Você já se sentiu atraído por alguém que já estava em um relacionamento? Esse tipo de envolvimento amoroso, tão comum na vida real quanto em novelas, pode parecer apenas uma coincidência emocional — mas, para a psicologia, revela dinâmicas muito mais profundas. Descobrir o que está por trás dessas escolhas afetivas pode ser o primeiro passo para quebrar ciclos e buscar vínculos mais saudáveis.
O desejo pelo inacessível: uma armadilha inconsciente

Segundo teorias psicanalíticas, o desejo costuma nascer da ausência — queremos aquilo que não podemos ter. Nesse cenário, envolver-se com pessoas comprometidas pode ser uma forma de alimentar a fantasia de um dia sermos escolhidos, valorizados e amados. Essa expectativa gera uma espera constante, muitas vezes dolorosa, mas também carregada de esperança idealizada.
Esse padrão emocional é conhecido em alguns círculos clínicos como “síndrome de Fortunata”, inspirado na obra Fortunata y Jacinta, de Benito Pérez Galdós. Ele descreve quem se envolve repetidamente com pessoas indisponíveis, mantendo-se preso à expectativa mágica de que o outro mudará por amor.
Razões emocionais por trás da escolha
Envolver-se com quem já tem um relacionamento pode parecer algo aleatório ou inevitável. No entanto, há padrões recorrentes por trás dessas situações. Veja os mais comuns:
Repetição de laços familiares disfuncionais
Muitas vezes, reproduzimos na vida adulta os vínculos que experimentamos na infância. Se o amor parental foi distante ou condicionado, podemos crescer acreditando que amor exige esforço e sofrimento. Assim, amar alguém casado se torna uma forma inconsciente de reviver relações nas quais nunca fomos realmente escolhidos.
Baixa autoestima
Pessoas que não se sentem merecedoras de amor tendem a aceitar relacionamentos onde precisam provar constantemente seu valor. O papel de amante, muitas vezes oculto, reforça uma sensação interna de insuficiência — mesmo que ao mesmo tempo alimente a ilusão de ser desejado.
Ilusão de controle
A falsa sensação de poder também é frequente nesses casos. A pessoa pode acreditar que “manda” na relação, por ser o refúgio emocional ou sexual de alguém comprometido. No entanto, esse controle é ilusório e frequentemente gera frustração.
Competição inconsciente
O desejo de conquistar alguém que já está em outra relação pode ser uma forma de competição emocional herdada da infância, como quando se disputa a atenção dos pais com irmãos. Nesses casos, não se ama a pessoa, mas sim o que ela simboliza: uma vitória sobre o outro.
Vício no papel de vítima
Por mais contraditório que pareça, há pessoas que encontram prazer emocional no sofrimento desses vínculos. O papel de vítima pode gerar atenção, validação ou até mesmo um sentimento de intensidade confundido com paixão. Queixar-se, viver o drama e o sofrimento pode ativar uma carga emocional difícil de abandonar.
Fascínio pelo proibido
Do ponto de vista neuropsicológico, o que é proibido costuma ser mais excitante. A adrenalina e a dopamina liberadas diante do risco e da transgressão podem mascarar inseguranças pessoais e gerar uma sensação enganosa de liberdade ou poder.
Como quebrar esse ciclo
Especialistas afirmam que o primeiro passo para sair desse tipo de envolvimento é deixar de lado os julgamentos morais. Em vez de se culpar ou culpar o outro, a questão fundamental é: o que estou buscando nesse vínculo? Que carência estou tentando preencher? Por que aceito viver uma história pela metade?
Terapias como o psicanálise, a terapia cognitivo-comportamental ou técnicas como o ensaio dirigido ajudam a identificar padrões inconscientes, curar feridas antigas e desenvolver vínculos mais saudáveis e recíprocos.
Mais importante ainda é o compromisso com o processo terapêutico: seguir as orientações, se abrir emocionalmente e confiar no profissional. Só assim é possível transformar vínculos dolorosos em escolhas conscientes e amorosas.
Fonte: TN