Donald Trump não costuma esconder suas preferências quando eleições estrangeiras envolvem aliados políticos. No Brasil, porém, algo diferente aconteceu. Mesmo diante da candidatura de Flávio Bolsonaro, o presidente americano evitou um apoio explícito antes do primeiro turno. Segundo uma reportagem do Washington Post, essa cautela não teria representado falta de interesse. Pelo contrário: o silêncio teria sido parte de uma estratégia para evitar fortalecer involuntariamente Luiz Inácio Lula da Silva.
A ordem informal teria sido ficar quieto
A explicação veio de um assessor da Casa Branca ouvido sob anonimato pelo Washington Post. Segundo ele, integrantes do governo americano concluíram que uma manifestação ostensiva de Donald Trump poderia acabar prejudicando Flávio Bolsonaro, em vez de ajudá-lo.
A lógica era relativamente simples. Lula vinha explorando politicamente as tensões entre Brasília e Washington para apresentar a eleição também como uma questão de soberania nacional.
Um endosso explícito de Trump poderia alimentar justamente essa narrativa.
De acordo com a reportagem, integrantes do governo americano teriam observado dados indicando que as críticas de Lula à suposta interferência dos Estados Unidos encontravam receptividade entre eleitores brasileiros. Quando Trump permanecia fora do debate e a campanha voltava aos assuntos domésticos, esse efeito diminuía.
A estratégia, portanto, teria sido evitar fornecer munição eleitoral ao presidente brasileiro.
Isso ajuda a explicar uma cena que chamou atenção poucos dias antes da votação.
Trump foi questionado diretamente e não declarou apoio

Em 2 de outubro, dois dias antes do primeiro turno, jornalistas perguntaram diretamente a Trump se ele apoiaria Flávio Bolsonaro.
O presidente americano evitou responder.
Disse apenas que estava analisando a situação e que acompanharia a eleição brasileira “bem de perto”. No dia anterior, também havia classificado o pleito como muito importante, novamente sem mencionar nenhum candidato.
A cautela contrastava não apenas com a proximidade política entre Trump e a família Bolsonaro, mas também com a disposição do americano de se manifestar sobre eleições em outros países.
Segundo o Washington Post, essa diferença teria sido deliberada.
A reportagem original do jornal americano descreve a postura como uma decisão estratégica da Casa Branca diante das particularidades da disputa brasileira.
A questão da interferência já estava no centro da campanha
O cálculo político ocorreu em um ambiente especialmente delicado.
Antes da votação, integrantes da oposição ao governo Trump no Congresso americano já cobravam explicações sobre possíveis interferências dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro.
Um grupo formado por 30 deputados democratas e pelo senador independente Bernie Sanders enviou uma carta ao secretário de Estado Marco Rubio questionando medidas adotadas por Washington contra o Brasil e pedindo um compromisso de respeito ao resultado das eleições.
O governo americano não respondeu dentro do prazo solicitado pelos parlamentares.
No Brasil, a Polícia Federal também abriu um procedimento preliminar depois de uma representação da Advocacia-Geral da União relacionada a um projeto americano que previa recursos para organizações críticas ao que classificavam como abusos judiciais e censura no país.
Isso não significa que uma interferência eleitoral tenha sido comprovada. O próprio governo dos Estados Unidos negou publicamente que influenciar eleições estrangeiras faça parte de sua estratégia e afirmou reconhecer a soberania brasileira.
É justamente essa diferença entre alegações, investigações e fatos comprovados que permanece essencial no debate.
Depois do primeiro turno, o silêncio começou a diminuir

O cenário mudou após a votação de 4 de outubro.
Flávio Bolsonaro avançou para o segundo turno contra Lula depois de superar expectativas e chegar à nova etapa da disputa em posição eleitoral mais forte.
Trump então passou a se manifestar de maneira um pouco mais aberta. Segundo relatos publicados pela imprensa, ele classificou o resultado como uma vitória, embora inicialmente tenha evitado elaborar seu comentário.
A mudança sugere que o cálculo político pode ser diferente no segundo turno.
A disputa entre Lula e Flávio está marcada para 25 de outubro, e qualquer manifestação de Washington será observada tanto pelo possível impacto eleitoral quanto pelas consequências diplomáticas entre as duas maiores economias das Américas.
Às vezes, o apoio mais útil pode ser não aparecer
O episódio revela uma dinâmica pouco intuitiva das campanhas eleitorais.
O apoio de uma figura internacionalmente conhecida não necessariamente transfere votos para um candidato aliado. Dependendo da percepção do eleitorado sobre o país estrangeiro e seu líder, esse endosso pode até produzir efeito contrário.
É essa avaliação que, segundo o Washington Post, teria orientado a estratégia da Casa Branca antes do primeiro turno brasileiro.
Trump não teria ficado quieto por indiferença à eleição. A hipótese apresentada pela reportagem é praticamente o oposto: integrantes de seu governo estariam acompanhando a disputa com atenção suficiente para concluir que falar menos poderia ser politicamente mais conveniente.
Agora, com apenas dois candidatos na corrida, resta saber se essa estratégia de silêncio continuará até 25 de outubro ou se Trump decidirá assumir publicamente uma posição mais clara.