Durante anos, um país europeu apostou pesado em uma ideia ambiciosa: oferecer empréstimos, subsídios e vantagens fiscais generosas para convencer mais casais a ter filhos. A proposta parecia simples e sedutora, e por algum tempo os números até sugeriram que o plano estava funcionando. Mas a realidade se mostrou mais complexa. Agora, famílias endividadas, especialistas céticos e uma taxa de natalidade em queda colocam em xeque um dos experimentos demográficos mais ousados do mundo.
O plano bilionário para convencer casais a ter filhos

Quando a assistente social Barbara Elek se senta em um banco de parque na cidade húngara de Debrecen para checar seus e-mails, ela não espera apenas uma notícia médica. O resultado daquela mensagem pode definir o futuro financeiro dela e do marido, Levi, um chef de cozinha. O casal aguarda saber se a terceira tentativa de fertilização in vitro deu certo. Se a resposta for negativa, o problema não será apenas a dor de não conseguir ter um filho. Eles também poderão ser obrigados a devolver uma dívida pesada, com juros e penalidades.
A história dos dois ajuda a explicar por que a política natalista da Hungria se tornou tão controversa.
Nos últimos 16 anos, o país implementou um dos programas mais agressivos do mundo para elevar sua taxa de natalidade. Sob o governo de Viktor Orbán, casais jovens passaram a ter acesso a empréstimos sem juros, subsídios e benefícios fiscais em troca do compromisso de formar famílias maiores. Em muitos casos, os incentivos eram estruturados como uma aposta no futuro: quanto mais filhos o casal tivesse, melhores seriam as condições. Com três filhos, por exemplo, a dívida podia ser simplesmente perdoada.
Ao longo desse período, a Hungria destinou entre 4% e 5% do seu PIB para essas políticas, o equivalente a quase US$ 16 bilhões. É um volume de recursos tão alto que se aproxima da meta de gastos com defesa recomendada pela OTAN para seus membros. Ao mesmo tempo, o governo investiu em uma campanha de marketing intensa para vender a imagem de uma “Hungria amiga da família”.
Em alguns casos, o pacote pareceu funcionar. Casais com vários filhos conseguiram reformar casas, trocar de carro e reduzir a carga tributária. Para famílias como a de Máté e Ági Gorondy, pais de cinco crianças, os benefícios ajudaram a tornar a vida mais viável. Eles reconhecem que as políticas públicas contribuíram para criar um ambiente mais favorável à ideia de ter filhos.
O número de nascimentos subiu, mas o efeito não durou muito

Durante algum tempo, os resultados deram fôlego ao discurso do governo. A taxa de fecundidade da Hungria subiu de 1,25 em 2010 para 1,61 em 2020. Para defensores de políticas familiares mais agressivas, inclusive fora da Europa, o país parecia ter encontrado uma fórmula promissora.
Mas o avanço não se sustentou.
Nos últimos três anos, a taxa voltou a cair e chegou a 1,31, muito próxima do ponto de partida. O recuo levantou dúvidas sobre a real eficácia do programa. Para parte dos especialistas, o que ocorreu foi menos uma transformação estrutural e mais uma antecipação de decisões que já seriam tomadas.
A socióloga Eva Fodor, do Instituto da Democracia da Universidade Centroeuropeia, argumenta que os incentivos econômicos podem ter levado alguns casais a ter filhos mais cedo do que planejavam, sem necessariamente aumentar o número total de crianças que teriam ao longo da vida. O resultado é um impulso temporário, seguido de uma nova queda.
O debate não acontece apenas na Hungria. Países como Coreia do Sul também despejaram bilhões em bônus, subsídios e auxílios para estimular nascimentos, mas viram a fecundidade continuar despencando. Em Seul, o governo investiu cerca de US$ 290 bilhões desde 2008, e ainda assim a taxa chegou a apenas 0,8 em 2025.
Esse paralelo reforça uma suspeita incômoda: talvez dinheiro sozinho não resolva um problema que envolve mercado de trabalho, moradia, saúde, cultura, expectativas de carreira e a própria forma como a vida adulta está sendo reorganizada.
Quando a promessa de ajuda vira risco financeiro
Se o balanço macroeconômico já é controverso, no nível individual ele pode ser brutal.
Barbara e Levi, por exemplo, entraram no programa acreditando que teriam dois filhos. Em 2020, solicitaram um empréstimo equivalente a cerca de US$ 33 mil destinado a futuros pais. O problema começou quando descobriram que não conseguiriam engravidar naturalmente. Desde então, o casal passou por tratamentos de fertilização em uma clínica subsidiada pelo governo, a uma hora e meia de carro de casa.
Para evitar penalidades, Barbara precisa provar que fez tudo o que estava ao seu alcance para engravidar. A regra exige pelo menos quatro ciclos de tratamento, mas até agora ela passou por três. Na véspera da consulta decisiva, organizou pastas e mais pastas com documentos médicos e comprovantes financeiros para demonstrar seus esforços.
A notícia que ela recebe depois é devastadora: a transferência de embriões falhou. Além do sofrimento emocional, isso significa que as parcelas da dívida podem quadruplicar.
E eles não estão sozinhos. Segundo estimativas do Banco Nacional da Hungria, cerca de 25 mil casais que contraíram esses empréstimos entre 2019 e 2021 não tiveram filhos e deverão pagar juros punitivos neste ano. É uma em cada cinco famílias que aderiram ao programa naquele período.
Esse efeito colateral expõe o lado mais delicado da estratégia. Quando o Estado atrela benefícios à promessa de filhos, ele não está apenas incentivando nascimentos. Está transformando a fertilidade em uma espécie de contrato financeiro, sujeito a fatores que nem sempre podem ser controlados pelo casal.
O que a Hungria aprendeu com sua aposta na natalidade
A crítica a esse modelo não vem apenas de especialistas. A húngara Antónia Miskolczi, de 29 anos, também usou parte dos incentivos, mas vê a política como uma distribuição de dinheiro mal planejada. Para ela, o problema não está em apoiar famílias, e sim em priorizar empréstimos e promessas grandiosas enquanto serviços públicos básicos, como saúde, seguem em condições precárias.
Na visão dela, o Estado deveria começar pelo essencial. Melhorar hospitais, ampliar a qualidade do atendimento materno e oferecer segurança concreta para a criação dos filhos talvez fosse mais eficaz do que distribuir crédito condicionado à maternidade.
Agora, com a queda da natalidade e milhares de casais pressionados por dívidas, o novo governo húngaro terá de decidir se mantém, reformula ou abandona parte do programa. O desafio é enorme porque as medidas continuam populares. Muitas famílias organizaram seus planos de vida em torno desses incentivos, e cortá-los pode gerar forte reação pública.
No fim, a experiência da Hungria deixa uma pergunta difícil no ar: até onde um governo consegue influenciar a decisão de ter filhos usando dinheiro, sem transformar a intimidade e os riscos da vida familiar em uma conta que talvez não feche?
[Fonte: BBC]