Pular para o conteúdo
Ciência

Por que os relógios deixarão de acompanhar a rotação da Terra como faziam antes?

Uma decisão internacional promete alterar uma regra utilizada há mais de cinco décadas. A mudança será quase invisível para as pessoas, mas fundamental para a tecnologia mundial.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Olhar para o relógio parece uma das coisas mais simples do cotidiano. Afinal, um segundo deveria durar exatamente o mesmo tempo em qualquer lugar do planeta. Mas existe um detalhe surpreendente: a Terra não gira com a regularidade que nossos sistemas tecnológicos exigem. Durante décadas, cientistas precisaram corrigir essa diferença. Agora, uma decisão internacional promete mudar essa relação e inaugurar uma nova etapa na maneira como o mundo organiza o tempo.

Por que os relógios precisam acompanhar uma Terra que não gira sempre na mesma velocidade?

Desde 1972, o Tempo Universal Coordenado (UTC), utilizado como referência para sincronizar relógios e sistemas tecnológicos, incorpora ocasionalmente os chamados segundos intercalares.

Esses ajustes existem porque duas maneiras de medir o tempo não avançam exatamente no mesmo ritmo.

Os relógios atômicos utilizam propriedades físicas dos átomos para medir intervalos com precisão extraordinária.

Já o tempo astronômico depende da rotação terrestre, que apresenta pequenas irregularidades.

A influência gravitacional da Lua, os movimentos dos oceanos e processos internos do planeta podem alterar discretamente a velocidade de rotação.

Para evitar que o UTC se afastasse demais do tempo baseado no movimento terrestre, foi estabelecido um limite de aproximadamente 0,9 segundo.

Quando necessário, os responsáveis pela medição internacional acrescentavam um segundo ao tempo oficial.

Desde 1972, foram introduzidos 27 segundos intercalares positivos, sendo o último em dezembro de 2016.

Embora pareça um procedimento insignificante, cada alteração exige cuidados especiais em sistemas digitais que dependem de sincronização precisa.

O comportamento inesperado da Terra criou um novo problema para a tecnologia

Historicamente, a rotação terrestre apresenta uma tendência de desaceleração em escalas de tempo muito longas.

Entretanto, nos últimos anos, cientistas registraram períodos em que o planeta girou ligeiramente mais rápido.

Essa mudança abriu a possibilidade de uma situação inédita: a necessidade de introduzir um segundo intercalar negativo.

Em vez de acrescentar um segundo, seria necessário removê-lo da contagem oficial.

O problema é que muitos sistemas computacionais não foram projetados para lidar com essa operação.

Uma alteração aparentemente mínima pode provocar inconsistências em registros de dados e processos que precisam ocorrer em sequência rigorosa.

Redes de telecomunicações, sistemas de navegação por satélite, operações financeiras e infraestruturas elétricas estão entre as áreas que exigem sincronização extremamente precisa.

Segundo estimativas do Laboratório Nacional de Física do Reino Unido, haveria uma probabilidade próxima de 30% de ser necessário um segundo intercalar negativo durante a próxima década, caso as regras anteriores fossem mantidas.

Esse risco ajudou a reforçar a necessidade de uma solução internacional.

RelógiOS1
© Nothing Ahead – Pexels

A partir de 2027, os relógios terão uma nova relação com a rotação terrestre

Em 15 de outubro de 2026, a Conferência Geral de Pesos e Medidas (CGPM) aprovou uma resolução para modificar as regras de funcionamento do UTC.

Segundo a decisão apresentada, a mudança começará a valer em 20 de maio de 2027.

A principal novidade será a ampliação do limite permitido entre o tempo oficial e aquele baseado na rotação da Terra.

A diferença máxima passará dos atuais 0,9 segundo para 3.600 segundos, equivalentes a uma hora.

Isso não significa que os relógios serão adiantados ou atrasados em uma hora.

Na prática, a margem maior permitirá que as duas referências se afastem gradualmente sem exigir a introdução frequente de segundos intercalares.

A expectativa é manter uma escala temporal contínua durante séculos, evitando correções abruptas.

A rotação terrestre continuará sendo monitorada, especialmente em aplicações científicas, astronômicas e de navegação que precisam conhecer sua relação exata com o tempo oficial.

O que realmente vai mudar no Brasil e no restante do mundo?

Para a população, a transformação deverá passar praticamente despercebida.

Os celulares continuarão exibindo os horários habituais, e os países manterão seus respectivos fusos horários.

No Brasil, o horário de Brasília continuará sendo definido em relação ao UTC, sem qualquer mudança automática provocada pela nova regra.

A decisão também não altera políticas de horário de verão, que dependem de escolhas específicas de cada país.

O impacto mais importante ocorrerá nos bastidores da infraestrutura tecnológica.

Ao reduzir a necessidade de inserir ou remover segundos, os sistemas poderão trabalhar com uma referência temporal mais contínua e previsível.

Isso diminui uma fonte conhecida de dificuldades na sincronização de computadores, redes e serviços essenciais.

Depois de mais de cinco décadas ajustando o tempo oficial às irregularidades da rotação terrestre, o mundo está se preparando para abandonar essas correções frequentes.

A Terra continuará acelerando e desacelerando discretamente, mas os relógios atômicos poderão seguir seu ritmo com muito menos interferências.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados