Durante muito tempo, a melatonina foi vista como uma solução simples para noites difíceis. Natural, associada ao sono e amplamente divulgada, ela ganhou espaço nas casas de famílias ao redor do mundo. O problema é que esse avanço aconteceu mais rápido do que a ciência consegue explicar. Um estudo recente reacendeu o debate ao mostrar que, quando o assunto envolve crianças pequenas, o uso do hormônio está cercado de incertezas, riscos pouco discutidos e decisões tomadas sem base sólida em evidências.
O crescimento acelerado de um hábito pouco questionado

Uma revisão publicada em uma importante revista científica analisou o uso de melatonina em crianças de até seis anos e encontrou um cenário que preocupa especialistas. Em pouco mais de uma década, a prescrição do hormônio cresceu de forma contínua e, em alguns países, chegou a se multiplicar por cinco. O dado chama atenção não apenas pelo volume, mas pela velocidade com que o produto passou a fazer parte da rotina infantil.
Os pesquisadores reuniram quase duas décadas de estudos, incluindo dados observacionais de longo prazo e ensaios clínicos. As informações vieram principalmente de países da Europa, da Oceania e da América do Norte, onde há registros detalhados de prescrição e atendimentos médicos. O padrão se repete: mais crianças usando melatonina, por mais tempo e, muitas vezes, sem reavaliações frequentes.
Outro ponto sensível é a duração do tratamento. Entre 40% e 50% das crianças continuaram recebendo melatonina dois ou três anos após a primeira indicação, um período muito superior ao observado nos estudos clínicos disponíveis. Essa discrepância reforça uma lacuna importante entre o que é testado em ambiente controlado e o que acontece na prática cotidiana.
No Brasil, o cenário é ainda mais nebuloso. O produto não é indicado para menores de 19 anos, o que impede a existência de dados oficiais sobre consumo infantil. Ainda assim, o interesse crescente é evidente: buscas pelo termo “melatonina” aumentaram significativamente nos últimos anos, indicando que o tema ganhou popularidade entre famílias.
Quando o uso vira risco: intoxicações e emergências

O aumento do consumo trouxe uma consequência inesperada e alarmante. A melatonina se tornou a principal substância envolvida em exposições medicamentosas não supervisionadas em crianças pequenas em alguns países. Dados de centros de toxicologia mostram que os casos de ingestão acidental e overdose cresceram de forma expressiva entre o fim da década passada e o início da atual.
Embora a maioria dos episódios resulte em efeitos leves, há registros de quadros graves e até mortes. Esse conjunto de informações fez com que o tema deixasse de ser apenas uma discussão clínica e passasse a ser tratado como um problema de saúde pública. O risco é potencializado em locais onde a melatonina é vendida sem prescrição médica e apresentada em formatos atrativos para o público infantil, como gomas mastigáveis.
Especialistas destacam que a percepção de segurança associada ao rótulo de “suplemento” contribui para o uso descuidado. A facilidade de acesso e a ausência de orientação adequada criam um ambiente propício para erros de dosagem e uso prolongado sem acompanhamento profissional.
O que a ciência realmente sabe — e o que ainda não sabe
Apesar da popularidade, as evidências científicas sobre os benefícios da melatonina em crianças com desenvolvimento típico são limitadas. Os estudos experimentais disponíveis focam, em sua maioria, em crianças com distúrbios neurológicos ou do neurodesenvolvimento. Nesses grupos específicos, os resultados mostram alguma redução no tempo necessário para adormecer.
Fora desse contexto, porém, faltam dados robustos. Não há pesquisas consistentes que avaliem os efeitos do hormônio em aspectos fundamentais do desenvolvimento infantil, como crescimento, puberdade ou saúde metabólica. Especialistas alertam que essa ausência de informação impede afirmar com segurança que a melatonina seja eficaz, necessária ou mesmo segura para a maioria das crianças pequenas.
Outro ponto crítico é o uso prolongado em fases sensíveis do desenvolvimento, quando o organismo passa por mudanças hormonais importantes e pela consolidação do ritmo biológico do sono. Sem estudos de longo prazo, qualquer conclusão sobre impactos futuros permanece no campo das hipóteses.
Rotina, comportamento e o papel da exceção
Distúrbios do sono são comuns na infância, especialmente nos primeiros anos de vida. Ainda assim, médicos reforçam que a primeira linha de tratamento deve ser comportamental. Rotinas regulares, redução do uso de telas antes de dormir e orientação familiar apresentam eficácia comprovada e não envolvem riscos medicamentosos.
A recomendação é investigar a causa primária da dificuldade para dormir, em vez de recorrer imediatamente a soluções farmacológicas. Muitas queixas têm origem em hábitos inadequados, expectativas desalinhadas sobre o sono infantil ou estímulos excessivos no período noturno.
Há, no entanto, situações específicas em que a melatonina pode ser considerada. Em crianças com transtorno do espectro autista, por exemplo, a produção do hormônio costuma ser reduzida. Nesses casos, estudos indicam melhora no início e na manutenção do sono quando o uso é feito com acompanhamento médico rigoroso e associado a intervenções comportamentais.
O consenso entre especialistas é claro: a melatonina não deve ser encarada como solução universal. Entender como o sono se organiza em cada fase da infância e investir em estratégias adequadas continua sendo o caminho mais seguro — e, muitas vezes, o mais eficaz.
[Fonte: Correio Braziliense]