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Ciência

Por que seu cérebro faz você sentir que já viveu um momento? A ciência encontrou uma explicação surpreendente

A sensação de reviver uma experiência intriga cientistas há décadas. Pesquisas revelam como o cérebro pode produzir falsas impressões de familiaridade e por que algumas pessoas sentem isso com frequência.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Você entra em um lugar desconhecido, escuta uma conversa ou observa uma cena aparentemente comum. De repente, surge uma certeza desconcertante: tudo aquilo já aconteceu exatamente da mesma maneira. A sensação dura poucos segundos, mas pode ser tão intensa que parece impossível ignorá-la. Conhecido como déjà vu, esse fenômeno já inspirou explicações sobrenaturais. Agora, estudos sobre memória e percepção ajudam a compreender o que realmente acontece dentro do cérebro.

O que acontece no cérebro durante um déjà vu?

A expressão francesa déjà vu significa literalmente “já visto” e descreve a sensação de familiaridade com uma situação que sabemos ser nova.

Embora algumas pessoas interpretem a experiência como uma lembrança de vidas passadas ou uma espécie de premonição, a neurociência oferece explicações relacionadas ao funcionamento da memória.

Uma das hipóteses mais estudadas envolve dois processos diferentes: familiaridade e recordação.

A familiaridade permite reconhecer algo como conhecido, mesmo sem identificar exatamente sua origem. Já a recordação possibilita recuperar detalhes específicos de experiências anteriores.

Normalmente, esses mecanismos trabalham de maneira complementar.

Entretanto, durante um déjà vu, pode surgir uma sensação intensa de familiaridade sem que exista uma lembrança identificável capaz de justificá-la.

É como reconhecer uma pessoa na rua, mas não conseguir lembrar onde a conheceu. A diferença é que, no déjà vu, essa impressão pode envolver uma situação inteira.

A psicóloga Anne Cleary, da Universidade Estadual do Colorado, investiga há anos como esses processos contribuem para a experiência.

Em uma revisão científica publicada na revista Current Directions in Psychological Science, a pesquisadora explica que o fenômeno pode ocorrer quando o cérebro produz reconhecimento baseado na familiaridade, mas não consegue identificar sua fonte.

Essa interpretação ajuda a explicar por que a sensação parece tão convincente, embora não exista uma lembrança concreta.

Um experimento com realidade virtual revelou uma pista importante

Por que seu cérebro faz você sentir que já viveu um momento? A ciência encontrou uma explicação surpreendente
© Unsplash

Para investigar o fenômeno, pesquisadores utilizaram ambientes de realidade virtual nos quais participantes exploravam diferentes cenários.

Alguns espaços apresentavam configurações semelhantes às de ambientes vistos anteriormente, embora os objetos e detalhes fossem diferentes.

Por exemplo, uma sala poderia apresentar móveis organizados de maneira parecida com a disposição de elementos em outro cenário.

Os resultados, publicados em 2012 na revista Consciousness and Cognition, mostraram que ambientes com estruturas semelhantes aumentavam a sensação de familiaridade e os relatos de déjà vu quando os participantes não conseguiam recordar o cenário original.

Isso sugere que nosso cérebro pode reconhecer padrões espaciais sem recuperar conscientemente a experiência que originou essa impressão.

A descoberta também ajuda a explicar por que o déjà vu pode acontecer em lugares completamente desconhecidos.

Uma rua visitada pela primeira vez talvez apresente uma organização espacial semelhante à de outra que conhecemos anos antes.

O cérebro detecta essa semelhança, mas não consegue identificar sua origem.

Entretanto, essa é uma das explicações possíveis. Os cientistas ainda não determinaram um mecanismo único responsável por todas as experiências de déjà vu.

Cerca de 74% das pessoas já experimentaram essa sensação

O déjà vu é muito mais comum do que parece.

Uma revisão sistemática publicada em 2024 na revista Frontiers in Neurology analisou 46 estudos e estimou que aproximadamente 74% das pessoas saudáveis já experimentaram o fenômeno.

A pesquisa também identificou diferenças importantes entre experiências comuns de déjà vu e aquelas relacionadas a determinadas condições neurológicas.

Em geral, o fenômeno aparece com maior frequência entre jovens e tende a diminuir com o envelhecimento.

Algumas pesquisas também encontraram associações com viagens frequentes, estresse e cansaço. Entretanto, essas relações não demonstram necessariamente que tais fatores sejam causas diretas.

A idade, as experiências individuais e a maneira como as pessoas reconhecem e relatam o fenômeno também podem influenciar os resultados.

O que se sabe é que episódios ocasionais costumam fazer parte do funcionamento normal da memória.

Por que o déjà vu também pode dar a impressão de prever o futuro?

Uma das características mais intrigantes do fenômeno é a sensação de saber exatamente o que acontecerá nos segundos seguintes.

Algumas pessoas relatam ter certeza de que alguém pronunciará determinada frase ou que um acontecimento seguirá uma sequência específica.

Mas será que o déjà vu realmente melhora nossa capacidade de prever eventos?

Em 2018, Anne Cleary e Alexander Claxton investigaram essa possibilidade utilizando cenários virtuais.

Os participantes percorriam ambientes que poderiam provocar familiaridade e precisavam tentar prever a direção de determinados caminhos.

Os resultados mostraram que o déjà vu aumentava a sensação subjetiva de conhecer o futuro, mas não melhorava a precisão das previsões.

Em outras palavras, os participantes sentiam que sabiam o que aconteceria, embora suas respostas não fossem melhores do que o acaso.

Uma pesquisa posterior, publicada em 2019, também identificou uma tendência de interpretar acontecimentos como se tivessem sido previstos depois que eles já haviam ocorrido.

Esses resultados sugerem que a sensação de premonição pode ser outra ilusão produzida pelos mecanismos de familiaridade e memória.

Quando o déjà vu pode indicar um problema de saúde?

Na maioria dos casos, sentir um déjà vu ocasionalmente não representa motivo de preocupação.

Entretanto, episódios recorrentes ou acompanhados de outros sintomas merecem avaliação médica.

Isso acontece porque o déjà vu também pode aparecer durante determinadas crises epilépticas, especialmente aquelas relacionadas ao lobo temporal, região cerebral envolvida no processamento da memória.

Entre os sinais que exigem atenção estão alterações repentinas de consciência, cheiros ou sabores incomuns, movimentos involuntários, sensações abdominais intensas e confusão após o episódio.

A presença desses sintomas não significa necessariamente epilepsia, mas justifica uma consulta com um neurologista.

A ciência ainda investiga os mecanismos exatos do déjà vu. Mesmo assim, as evidências disponíveis mostram que não precisamos recorrer a explicações sobrenaturais para compreender essa experiência.

A sensação de que o tempo está se repetindo pode surgir da própria maneira como nosso cérebro reconhece padrões, organiza lembranças e interpreta o presente.

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