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O dólar despencou abaixo de R$ 5 depois da eleição e há uma explicação para a reação do mercado

A primeira sessão depois da eleição trouxe uma reação explosiva: dólar em forte queda, Bolsa em recorde e juros futuros recuando. Mas o movimento exige algumas ressalvas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Bastaram algumas horas depois da abertura dos mercados para ficar claro que o primeiro turno da eleição presidencial havia mudado radicalmente as expectativas dos investidores. O dólar, que terminou a sexta-feira acima de R$ 5,21, despencou mais de 4% e rompeu a barreira dos R$ 5. Ao mesmo tempo, o Ibovespa disparou para níveis nunca vistos. O motivo não está em uma mudança repentina da economia brasileira, mas no que o mercado passou a esperar de 2027.

O dólar perdeu mais de 20 centavos em uma manhã

O dólar despencou abaixo de R$ 5 depois da eleição e há uma explicação para a reação do mercado
© Pexels

O movimento começou logo na abertura desta segunda-feira, 5 de outubro.

Na sexta-feira anterior à eleição, o dólar à vista havia encerrado cotado a R$ 5,2173. Às 9h19 desta segunda, era negociado a R$ 4,9746, queda de 4,65%. A moeda voltou, assim, a ficar abaixo dos R$ 5 pela primeira vez desde maio.

No fechamento PTAX desta segunda-feira, o Banco Central registrou taxa de venda de R$ 4,9859 para o dólar norte-americano.

A dimensão da reação fica ainda mais evidente quando se observa a Bolsa. O Ibovespa superou pela primeira vez os 200 mil pontos e chegou a avançar mais de 8% durante a sessão, no maior movimento diário desde março de 2020.

Não foi um fenômeno restrito ao Brasil. Antes mesmo da abertura da B3, ETFs ligados ao mercado brasileiro negociados no exterior chegaram a subir mais de 12%, indicando que investidores internacionais também estavam recalculando rapidamente suas posições.

O que aconteceu nas urnas para provocar tudo isso?

Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na liderança, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva. Os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro.

A diferença não garante a vitória de Bolsonaro, mas surpreendeu parte do mercado porque pesquisas anteriores à votação indicavam um cenário mais favorável a Lula.

Para os investidores, isso mudou as probabilidades.

O mercado passou a considerar maior a possibilidade de alternância de poder em 2027. Flávio Bolsonaro é percebido por muitos agentes financeiros como potencialmente mais favorável a redução de gastos, privatizações e reformas destinadas a controlar a dívida pública.

Também pesou o desempenho do PL nas eleições legislativas. O partido saiu fortalecido no Congresso, o que levou investidores a imaginar que um eventual governo Bolsonaro poderia encontrar condições mais favoráveis para aprovar parte de sua agenda econômica.

Isso não significa que o mercado esteja declarando quem seria “melhor” para o país. Preços financeiros refletem expectativas sobre políticas econômicas, riscos e retornos futuros, não uma avaliação completa sobre um governo.

A Bolsa também teve um dia fora do comum

A reação apareceu em praticamente todas as classes de ativos brasileiros.

O Ibovespa rompeu os 200 mil pontos, enquanto empresas sensíveis à política econômica apresentaram altas ainda maiores. Bancos, varejistas e estatais estiveram entre os destaques.

A Petrobras avançou mais de 5% durante a manhã, enquanto o Bradesco chegou a subir quase 13%. Magazine Luiza, particularmente sensível às expectativas sobre juros, disparou mais de 26%.

O mercado de juros talvez tenha enviado um sinal ainda mais impressionante.

Contratos de DI de longo prazo recuaram mais de um ponto percentual. A taxa para janeiro de 2035, por exemplo, caiu 126 pontos-base durante a manhã. Os investidores estavam, na prática, reduzindo o prêmio exigido para carregar risco brasileiro no futuro.

Esse movimento ajuda também a explicar a valorização das ações. Juros futuros menores podem favorecer empresas endividadas, estimular a atividade econômica e tornar a renda variável relativamente mais atraente.

Mas nada mudou nas contas públicas durante o fim de semana

Essa é provavelmente a ressalva mais importante.

A dívida brasileira não diminuiu repentinamente. O déficit público não desapareceu e nenhuma reforma fiscal foi aprovada entre sexta-feira e segunda-feira.

O que mudou foi a expectativa.

Investidores passaram a atribuir probabilidades diferentes aos cenários políticos possíveis depois de janeiro de 2027. É justamente essa mudança de percepção que pode alterar imediatamente preços de moedas, ações e títulos, mesmo antes de qualquer política econômica ser implementada.

Por isso, a reação desta segunda-feira não deve ser interpretada como garantia de que o dólar continuará caindo.

Alguns analistas citam a região entre R$ 4,80 e R$ 4,95 como possível intervalo nas próximas semanas caso a percepção eleitoral continue favorecendo Bolsonaro. Mas essas projeções dependem do segundo turno, das pesquisas, das alianças políticas e principalmente das propostas econômicas apresentadas pelos candidatos.

Até 25 de outubro, cada pesquisa pode mexer com o câmbio

A volatilidade provavelmente será uma das características das próximas três semanas.

Se novas pesquisas mostrarem aumento da vantagem de Bolsonaro, o mercado pode aprofundar algumas das apostas feitas nesta segunda-feira. Se Lula recuperar terreno, parte do movimento pode ser revertida.

Também haverá atenção sobre as equipes econômicas, propostas fiscais e alianças construídas pelos candidatos.

Mesmo uma eventual vitória de Bolsonaro não garantiria automaticamente o cenário que hoje está sendo precificado. Um Congresso mais à direita não necessariamente apoiará todas as medidas de ajuste fiscal, e promessas de campanha precisam se transformar em políticas concretas antes de produzirem resultados econômicos.

O dólar abaixo de R$ 5, portanto, representa principalmente uma fotografia das expectativas do mercado neste momento.

As urnas mudaram essas expectativas em poucas horas. Até o segundo turno, elas podem mudar novamente.

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