Passar algumas horas sem comer virou uma das estratégias alimentares mais populares dos últimos anos. Junto com o interesse pelo jejum intermitente, cresceram as promessas de emagrecimento acelerado, renovação celular e uma vida mais longa. O nutricionista Mario Rey questiona esse entusiasmo. Sua crítica não significa que o método seja inútil: o problema aparece quando benefícios possíveis se transformam em garantias que os estudos em seres humanos ainda não sustentam.
Uma ferramenta alimentar cercada de promessas

Em participação no podcast de nutrição do Fit Generation, Rey afirmou que os benefícios atribuídos ao jejum foram exagerados. Ele destacou especialmente alegações sobre pacientes com câncer e aumentos expressivos da expectativa de vida.
Ao mesmo tempo, reconheceu que a estratégia pode contribuir para a perda de peso e para melhorias em determinados indicadores de saúde. A distinção é importante: reconhecer benefícios não equivale a considerar o jejum necessário ou superior para todas as pessoas.
O termo também reúne práticas diferentes. Há protocolos que limitam os horários das refeições, como o 16:8, e outros que alternam dias de alimentação habitual com períodos de forte restrição. Seus resultados não devem ser tratados como idênticos.
Jejuar emagrece mais do que reduzir calorias?
Uma revisão publicada no The BMJ reuniu 99 ensaios clínicos randomizados, com 6.582 adultos, para comparar estratégias de jejum, restrição calórica contínua e alimentação sem uma restrição prescrita.
De modo geral, os resultados não mostraram uma grande vantagem do jejum sobre a redução diária de calorias. O jejum em dias alternados foi a única modalidade com perda adicional de peso nessa comparação: aproximadamente 1,29 quilo, em média.
Os autores classificaram essa diferença como pequena. Nos estudos com duração de pelo menos 24 semanas, não apareceram diferenças relevantes de peso entre as estratégias de jejum e a restrição contínua.
A análise também apresenta limites: o acompanhamento mediano foi de 12 semanas. Portanto, esses resultados não respondem, sozinhos, ao que acontece após vários anos.
Autofagia não é uma garantia de rejuvenescimento

Uma das promessas mais frequentes envolve a autofagia, processo pelo qual as células degradam e reciclam componentes internos.
Yoshinori Ohsumi recebeu o Nobel de Medicina de 2016 por descobertas sobre os mecanismos desse processo. Seus trabalhos fundamentais envolveram leveduras e abriram caminhos para investigar a relação da autofagia com a saúde e as doenças.
Esse reconhecimento científico não comprovou que um protocolo popular de jejum prolonga a vida humana. Também não demonstrou que ficar determinado número de horas sem comer trata o câncer.
Rey chama atenção justamente para essa passagem indevida entre uma descoberta biológica e uma promessa clínica. Investigar um mecanismo celular é diferente de demonstrar um benefício duradouro em pessoas que seguem uma rotina alimentar específica.
Diabetes exige uma avaliação individual
O jejum também aparece em pesquisas com pessoas com diabetes tipo 2. Uma revisão de 2026 descreve melhorias de peso e controle glicêmico em comparação com a alimentação habitual, com eficácia semelhante à restrição calórica para alguns resultados.
Entretanto, os autores destacam a importância do ajuste dos medicamentos para evitar problemas durante o tratamento.
O Instituto Nacional de Diabetes e Doenças Digestivas e Renais dos Estados Unidos explica que a segurança depende de fatores como o tipo de diabetes, o controle da glicose e os remédios utilizados.
Pessoas que usam insulina ou medicamentos capazes de provocar hipoglicemia precisam de orientação antes de mudar os horários das refeições. Ajustes de dose não devem ocorrer por conta própria.
O método precisa funcionar na vida real
A comparação científica mais útil não é entre “jejuar” e “não fazer nada”. É entre diferentes formas de organizar a alimentação e alcançar um objetivo com segurança.
Uma janela alimentar pode facilitar a rotina de algumas pessoas. Para outras, uma distribuição diferente das refeições será mais viável. O relógio, isoladamente, não descreve a qualidade nem a quantidade do que se come.
Os estudos permitem considerar o jejum uma opção, sem transformá-lo em obrigação. E não sustentam a ideia de que quem prefere outra estratégia está deixando de aproveitar um caminho comprovadamente superior para emagrecer ou viver mais.