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Ciência

O que realmente acontece no cérebro quando fazemos jejum?

O jejum intermitente virou tendência mundial, mas ainda há dúvidas: ficar horas sem comer atrapalha a concentração, a memória ou o raciocínio? Uma nova análise científica, baseada em mais de 70 estudos, traz uma resposta tranquilizadora — mas também revela exceções importantes e situações em que o cérebro pode, sim, sofrer impactos.
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Tempo de leitura: 2 minutos

De atletas a quem busca emagrecer, o jejum intermitente tornou-se um hábito popular. Porém, muitas pessoas acreditam que a falta de comida pode “desligar” o cérebro, provocar lapsos de memória ou reduzir o foco. Para investigar essa dúvida, pesquisadores da Universidade de Auckland revisaram dezenas de estudos envolvendo milhares de participantes. Os resultados mostram que, em adultos saudáveis, a mente continua funcionando normalmente durante períodos curtos de jejum — embora nem todos se beneficiem da mesma forma.

O metaanálise que derrubou o mito

Os cientistas analisaram 71 estudos com cerca de 3.500 pessoas, avaliando testes de memória, tomada de decisão, atenção, velocidade de reação e resolução de problemas. A conclusão foi clara: não há evidências sólidas de que o jejum intermitente de curto prazo prejudique as capacidades cognitivas dos adultos.

Segundo David Moreau, psicólogo cognitivo e autor principal da revisão, “os participantes que estavam em jejum tiveram desempenho quase idêntico àqueles que tinham comido recentemente”. Os resultados foram publicados na revista Psychological Bulletin.

Como o cérebro reage ao jejum

O jejum intermitente normalmente segue janelas como 16 horas sem comer e 8 horas de alimentação. Nesse intervalo, o corpo passa a usar reservas de energia e produz cetonas, que servem como combustível alternativo para o cérebro.

A análise mostrou que o desempenho mental permanece estável por até 12 horas sem ingestão de alimentos. Só após esse limite algumas pessoas apresentam leve queda na concentração ou na velocidade de processamento. “O cérebro adulto se adapta muito bem a períodos curtos sem comida”, afirmou Moreau. “Isso contraria a crença popular de que o pensamento fica automaticamente prejudicado.”

No caso das crianças, a história muda

O estudo encontrou uma diferença importante: crianças e adolescentes sofrem mais impactos cognitivos ao ficar sem comer. Entre os jovens, pular o café da manhã está associado a pior rendimento escolar, menor atenção e mais dificuldades de aprendizado.

“A idade é um fator decisivo”, explicou Moreau. “Cérebros em desenvolvimento precisam de um fluxo constante de energia. Mesmo algumas horas de jejum podem fazer diferença.”

Por isso, os autores não recomendam jejum intermitente para crianças, adolescentes ou pessoas com demandas energéticas elevadas.

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© FreePik

Jejum sem medo (e sem neblina mental)

De modo geral, os resultados são positivos para quem pratica jejum por saúde, controle de peso ou bem-estar. Em adultos, o raciocínio, as decisões, a memória e o foco permanecem intactos. O importante é que o jejum seja curto, planejado e não extremo.

Moreau resume: “A mensagem é de tranquilidade. A maioria dos adultos pode passar algumas horas sem comer sem notar perda cognitiva relevante.”

O que falta descobrir

Ainda há perguntas em aberto. Faltam estudos sobre jejum prolongado, impacto em idosos ou pessoas com doenças metabólicas. Também não é claro se fatores como estresse e cansaço podem alterar os resultados em situações de alta exigência mental.

Por enquanto, as evidências indicam que o jejum intermitente — quando praticado com responsabilidade — não atrapalha o cérebro e pode fazer parte de uma rotina saudável.

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