As abelhas são conhecidas pelo mel, mas suas colmeias escondem outros produtos com características que despertam cada vez mais interesse científico. Um deles está sendo analisado por pesquisadores espanhóis em busca de uma possível aplicação na conservação de alimentos. A investigação combina microbiologia, inovação e produção rural, enquanto tenta responder a uma questão relevante para a indústria: seria possível aproveitar uma substância natural das colmeias para reduzir o uso de determinados aditivos?
Cientistas estão olhando para o própolis de uma maneira diferente

O protagonista da pesquisa é o própolis, substância produzida pelas abelhas a partir de materiais resinosos coletados em plantas e utilizada na própria proteção da colmeia.
Pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia dos Alimentos (ICTAL), da Universidade de León, na Espanha, estão estudando suas propriedades antimicrobianas e antioxidantes para avaliar uma possível aplicação como conservante natural em produtos derivados da carne.
O trabalho foi apresentado recentemente durante uma visita organizada pela Reserva da Biosfera Alto Bernesga ao instituto. A iniciativa reuniu 25 participantes ligados ao setor apícola e outras pessoas interessadas em descobrir como ciência e inovação podem ajudar a aproveitar de maneira sustentável recursos naturais disponíveis na região.
A atividade faz parte do projeto europeu RES-MAB, financiado pela União Europeia por meio da Fundação PRIMA.
Entre os visitantes estavam também crianças, que acompanharam as explicações dos pesquisadores, fizeram perguntas e puderam conhecer de perto como funciona um laboratório dedicado à ciência dos alimentos.
Mas a parte central da visita estava justamente naquilo que os cientistas tentam descobrir sobre o própolis.
O objetivo é investigar uma alternativa natural para determinados aditivos
Durante o encontro, a pesquisadora Eugenia Rendueles apresentou algumas das linhas de investigação desenvolvidas pelo ICTAL.
Uma delas busca determinar até que ponto as características antimicrobianas e antioxidantes do própolis poderiam ser aproveitadas na indústria de alimentos.
A possibilidade é particularmente interessante no setor de carnes, no qual diferentes aditivos são utilizados para ajudar na conservação, segurança e estabilidade dos produtos.
Entre eles estão nitratos e nitritos.
A pesquisa pretende avaliar o potencial do própolis como uma alternativa natural a esses compostos em determinadas aplicações. Isso não significa que sua substituição já esteja pronta para ocorrer em escala industrial. Antes disso, é necessário compreender detalhadamente sua eficácia, comportamento e possíveis usos.
Os participantes da visita puderam conhecer os objetivos do projeto, os métodos utilizados pelos pesquisadores e os avanços obtidos até agora.
Também percorreram as instalações do ICTAL para observar como são realizados ensaios e análises laboratoriais destinados a identificar as características da substância e avaliar seu comportamento quando aplicada ao setor alimentício.
Esse processo é essencial porque transformar uma propriedade observada na natureza em uma solução segura para alimentos envolve muito mais do que simplesmente adicionar um ingrediente a uma receita.
Do interior da colmeia para os laboratórios de alimentos
O interesse pelo própolis está relacionado às próprias funções que essa substância desempenha dentro das colmeias.

As abelhas utilizam esse material resinoso para revestir pequenas aberturas e contribuir para a proteção do ambiente interno. Sua composição, entretanto, pode variar de acordo com fatores como vegetação, região geográfica e materiais disponíveis para os insetos.
Para pesquisadores, essas características tornam o própolis uma matéria-prima particularmente interessante, mas também criam desafios.
Se o objetivo é desenvolver aplicações alimentícias consistentes, é necessário compreender como diferentes amostras se comportam e quais componentes estão relacionados aos efeitos desejados.
É justamente nesse ponto que entram os testes realizados em laboratório.
A investigação de propriedades antioxidantes e antimicrobianas pode ajudar a determinar se o produto das abelhas possui condições para assumir novas funções dentro da cadeia de produção de alimentos.
Caso aplicações desse tipo se mostrem viáveis, os benefícios potenciais não estariam limitados à indústria.
Existe também uma oportunidade para os próprios apicultores.
A descoberta pode criar uma nova oportunidade para quem trabalha com abelhas
A visita foi concebida como uma atividade de ciência cidadã, aproximando pesquisadores, produtores e moradores da região.
Essa conexão é importante porque novas aplicações para produtos apícolas podem aumentar seu valor econômico e criar alternativas de renda para comunidades rurais.
O própolis deixaria de ser observado apenas como um produto tradicional das colmeias e poderia ganhar importância como matéria-prima para soluções tecnológicas relacionadas à alimentação.
Para a Reserva da Biosfera Alto Bernesga, iniciativas como essa também ajudam a demonstrar como recursos naturais locais podem se conectar à pesquisa científica sem abandonar uma perspectiva de sustentabilidade.
A estratégia envolve aproximar o meio rural de universidades e centros de pesquisa, permitindo que conhecimento acadêmico circule para além dos laboratórios.
Ainda será necessário determinar até onde o própolis consegue chegar como conservante natural e quais aplicações poderiam funcionar de maneira segura e eficiente.
Mas a pesquisa revela algo interessante sobre um produto que as abelhas fabricam há milhões de anos.
Às vezes, a próxima inovação da indústria alimentícia não precisa nascer de uma molécula completamente nova. Ela pode já estar escondida dentro de uma colmeia, esperando que a ciência descubra o que fazer com ela.
[Fonte: leo noticias]