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Ciência

Daltonismo não é simplesmente não enxergar cores: entenda o que acontece

O daltonismo está longe de significar enxergar tudo em preto e branco. Existem diferentes formas da condição, e algumas delas alteram a percepção das cores de maneiras surpreendentes.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Imagine olhar para uma paisagem, uma placa de trânsito ou uma roupa e perceber as mesmas cores que outra pessoa ao seu lado. Agora imagine que, sem que nenhum dos dois perceba, essas cores não sejam exatamente iguais para vocês. É isso que acontece em diferentes formas de daltonismo. A condição é muito mais complexa do que a antiga ideia de simplesmente “não enxergar cores”.

O que realmente muda dentro dos olhos

O daltonismo reúne diferentes alterações na capacidade de distinguir determinadas cores. Por isso, não existe uma única maneira de uma pessoa daltônica enxergar o mundo.

Na maioria dos casos, a alteração está relacionada aos cones, células especializadas da retina que detectam diferentes comprimentos de onda da luz. De maneira simplificada, temos três grupos principais de cones associados à percepção do vermelho, verde e azul.

Quando um deles está ausente ou funciona de maneira diferente, o cérebro recebe informações modificadas e precisa interpretar o ambiente a partir de uma combinação diferente de sinais.

Uma das formas mais comuns é o chamado tricromatismo anômalo. Nesse caso, os três tipos de cones estão presentes, mas um deles apresenta funcionamento alterado. Dependendo da célula afetada, a condição recebe nomes diferentes, como protanomalía, deuteranomalía ou tritanomalía.

Em outras situações, um dos tipos de cones não está presente. São casos mais intensos, classificados como protanopia, deuteranopia ou tritanopia.

Isso ajuda a explicar por que duas pessoas diagnosticadas com daltonismo podem apresentar experiências visuais bastante diferentes.

Vermelho e verde estão no centro das confusões

As alterações envolvendo vermelho e verde são as formas hereditárias mais frequentes. Na protanopia, por exemplo, determinadas tonalidades avermelhadas podem parecer mais escuras e acabar sendo confundidas com verde, marrom ou amarelo.

A deuteranopia também interfere principalmente na diferenciação entre vermelho e verde, mas pode alterar a maneira como outros tons, incluindo marrons, violetas e cinzas, são percebidos.

Existe ainda uma forma bem menos comum: a tritanopia. Nesse caso, a dificuldade está principalmente na distinção entre azul e amarelo. Algumas tonalidades de azul podem ser confundidas com verde, enquanto determinadas combinações envolvendo amarelo, rosa, vermelho e violeta também podem se tornar mais difíceis de separar.

Na prática, isso pode causar situações curiosas no cotidiano. Uma pessoa pode não conseguir identificar uma cor apenas pela tonalidade, mas reconhecer o objeto pelo formato, pela posição ou pelo contexto.

O daltonismo também tem forte componente genético e ocorre com muito mais frequência entre homens. Estimativas apontam que cerca de um em cada 12 homens apresenta algum tipo de deficiência na visão das cores, enquanto entre as mulheres a proporção é aproximadamente uma em cada 200.

A história do mundo em preto e branco é quase um mito

A ideia de que uma pessoa daltônica necessariamente enxerga tudo em preto e branco é uma das maiores simplificações sobre a condição.

Existem alterações extremamente raras nas quais a percepção das cores é praticamente inexistente. Nesses casos, a pessoa depende principalmente das diferenças de luminosidade para interpretar o ambiente. Essas condições podem ainda estar associadas a outros problemas de visão, como sensibilidade elevada à luz e redução da acuidade visual.

Mas isso está muito distante da experiência da maioria das pessoas com daltonismo.

A identificação da alteração pode ser feita por exames específicos. Um dos mais conhecidos é o teste de Ishihara, formado por círculos compostos por pontos coloridos que escondem números ou símbolos. Dependendo da percepção cromática, determinadas figuras ficam fáceis ou difíceis de identificar.

Também existem avaliações mais detalhadas, como o teste de Farnsworth-Munsell, capaz de analisar com maior precisão quais tonalidades provocam dificuldades e qual é a intensidade da alteração.

No dia a dia, muitas pessoas desenvolvem estratégias próprias para compensar essas diferenças. Contraste, posição, formato e contexto podem fornecer informações que a cor isoladamente não oferece.

No fim, o daltonismo revela algo mais profundo sobre a visão humana: duas pessoas podem observar exatamente a mesma cena e ainda assim perceber um mundo de cores ligeiramente diferente.

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