As férias escolares costumam significar mais liberdade, menos horários rígidos e muito tempo livre. Nesse cenário, é natural que celulares, tablets, videogames e plataformas de vídeo passem a ocupar uma parte maior do dia das crianças e adolescentes. Mas isso não significa, necessariamente, que seja preciso proibir as telas. Especialistas defendem uma abordagem mais equilibrada, baseada em hábitos saudáveis, diálogo e exemplos dentro da própria família.
O problema não é apenas quanto tempo a criança passa diante da tela
Quando as aulas terminam, boa parte da rotina desaparece. Os horários ficam mais flexíveis, as obrigações diminuem e muitas famílias passam mais tempo em casa. Com isso, os dispositivos eletrônicos acabam se tornando uma das principais formas de entretenimento.
Uma publicação da Universidade Católica San Antonio de Murcia afirma que o uso de dispositivos eletrônicos por crianças e adolescentes pode crescer mais de 30% durante o verão europeu. No entanto, os próprios dados não detalham quais estudos serviram de base para essa estimativa, o que impede afirmar que esse aumento aconteça da mesma forma em todas as famílias.
Mais importante do que contar horas é observar o impacto que as telas causam na rotina.
Se o uso de celulares, videogames ou televisão começa a substituir o sono, as brincadeiras ao ar livre, a prática de atividades físicas, os encontros com amigos ou o convívio familiar, aí sim os especialistas consideram que existe um motivo para atenção.
Nos últimos anos, diversas organizações deixaram de recomendar apenas um limite diário de tempo e passaram a analisar também a qualidade desse uso.
A Associação Espanhola de Pediatria, por exemplo, mantém uma postura bastante restritiva, orientando evitar telas até os seis anos de idade e limitar o uso recreativo posteriormente. Já a Academia Americana de Pediatria defende uma avaliação mais ampla, levando em consideração a idade da criança, o tipo de conteúdo consumido, o contexto e o que aquela atividade está substituindo.
Assistir a um vídeo educativo ao lado dos pais, por exemplo, produz efeitos diferentes de permanecer horas navegando sozinho antes de dormir.

Pequenas rotinas fazem mais diferença do que proibições rígidas
Durante as férias, é natural que as crianças durmam um pouco mais tarde e tenham horários menos rígidos. Isso não significa abandonar completamente a organização do dia.
Especialistas recomendam manter alguns pontos fixos na rotina, como horários relativamente previsíveis para dormir e acordar, refeições em família e momentos reservados para atividades longe das telas.
Uma das orientações mais consistentes é desligar celulares, tablets e videogames pelo menos uma hora antes de dormir. Além da luz emitida pelos aparelhos, notificações e conteúdos estimulantes podem dificultar o relaxamento e atrasar o início do sono.
Também é importante retirar os dispositivos do quarto durante a noite, reduzindo a tentação de continuar utilizando-os na madrugada.
Outra estratégia eficiente consiste em combinar previamente quando os aparelhos poderão ser utilizados. Regras estabelecidas com antecedência costumam gerar menos conflitos do que interromper uma partida de videogame ou retirar o celular de forma inesperada.
O exemplo dos adultos continua sendo um dos fatores mais importantes
Nem toda reclamação ao desligar um videogame significa dependência.
Segundo especialistas, é comum que crianças demonstrem frustração quando uma atividade muito prazerosa termina. Esse comportamento, isoladamente, não caracteriza vício nem síndrome de abstinência.
O sinal de alerta aparece quando o uso das telas passa a comprometer continuamente o sono, o rendimento escolar, as responsabilidades, os relacionamentos ou o interesse por outras atividades que antes faziam parte da rotina.
Nesses casos, vale buscar orientação profissional.
Outro aspecto frequentemente destacado pelos especialistas é o comportamento dos próprios adultos.
Estabelecer regras para crianças e adolescentes se torna muito mais difícil quando pais e responsáveis passam boa parte do tempo olhando para o celular durante refeições, conversas ou momentos de lazer em família.
Por isso, a Academia Americana de Pediatria recomenda que o chamado “plano digital” envolva todos os moradores da casa, criando momentos livres de dispositivos para adultos e crianças.
As férias não precisam ser uma época sem tecnologia. O objetivo é impedir que o tempo livre seja ocupado exclusivamente por algoritmos, vídeos infinitos e jogos eletrônicos. Com equilíbrio, diálogo e boas alternativas de lazer, as telas podem fazer parte das férias sem se tornarem a única forma de diversão.