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Ciência

BepiColombo chega a Mercúrio e pode ajudar a explicar se o planeta teve relação com a origem da Lua

A chegada da missão BepiColombo a Mercúrio abre uma nova fase na investigação sobre a história do Sistema Solar. Entre as perguntas em jogo está uma das mais intrigantes: será que parte do material perdido por Mercúrio ajudou, direta ou indiretamente, na formação da Lua?
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, a explicação mais aceita para a origem da Lua envolve uma colisão gigantesca entre a Terra primitiva e um corpo do tamanho de Marte chamado Theia.

O impacto teria lançado uma enorme quantidade de material para o espaço. Com o tempo, esses detritos teriam se unido e formado nosso satélite natural.

Agora, duas linhas de pesquisa estão tornando essa história mais complexa.

De um lado, a missão BepiColombo está prestes a iniciar estudos detalhados de Mercúrio. Do outro, novas simulações sugerem que a Lua pode ter se formado muito mais rapidamente do que imaginávamos.

Em alguns cenários, o processo teria levado apenas cinco horas.

Mercúrio pode ter perdido boa parte de sua camada externa

Um fragmento vindo do espaço pode ter revelado o segredo mais estranho de Mercúrio
© Unsplash

Mercúrio é um planeta estranho.

Apesar de ser o menor do Sistema Solar, possui um núcleo de ferro gigantesco em relação ao seu tamanho. Esse núcleo representa cerca de 65% da massa total do planeta.

Na Terra, a proporção é muito menor.

Uma das hipóteses é que Mercúrio tenha começado sua história como um planeta maior e depois tenha perdido parte de suas camadas externas em uma colisão colossal ocorrida há aproximadamente 4,5 bilhões de anos.

Se isso realmente aconteceu, surge uma pergunta inevitável: para onde foi todo esse material?

É justamente aí que aparece uma ideia provocadora.

Alguns pesquisadores consideram possível que parte desses detritos tenha se misturado com outros corpos do Sistema Solar primitivo e, eventualmente, contribuído para a formação da Terra, de Vênus ou até mesmo da Lua.

Isso não significa que Mercúrio tenha “criado” a Lua. A proposta é mais ampla: o satélite pode ter se formado a partir de materiais provenientes de diferentes mundos jovens.

BepiColombo pode testar hipóteses antigas

A missão BepiColombo foi desenvolvida em conjunto pela Agência Espacial Europeia, a ESA, e pela agência espacial japonesa JAXA.

Lançada em 2018, ela passou anos realizando uma trajetória complexa pelo Sistema Solar interior.

A missão precisou de vários sobrevoos planetários para reduzir sua velocidade e conseguir se preparar para entrar em órbita ao redor de Mercúrio.

Agora, seus dois orbitadores poderão estudar o planeta de maneira complementar.

Entre os objetivos estão analisar a composição da superfície, investigar a estrutura interna, medir o campo magnético e procurar sinais de atividade geológica.

Esses dados poderão revelar se Mercúrio realmente perdeu grandes quantidades de material no passado.

Uma pista química deixou os cientistas intrigados

A missão Messenger, da NASA, já havia encontrado uma anomalia interessante em Mercúrio.

As proporções de potássio e tório observadas no planeta não combinavam perfeitamente com a ideia de que ele tenha se formado exatamente onde está hoje.

O potássio evapora com relativa facilidade em ambientes extremamente quentes. O tório, por outro lado, resiste melhor a temperaturas elevadas.

Por isso, um planeta que tivesse se formado muito perto do Sol deveria apresentar uma proporção diferente desses elementos.

Mercúrio, porém, contém mais potássio do que alguns modelos previam.

Isso fortaleceu outra hipótese: talvez o planeta tenha se formado mais longe do Sol e posteriormente migrado para sua órbita atual.

Se essa trajetória envolveu grandes colisões, a história do planeta pode ter sido ainda mais violenta.

Mercúrio guarda outros grandes mistérios

BepiColombo também tentará responder por que a superfície de Mercúrio é tão escura.

Os cientistas querem saber se existe uma grande quantidade de grafite e também entender como o planeta mantém um campo magnético apesar de seu pequeno tamanho.

Outro objetivo envolve os polos.

Embora a superfície iluminada possa superar 400 °C, alguns crateras polares permanecem eternamente na sombra.

Nessas regiões extremamente frias, há evidências de depósitos de gelo de água.

Essa combinação de calor extremo e gelo permanente torna Mercúrio um dos mundos mais curiosos do Sistema Solar.

A Lua pode ter se formado em apenas cinco horas

O homem que nunca pisou na Lua, mas acabou se tornando seu único morador eterno
© Unsplash

Enquanto BepiColombo investiga Mercúrio, outro estudo voltou a mexer com o debate sobre a formação da Lua.

Pesquisadores do Southwest Research Institute e da Universidade do Arizona utilizaram simulações de alta resolução para recriar o gigantesco impacto entre a Terra e Theia.

Os resultados mostraram algo surpreendente.

Dependendo da temperatura e da estrutura dos dois corpos antes da colisão, uma Lua praticamente formada poderia surgir em apenas algumas horas.

Em determinadas simulações, isso aconteceu em aproximadamente cinco horas.

Isso é muito mais rápido do que os modelos tradicionais, nos quais os detritos permanecem em órbita e se agrupam gradualmente.

O Sistema Solar jovem pode ter sido muito mais caótico

Se grandes colisões eram capazes de arrancar camadas inteiras de planetas e formar luas em poucas horas, então os primeiros milhões de anos do Sistema Solar podem ter sido extremamente violentos.

Planetas e planetesimais colidiam, trocavam material e alteravam suas órbitas.

Nesse cenário, a origem da Lua talvez não possa ser compreendida apenas como uma história envolvendo Terra e Theia.

Mercúrio pode ter participado, mesmo que indiretamente, desse enorme processo de mistura.

Por enquanto, essa possibilidade permanece especulativa.

Mas BepiColombo poderá fornecer algo que os modelos de computador não conseguem: medições detalhadas diretamente em Mercúrio.

Se a missão encontrar sinais claros de que o planeta perdeu grande parte de sua antiga crosta ou manto, os cientistas terão novas pistas sobre o destino desse material.

E isso pode transformar Mercúrio em uma espécie de arquivo geológico dos eventos que moldaram os planetas rochosos.

Talvez, escondida em sua superfície escura e em seu enorme núcleo metálico, esteja também uma pista sobre como a Lua surgiu.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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