criança se percebe
Entre os elementos que mais chamam a atenção dos profissionais está a representação da figura humana.
Segundo Muñoz, ao desenhar uma pessoa, a criança pode transmitir informações sobre como percebe a si mesma e como acredita ser percebida pelos outros.
Por isso, esse tipo de representação pode ajudar na investigação do autoconceito infantil.
Os especialistas podem observar diferentes características: tamanho da figura, localização no papel, intensidade dos traços, proporções, presença ou ausência de determinadas partes do corpo e cores utilizadas.
Nenhum desses elementos, porém, possui um significado universal quando analisado isoladamente.
Um desenho muito pequeno, por exemplo, não significa automaticamente insegurança. Da mesma forma, utilizar cores escuras não comprova tristeza, ansiedade ou qualquer outro problema emocional.
É necessário analisar o conjunto e, principalmente, conhecer aquela criança.
Casas, árvores e famílias também podem oferecer pistas
Outros elementos tradicionalmente observados são casas, árvores e representações familiares.
A casa pode estar relacionada à maneira como a criança percebe o ambiente familiar e a convivência dentro dele. Já as árvores podem ser utilizadas em algumas abordagens como elementos complementares na investigação emocional.
Os desenhos da família também podem ajudar profissionais a explorar como a criança percebe os vínculos entre seus integrantes.
Muñoz cita como exemplo as diferenças de tamanho entre pais e filhos. Normalmente, crianças representam os adultos como figuras maiores.
Quando isso não acontece, um profissional pode investigar questões relacionadas à percepção de autoridade, proteção ou estabelecimento de limites.
Isso não significa, entretanto, que uma diferença de tamanho seja suficiente para afirmar que existe algum problema familiar.
O contexto importa mais do que um detalhe isolado

Interpretar desenhos infantis está longe de funcionar como um dicionário no qual cada cor, objeto ou traço possui um significado psicológico fixo.
O mesmo desenho pode ter explicações completamente diferentes dependendo da idade, personalidade, experiências e até do que aconteceu naquele dia.
Também vale perguntar à própria criança o que ela desenhou. Uma figura aparentemente estranha para um adulto pode ter uma explicação simples quando seu autor conta a história por trás dela.
Por isso, pais não precisam transformar cada desenho em uma investigação psicológica.
O mais interessante pode ser justamente conversar sobre aquilo que apareceu no papel. Perguntas abertas sobre personagens, lugares e acontecimentos permitem que a criança explique seu próprio universo.
Quando existe uma preocupação real e persistente com seu comportamento ou estado emocional, o desenho pode fornecer pistas. Mas a interpretação adequada deve fazer parte de uma avaliação muito mais ampla conduzida por um profissional.
[ Fonte: ¡Hola! ]