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Mundo

Pão de queijo entra no top 50 dos melhores pães do mundo: o que a lista revela sobre nossa herança de forno e fogão

Pão é memória, técnica e identidade. Ao incluir o pão de queijo entre os 50 melhores do planeta, uma nova lista celebra a criatividade humana — do lavash armênio ao sangak iraniano. Entenda por que o clássico mineiro brilhou, como a seleção foi feita e o que isso diz sobre o Brasil no mapa do sabor.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Definir “pão” é fácil na cabeça e difícil no dicionário. Para o historiador William Rubel, autor de Bread: A Global History, pão é aquilo que cada cultura reconhece como tal — um jeito engenhoso de transformar grãos (e raízes) em alimento portátil, durável e afetivo. A nova seleção dos 50 pães mais emblemáticos do mundo comprova essa tese: técnicas, ingredientes e histórias formam uma massa viva. E nela, o nosso pão de queijo ganhou destaque merecido.

O que é pão, afinal

Mais que uma receita, pão é função social. Desde caçadores-coletores que assavam tubérculos e grãos no Deserto Negro da Jordânia, por volta de 10.000 a.C., a humanidade usa fermentação, calor e tempo para criar comida que viaja, alimenta e reúne pessoas. Por isso Rubel rejeita definições rígidas: o que vale é o papel que cada preparo cumpre — sustento, ritual, aconchego.

A força da diversidade

A lista percorre tradições que desafiam rótulos. Na Alemanha, pães densos de centeio passam horas no vapor até desenvolver doçura e profundidade (caso do pumpernickel). No Cáucaso, o lavash armênio — Patrimônio Imaterial da Unesco — nasce de mutirão: mulheres esticam folhas finíssimas e assam em fornos de barro. No Irã, o sangak vai direto sobre pedras quentes; na Etiópia, o injera de teff fermenta dias até virar esponja ácida que também serve de talher.

O lugar do pão de queijo

O Brasil aparece com uma história de engenhosidade. A mandioca, raiz nativa e traiçoeira (carrega glicosídeos cianogênicos), foi domesticada por povos indígenas por meio de técnicas de imersão, prensagem e secagem. Dela vem o polvilho — base do pão de queijo. No forno, a casquinha estala, o interior estica e exala leite e queijo; a leve acidez vem da fermentação do amido. É petisco, café da tarde, lembrança de infância e cartão-postal de Minas que o país inteiro adotou.

Outros destaques que contam histórias

Da América ao Oriente Médio, cada pão traz contexto. Em Montreal, bagels fervidos em água com mel e assados a lenha geram miolo denso, mastigável e levemente doce — tradição centenária. No Chile, a marraqueta crocante virou metáfora de prosperidade: “nascer com um marraqueta debaixo do braço”. Na Turquia, o simit mergulhado em melaço antes do forno ganha crosta caramelizada e sementes de gergelim. No Sri Lanka, o appam de arroz e coco forma tigelas crocantes perfeitas para curry. E há capítulos de dor e resiliência: o fry bread da Nação Navajo surgiu da escassez imposta, transformando farinha e banha em símbolo de permanência.

Técnica, terroir e identidade

Pães sintetizam clima, geologia e trocas culturais. O método tangzhong de Hong Kong cria miolo absurdamente macio (pai bao). A Islândia usa calor geotérmico para assar o rúgbrauð de umidade profunda. A Sardenha desidrata o pane carasau em folhas finíssimas que duram meses. Mesmo “novatos” entram no cânone: a italiana ciabatta, dos anos 1980, nasceu como resposta local à hegemonia das baguettes.

Por que essa lista importa (para além do ranking)

Rankings celebram sabores, mas sobretudo narrativas. Valorizar o pão de queijo nesse mapa global legitima conhecimentos indígenas, agricultura familiar da mandioca, queijarias regionais e uma cadeia criativa que reinventa tradição sem perder a alma. Para o leitor brasileiro, é convite duplo: defender a biodiversidade que nos dá matéria-prima e explorar, com curiosidade, o mundo que cabe num pedaço de pão — crocante por fora, macio por dentro, e cheio de história em cada mordida.

 

[ Fonte: CNN Brasil ]

 

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