Um jantar em família termina depois de várias horas de conversas, risadas e histórias. Tudo correu bem e a companhia foi agradável. Mesmo assim, ao chegar em casa, surge uma vontade difícil de ignorar: ficar em silêncio, descansar e, talvez, passar algum tempo sem conversar com ninguém.
Essa sensação pode parecer contraditória. Afinal, se alguém realmente gosta de seus amigos e familiares, por que precisa se recuperar depois de passar algumas horas com eles?
A psicologia indica que as duas experiências podem coexistir. Uma interação social pode provocar emoções positivas enquanto acontece e, ao mesmo tempo, estar relacionada a uma sensação maior de cansaço algumas horas depois.
Uma pesquisa conduzida por Sointu Leikas, da Universidade de Helsinque, acompanhou o comportamento cotidiano de participantes e encontrou justamente esse padrão. O estudo foi publicado em 2020 na revista científica Heliyon.
O que acontece com nosso corpo depois de socializar?

Leikas utilizou uma metodologia conhecida como amostragem de experiências. A técnica permite investigar aquilo que as pessoas fazem e sentem durante a vida cotidiana, em vez de analisar seu comportamento apenas dentro de um laboratório.
O estudo contou com 74 participantes e reuniu 1.046 observações.
Em diferentes momentos, as pessoas precisavam informar, entre outras coisas, o quanto haviam sido sociáveis e conversadoras recentemente e qual era o nível de cansaço que sentiam.
Os resultados chamaram a atenção.
Comportar-se de maneira mais extrovertida estava associado a uma sensação maior de cansaço entre duas e três horas depois.
A relação permaneceu mesmo quando a pesquisadora levou em consideração outros fatores, como o nível de cansaço anterior, aquilo que os participantes estavam fazendo no momento da avaliação e suas características gerais de personalidade.
O estudo oferece evidências para uma sensação que muitas pessoas costumam chamar de “cansaço social”.
Isso não significa, porém, que toda interação com outras pessoas necessariamente provoque esgotamento. A própria pesquisadora destaca que as evidências científicas disponíveis sobre o fenômeno ainda são limitadas.
É possível se divertir muito e terminar completamente cansado
Um dos resultados mais interessantes apareceu quando os pesquisadores analisaram aquilo que acontecia durante a própria interação social.
Enquanto estavam socializando, os participantes que se comportavam de maneira mais extrovertida apresentavam melhor humor e menos cansaço.
A fadiga maior surgia posteriormente.
Essa diferença ajuda a separar duas experiências que frequentemente são tratadas como se fossem a mesma coisa.
Gostar de uma conversa representa aquilo que uma pessoa sente enquanto está vivendo aquela experiência. Precisar ficar sozinho e descansar depois corresponde a outro momento.
Outros estudos também encontraram benefícios imediatos associados a comportamentos mais extrovertidos.
Experimentos indicam que agir de maneira mais sociável pode provocar respostas positivas nas outras pessoas e aumentar emoções agradáveis, inclusive entre indivíduos que normalmente se consideram introvertidos.
Portanto, chegar em casa esgotado depois de uma reunião não significa que alguém tenha fingido estar se divertindo ou que, no fundo, preferisse não ter participado.
Por que conversar também exige esforço do cérebro?

Uma possível explicação está em tudo aquilo que nosso cérebro precisa fazer durante uma conversa sem que normalmente percebamos.
Uma interação social exige acompanhar aquilo que outra pessoa está dizendo, interpretar emoções e intenções, prestar atenção, lembrar informações e encontrar o momento adequado para responder.
Também precisamos controlar impulsos, escolher aquilo que queremos dizer e evitar respostas consideradas inadequadas para determinada situação.
Uma revisão científica sobre interação social e funções executivas indica que várias dessas tarefas dependem de processos cognitivos como memória de trabalho, atenção, controle cognitivo e inibição.
Isso não significa que cada conversa consuma uma quantidade específica e mensurável de “energia mental”.
Os próprios pesquisadores ainda discutem como o esforço cognitivo deve ser definido e medido, além dos mecanismos exatos responsáveis pela fadiga mental.
Ainda assim, essa necessidade constante de processar informações ajuda a explicar por que uma experiência agradável também pode ser cansativa.
Afinal, as duas coisas não são incompatíveis. Muitas atividades prazerosas exigem esforço e podem deixar uma pessoa exausta depois.
Introvertidos ficam mais cansados do que extrovertidos?
Uma das explicações mais populares para esse fenômeno é a chamada “bateria social”.
Segundo essa ideia, pessoas extrovertidas ganhariam energia ao interagir com outras pessoas, enquanto os introvertidos gastariam sua energia durante essas situações.
A realidade parece ser mais complexa.
A pesquisa conduzida por Leikas não encontrou evidências suficientes para sustentar uma divisão tão simples entre os dois grupos.
Não foram observadas diferenças individuais significativas na relação entre comportamento sociável e cansaço posterior. O efeito também não pôde ser explicado pelas características gerais de personalidade dos participantes.
Isso não significa que introvertidos e extrovertidos vivenciem encontros sociais exatamente da mesma maneira.
A extroversão está associada a diferenças na frequência com que as pessoas procuram situações sociais e também às emoções positivas que experimentam durante essas interações.
O que as evidências disponíveis não demonstram é que somente os introvertidos paguem uma espécie de “custo energético” depois de socializar.
Sentir vontade de ficar sozinho após passar horas com amigos ou familiares, portanto, não significa necessariamente ser antissocial ou não ter gostado da experiência.
Para algumas pessoas, conversar, prestar atenção e interagir durante várias horas simplesmente exige esforço. É perfeitamente possível aproveitar cada minuto de um encontro e, quando ele termina, precisar de um pouco de silêncio para recuperar as energias.
[ Fonte: Clarín ]