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Ciência

Por que sentimos necessidade de conviver com animais? Estudo de Oxford aponta uma origem evolutiva

Pesquisa revela que o impulso de criar laços com outras espécies não é exclusivo dos humanos. Primatas também brincam, cuidam e desenvolvem relações sociais com diferentes animais, sugerindo que esse comportamento faz parte da nossa história evolutiva.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quem já considerou um cachorro ou um gato parte da família provavelmente enxerga esse vínculo como algo natural. Agora, uma nova pesquisa liderada pela Universidade de Oxford sugere que essa necessidade de conviver com animais pode ser muito mais antiga do que se imaginava. Segundo o estudo, o impulso de estabelecer relações com outras espécies não surgiu apenas com os seres humanos modernos, mas faz parte de uma herança evolutiva compartilhada com outros primatas.

Publicada na revista Primates, a pesquisa analisou centenas de registros de interações entre primatas e animais de diferentes espécies. Os resultados indicam que comportamentos como brincar, cuidar, compartilhar espaço e demonstrar afeto não são exclusivos do Homo sapiens, mas também aparecem com frequência em diversos primatas.

Primatas também criam laços com animais de outras espécies

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© YouTube – El robot de Platón

Os pesquisadores reuniram 427 registros de interações sociais envolvendo 88 espécies de primatas e outras 127 espécies de animais.

A base de dados foi construída a partir de artigos científicos, registros audiovisuais e relatos de especialistas em primatologia. No total, foram identificadas mais de 200 combinações entre espécies, classificadas em 17 tipos diferentes de comportamento.

O principal resultado chamou a atenção da equipe: muitos primatas estabelecem relações sociais positivas com animais que não pertencem à sua própria espécie.

As formas de interação mais comuns foram as brincadeiras e o ato de limpar ou cuidar da pelagem de outro animal, comportamento conhecido como grooming.

Segundo os autores, esses vínculos sugerem que a afinidade entre humanos e animais pode ter raízes muito mais profundas do que uma simples consequência da domesticação.

A maioria das interações ocorreu na natureza

Entre os 427 casos analisados, 310 aconteceram em ambientes naturais e 110 em cativeiro.

Nos episódios registrados na natureza em que havia informações suficientes sobre o contexto, mais de 90% envolveram animais vivendo em liberdade. Além disso, cerca de dois terços das interações ocorreram entre diferentes espécies de primatas.

Os pesquisadores também conseguiram identificar quem iniciava esses contatos em 219 episódios.

Em 144 deles, equivalentes a 66%, a aproximação partiu dos próprios primatas. Outros 72 casos, ou 33%, foram iniciados por ambas as espécies ao mesmo tempo. Apenas três episódios começaram por animais que não eram primatas.

O estudo também mostrou que esses relacionamentos são mais frequentes entre espécies evolutivamente próximas, embora não se limitem a elas.

Foram registrados laços com cães, aves, esquilos, répteis, anfíbios, insetos e até crustáceos.

Entre as combinações mais comuns estavam macacos-prego-de-cara-branca convivendo com macacos-aranha, macacos-japoneses interagindo com cervos-sika, chimpanzés com macacos-de-cauda-vermelha e macacos-rhesus com cães domésticos.

Jovens preferem brincar; fêmeas adultas cuidam de outros animais

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© unsplash

A pesquisa identificou diferenças claras de comportamento conforme a idade e o sexo dos primatas.

Filhotes e indivíduos jovens demonstraram muito mais interesse em brincar com animais de outras espécies.

Já as fêmeas adultas apareceram com maior frequência realizando comportamentos de cuidado, especialmente limpando a pelagem de outros animais.

Os machos adultos, por outro lado, participaram muito pouco dessas interações sociais.

Segundo os pesquisadores, esse padrão acompanha o desenvolvimento natural dos primatas: as brincadeiras predominam durante a juventude, enquanto o grooming ganha importância na fase adulta.

Outro resultado surpreendeu os cientistas.

Eles imaginavam que esses comportamentos fossem direcionados principalmente a filhotes de outras espécies. No entanto, entre os casos em que a idade do animal receptor era conhecida, não houve diferença estatisticamente significativa entre adultos e jovens.

Quando apenas as fêmeas adultas foram analisadas, a tendência foi ainda mais evidente: elas interagiram muito mais com indivíduos adultos do que com filhotes.

Casos incluem adoções, amizades e até episódios violentos

A revisão reuniu diversos exemplos curiosos observados ao redor do mundo.

Na Tailândia, macacos-de-cauda-curta foram vistos limpando cães domésticos.

No Sri Lanka, langures-cinzentos acariciavam esquilos-gigantes.

Na China, jovens macacos-narigudos brincavam com porcos domésticos.

Em Madagascar, lêmures-de-cauda-anelada cuidavam de lêmures-do-bambu.

Um dos casos mais marcantes ocorreu no Brasil, em 2006. Macacos-prego selvagens adotaram um filhote de sagui, que permaneceu integrado ao grupo por pelo menos dez meses e recebeu cuidados maternos de duas fêmeas diferentes.

O estudo também relembra a famosa gorila Koko, que desenvolveu uma forte relação com um gatinho chamado All Ball, carregando-o, protegendo-o e cuidando dele diariamente.

Nem todas as interações, porém, tiveram finais felizes.

Os pesquisadores registraram 26 episódios de comportamento agressivo. Destes, 21 foram dirigidos a espécies não primatas e cinco envolveram outros primatas.

Também foram confirmados 13 casos de morte causados por manipulação violenta, incluindo aves, pangolins, um gato doméstico e três primatas.

Descobertas ajudam a entender a evolução da empatia

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© pexels

Para o professor Cyril C. Grueter, da Escola de Antropologia e Etnografia de Museus da Universidade de Oxford, durante muito tempo acreditou-se que apenas os seres humanos eram capazes de formar relações sociais próximas com outras espécies.

Segundo ele, o estudo mostra que muitos primatas também demonstram curiosidade, tolerância e até comportamentos de cuidado com animais diferentes deles.

Embora essas relações não sejam equivalentes à criação de animais de estimação como ocorre entre humanos, elas podem representar alguns dos alicerces evolutivos que deram origem ao companheirismo entre pessoas e animais.

Os autores ressaltam que os dados disponíveis ainda apresentam limitações e não permitem estimar com precisão a frequência dessas interações na natureza.

Mesmo assim, a pesquisa reforça que comportamentos como brincar, compartilhar alimento, carregar, cuidar e manter proximidade física podem atravessar as fronteiras entre espécies em determinadas condições ecológicas e sociais.

Além de ampliar o conhecimento sobre a evolução da empatia e da flexibilidade social, os pesquisadores acreditam que essas descobertas poderão contribuir para melhorar o manejo de grupos mistos em zoológicos e santuários, além de incentivar novos estudos sobre as relações entre diferentes espécies.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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