Durante grande parte da história, acompanhar o Sol e as estrelas foi a principal maneira de medir o tempo. Os relógios atômicos trouxeram uma referência muito mais estável e revelaram pequenas variações na duração dos dias. Agora, a comunidade internacional prepara uma mudança na relação entre essas duas medidas. O objetivo é tornar a hora oficial mais contínua, permitindo que ela se afaste gradualmente do tempo baseado na rotação terrestre.
Dois ritmos para medir o tempo

Relógios atômicos utilizam frequências associadas a transições de energia dos átomos para marcar intervalos extremamente regulares. Desde 1967, a definição internacional do segundo tem como referência uma transição específica do césio-133.
A rotação da Terra, por sua vez, apresenta pequenas oscilações. Interações entre o núcleo e o manto, além de outros processos do planeta, influenciam sua velocidade. Em períodos curtos, os dias podem ficar ligeiramente maiores ou menores.
O Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos, o NIST, explica que essas variações costumam envolver milissegundos. São diferenças imperceptíveis na rotina, mas mensuráveis com instrumentos de precisão.
Ao longo de intervalos maiores, a tendência geral é de desaceleração da rotação. Isso não impede episódios em que a Terra gira mais rapidamente, mostrando por que seu movimento não funciona como um mecanismo perfeitamente uniforme.
Para que servem os segundos intercalares
O Tempo Universal Coordenado, conhecido pela sigla UTC, é a referência internacional que sustenta a hora civil. Ele utiliza uma base atômica, mas recebe ajustes para permanecer próximo do UT1, escala relacionada à rotação terrestre.
Desde 1972, essa aproximação ocorre por meio dos segundos intercalares. No sistema atual, a diferença entre UTC e UT1 deve permanecer inferior a 0,9 segundo.
Quando um segundo positivo é acrescentado, a contagem pode passar de 23h59min59s para 23h59min60s antes de chegar à meia-noite. O minuto, nesse caso, tem uma marcação adicional.
Segundo as explicações do NIST sobre segundos intercalares, também existe a possibilidade de retirar um segundo caso a evolução da rotação exija o ajuste contrário. Esse seria um segundo intercalar negativo, uma operação diferente das inserções realizadas historicamente.
Por que mudar um sistema que funciona há décadas
A dificuldade aparece nas tecnologias que precisam compartilhar uma sequência de tempo contínua e inequívoca. Acrescentar ou retirar um segundo exige que equipamentos e programas tratem corretamente uma situação excepcional.
A resolução aprovada pela Conferência Geral de Pesos e Medidas em 2022 destaca riscos para telecomunicações, navegação por satélite e transmissão de energia.
O documento também aponta que operadores adotaram maneiras diferentes de aplicar os ajustes. Essa falta de uniformidade pode prejudicar a sincronização entre sistemas que deveriam usar a mesma referência.
A decisão prevê aumentar a diferença máxima permitida entre UTC e UT1 em 2035 ou antes. O planejamento solicitado busca assegurar continuidade ao UTC por pelo menos um século, com uma margem maior entre a hora civil e a rotação do planeta.
O que isso muda na vida cotidiana

Para a maioria das pessoas, a consequência deverá aparecer nos bastidores: menos intervenções excepcionais na contagem usada por serviços digitais. A proposta trata da coordenação entre escalas de tempo, sem modificar o movimento físico da Terra.
Atividades que dependem da orientação exata do planeta continuarão precisando dessa informação. Observações astronômicas, navegação celeste e determinadas medições utilizam referências ligadas à rotação terrestre.
Esses usuários poderão recorrer ao UT1 e aos dados que relacionam essa escala ao UTC. Assim, permitir maior afastamento entre as duas referências exige manter disponíveis as correções necessárias para cada aplicação.
O desafio é conciliar duas necessidades: uma hora contínua para a infraestrutura tecnológica e uma descrição precisa da posição da Terra para a ciência.