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Por que os jovens são a geração mais solitária do Reino Unido

Durante muito tempo, a solidão foi tratada como um problema típico da velhice. Mas os dados mais recentes mostram um cenário bem diferente — e até preocupante. Hoje, quem mais sofre com o isolamento no Reino Unido são os jovens adultos, especialmente na faixa dos 20 anos. Entenda por que isso está acontecendo, o papel das redes sociais e quais caminhos começam a surgir para enfrentar o problema.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Jovens lideram os índices de solidão

Segundo dados do Office for National Statistics (ONS), 33% dos britânicos entre 16 e 29 anos afirmam sentir solidão “com frequência, sempre ou às vezes”. É a maior taxa entre todas as faixas etárias. Entre pessoas com mais de 70 anos, o índice cai para 17%.

O padrão não é exclusivo do Reino Unido. Neste ano, a Organização Mundial da Saúde analisou estudos de vários países e chegou à mesma conclusão: jovens adultos e adolescentes relatam os níveis mais altos de solidão.

Para a professora Andrea Wigfield, da Sheffield Hallam University, isso não é coincidência. “Adultos entre 18 e 24 anos são os que mais se sentem solitários. É um problema crescente”, afirma.

O choque entre expectativa e realidade

Por que os jovens são a geração mais solitária do Reino Unido
© Pexels

Existe uma ideia romantizada de que os 20 e poucos anos são uma fase leve, cheia de amigos e vida social intensa — algo eternizado por séries como Friends. Mas a realidade costuma ser bem diferente.

“Muitas vezes, o início da vida adulta é o período mais difícil da vida”, diz Richard Weissbourd, professor da Universidade Harvard. Mudanças de cidade, empregos instáveis, afastamento da família e amizades que se dispersam criam um terreno fértil para o isolamento.

A psicóloga Meg Jay chama isso de “dispersão”: todo mundo que você conhecia passa a viver longe, em rotinas completamente diferentes. Reconstruir laços do zero exige tempo, energia e coragem — algo que nem sempre vem junto com a vida adulta.

Comunidades mais fracas e o efeito “boliche sozinho”

Além das mudanças individuais, há um fenômeno coletivo em curso. A participação em igrejas, associações comunitárias, sindicatos e grupos locais vem caindo há décadas. Esse processo ficou conhecido como Bowling Alone, conceito criado pelo cientista político Robert Putnam em um ensaio clássico dos anos 1990.

A ideia é simples: cada vez mais pessoas fazem atividades sozinhas, mesmo aquelas que antes eram coletivas. Para jovens que já deixaram a casa dos pais, mas ainda não formaram família própria, essa perda de comunidade pesa ainda mais.

“Vivemos em uma sociedade cada vez mais individualista. A solidão é um sintoma disso”, resume Weissbourd.

Casas cheias, sensação de vazio

Pode parecer contraditório, mas morar com outras pessoas não garante menos solidão. Segundo o ONS, apenas 5% dos jovens no início dos 20 anos vivem sozinhos no Reino Unido. Ainda assim, muitos relatam se sentir emocionalmente isolados.

Conviver com colegas de casa com quem não há vínculo real pode, segundo especialistas, aumentar a sensação de invisibilidade. Estar cercado de gente que não se importa pode ser pior do que estar fisicamente sozinho.

Smartphones, redes sociais e o “comparar e se desesperar”

Outro fator central são as redes sociais. Jovens britânicos de 18 a 24 anos passam, em média, mais de seis horas por dia online, segundo o Ofcom. Isso não significa, necessariamente, menos contato presencial — mas pode intensificar sentimentos negativos.

Meg Jay descreve esse efeito como “comparar e se desesperar”: ao ver feeds cheios de viagens, festas e amizades perfeitas, muita gente conclui que está ficando para trás. A solidão, que já existe, ganha volume.

Solidão também é questão de saúde pública

Os impactos vão além do emocional. Estudos associam a solidão crônica a processos inflamatórios, maior risco de doenças cardiovasculares e até demência no longo prazo.

Por isso, o NHS vem investindo em social prescribing — quando médicos encaminham pacientes para atividades comunitárias, como grupos de caminhada, arte ou jardinagem. Em 2023, mais de um milhão de pessoas passaram por esse tipo de encaminhamento.

O problema, segundo especialistas, é que o acesso ainda depende muito de onde a pessoa mora. “Acaba virando uma loteria”, avalia Wigfield.

Há saída para a solidão dos jovens?

Apesar do cenário preocupante, há sinais de mudança. Algumas empresas estão reduzindo o trabalho remoto para jovens profissionais, e iniciativas comunitárias focadas em amizade começam a ganhar força.

Projetos como o The Great Friendship Project, em Londres, mostram que criar espaços seguros para conhecer pessoas ainda funciona — especialmente quando todos admitem que estão no mesmo barco.

Talvez a grande lição seja esta: a solidão dos jovens não é fraqueza individual. É um fenômeno social. Reconhecer isso é o primeiro passo para mudar o jogo — juntos.

[Fonte: G1 – Globo]

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