Por muito tempo, os cientistas imaginaram que o fim da vida na Terra estaria ligado principalmente ao envelhecimento do Sol e ao desaparecimento gradual dos oceanos. Um novo modelo, porém, apresenta uma sequência diferente. O planeta pode continuar existindo por muito tempo, mas as condições que permitem a vida complexa podem desaparecer bem antes do cenário tradicionalmente previsto — e o elemento envolvido é justamente aquele que torna nossa atmosfera respirável.
O relógio invisível que começou muito antes de qualquer preocupação humana
A pesquisa, publicada na Nature Geoscience, combinou modelos climáticos e processos biogeoquímicos para tentar descobrir como a atmosfera terrestre poderá evoluir ao longo de bilhões de anos. Como ninguém consegue prever com precisão o futuro da geologia, do clima e da biologia, os pesquisadores adotaram uma abordagem probabilística.
Em vez de apostar em uma única previsão, o modelo foi executado mais de 400 mil vezes, alterando seus parâmetros a cada simulação. O objetivo era encontrar uma faixa estatística plausível para o futuro da atmosfera.
O resultado aponta para uma mudança importante em relação às previsões tradicionais. Durante décadas, uma das principais hipóteses indicava que a biosfera entraria em colapso em cerca de 2 bilhões de anos, quando o aumento gradual do brilho solar provocasse aquecimento extremo e reduzisse o dióxido de carbono disponível para a fotossíntese.
Mas o novo cenário indica que a sequência pode ser diferente.
À medida que o Sol fica progressivamente mais luminoso, processos envolvendo o ciclo dos carbonatos e silicatos retiram cada vez mais CO₂ da atmosfera. Em algum momento, a quantidade disponível se torna insuficiente para sustentar grande parte dos organismos fotossintéticos.
E é aí que acontece a virada.
O verdadeiro problema aparece quando o equilíbrio começa a desaparecer
Plantas e outros organismos fotossintéticos não apenas dependem das condições atmosféricas: eles também ajudam a manter uma característica fundamental do planeta atual. Se esses organismos começarem a desaparecer em grande escala, a produção de oxigênio cairá junto.
O modelo prevê que essa transformação não será necessariamente uma redução lenta e uniforme. Depois de determinado ponto, a perda de organismos fotossintéticos poderá desencadear uma desoxigenação relativamente rápida da atmosfera.
A estimativa central coloca a sobrevivência da atmosfera rica em oxigênio em aproximadamente 1,08 bilhão de anos, com uma margem de incerteza de cerca de 140 milhões de anos.
Isso significa que o grande marco não seria a evaporação dos oceanos. Antes disso, a Terra poderia passar por uma transformação atmosférica profunda, deixando de oferecer as condições necessárias para a maioria das formas de vida complexas que conhecemos.
O cenário final seria bastante diferente do planeta atual: uma atmosfera com pouco oxigênio, níveis elevados de metano, concentração muito baixa de CO₂ e ausência da camada de ozônio protetora.
Em outras palavras, a Terra poderia se aproximar de condições semelhantes às existentes antes do chamado Grande Evento de Oxidação, há bilhões de anos.
A descoberta também muda a maneira de procurar vida no espaço
A importância do estudo vai além do futuro distante da Terra. O resultado também pode alterar a forma como os astrônomos interpretam atmosferas de planetas que orbitam outras estrelas.
Oxigênio e ozônio estão entre as chamadas bioassinaturas mais procuradas porque podem indicar processos biológicos. O problema é que, se uma atmosfera rica em oxigênio representa apenas uma fase relativamente curta da história de um planeta habitado, mundos vivos podem passar despercebidos simplesmente porque ainda não atingiram essa etapa — ou já a ultrapassaram.
Um estudo posterior citado pelos pesquisadores levou essa questão para uma situação ainda mais interessante: imaginar como um futuro telescópio espacial da NASA conseguiria enxergar a Terra em diferentes momentos de sua própria história.
A conclusão mostra a dificuldade. Uma Terra semelhante à atual seria relativamente fácil de identificar pela presença de oxigênio. Já uma versão do planeta com concentrações muito menores desse gás poderia esconder uma biosfera ativa dos instrumentos, mesmo que a vida continuasse existindo.
Isso cria uma possibilidade importante para a astronomia: um planeta sem uma assinatura forte de oxigênio não necessariamente é um planeta sem vida.
O estudo, portanto, não representa uma ameaça para a humanidade atual. Um bilhão de anos está muito além de qualquer horizonte relevante para nossa civilização. Seu verdadeiro impacto é científico: ele sugere que a atmosfera que consideramos normal pode ser apenas uma etapa passageira na longa história de um planeta habitado.