A expansão da energia solar na Europa acaba de ganhar um novo capítulo. Em uma região agrícola pouco conhecida, um projeto de dimensões impressionantes recebeu a autorização necessária para avançar rumo à construção. A instalação pretende transformar uma área de terras de baixa qualidade em uma das maiores fontes de eletricidade solar do continente. E, quando seus números são comparados com os atuais líderes europeus, a dimensão da mudança fica ainda mais evidente.
O último sinal verde finalmente chegou
A Autoridade Reguladora de Energia da Romênia (ANRE) concedeu a autorização de estabelecimento para o projeto Dama Solar, considerado o último grande aval legal necessário antes do início das obras.
A instalação será construída nos municípios de Pilu e Grăniceri, no noroeste do país, perto da fronteira com a Hungria. O empreendimento é conduzido pela Rezolv Energy e ocupará aproximadamente 1.064 hectares.
A escala impressiona: a usina terá potência de pico de 1,24 GW, enquanto sua conexão com a rede elétrica será de 1,07 GW. O investimento estimado está na casa dos 520 milhões de euros, abaixo das previsões anteriores, que chegaram a considerar valores próximos de 1 bilhão de euros.
O projeto também já garantiu contratos por diferença para 520 MW de capacidade, com preço de 42,2 euros por megawatt-hora. Além disso, a Corporação Financeira Internacional, ligada ao Banco Mundial, analisa um financiamento de 107 milhões de euros, enquanto a empresa busca apoio adicional do Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento.
Mas o número que realmente ajuda a entender o tamanho do empreendimento ainda está por vir.
Uma usina capaz de mudar a conta nacional
Em condições teóricas, os 1,24 GW poderiam produzir até 10,86 TWh por ano caso os painéis funcionassem continuamente em potência máxima. Na realidade, obviamente, uma usina solar depende da luz disponível, do clima e das condições de operação.
Considerando uma taxa média de utilização de 15%, a estimativa fica próxima de 1,63 TWh anuais. Segundo a Rezolv Energy, seria eletricidade suficiente para atender mais de 280 mil residências, equivalentes a aproximadamente 1 milhão de pessoas.
É aqui que o projeto ganha uma dimensão nacional.
Essa produção seria superior ao dobro de toda a eletricidade solar gerada pela Romênia em 2025. O país ainda está atrás da média da União Europeia na participação da energia solar: cerca de 9,78% de sua geração elétrica veio dessa fonte em 2025, contra 13,1% na média do bloco.
Ao mesmo tempo, a matriz romena continua bastante dependente de fontes como gás e carvão. A hidroeletricidade liderou a geração, mas combustíveis fósseis ainda tiveram participação relevante.
Por isso, Dama Solar não representa apenas uma nova usina. Para a Romênia, pode funcionar como um salto significativo na expansão das renováveis.

O projeto que pode mexer com o ranking europeu
A dimensão do empreendimento também muda a disputa entre os grandes parques solares do continente.
Atualmente, um dos maiores complexos fotovoltaicos em operação na União Europeia é o Witznitz, na Alemanha, com cerca de 650 MW de potência de pico. O projeto romeno, quando concluído, terá quase o dobro dessa capacidade.
Ele também ultrapassará o complexo espanhol Escatrón Chiprana Samper, formado por várias unidades que somam aproximadamente 850 MW.
Existe, porém, uma ressalva geográfica importante. Considerando toda a Europa, incluindo a porção asiática da Turquia, o complexo Kalyon Karapınar ainda é maior, com 1,35 GW e planos de expansão para até 1,85 GW.
Ainda assim, o Dama Solar representa uma mudança expressiva no mapa europeu de geração fotovoltaica. E não é o único projeto ambicioso em desenvolvimento na própria Romênia: a instalação de Ogrezeni pretende combinar geração solar e armazenamento em baterias em uma escala igualmente impressionante.
Painéis, ovelhas e uma área reservada à natureza
O projeto também chama atenção pelo modo como pretende utilizar o terreno. Parte das áreas agrícolas consideradas de baixa qualidade será transformada em pastagens.
A vegetação sob os painéis poderá ser mantida por ovelhas, reduzindo a necessidade de máquinas para realizar a manutenção do local. A ideia combina produção de energia com uma atividade agropecuária simples, em um modelo de uso compartilhado do solo.
O empreendimento ainda prevê uma reserva natural de 82 hectares dentro da área do projeto. A empresa afirma que será uma das maiores iniciativas privadas de restauração ambiental associadas a uma instalação solar no sudeste europeu.
A construção também deverá criar mais de 500 empregos nos próximos três anos, segundo as projeções divulgadas pela companhia.
Mas a usina ainda não começará a produzir energia imediatamente. A conexão à rede está prevista para setembro de 2028, enquanto o início da operação comercial é esperado para setembro de 2030.
Se o cronograma for cumprido, a Romênia poderá colocar em funcionamento uma instalação capaz de alterar não apenas sua própria matriz elétrica, mas também o ranking das maiores usinas solares da Europa.