Depois de anos de experiências com o home office, muitas empresas estão exigindo que seus funcionários voltem ao escritório. A justificativa costuma envolver produtividade, colaboração e fortalecimento da cultura corporativa. Mas será que passar cinco dias por semana diante de uma mesa na empresa realmente produz melhores resultados? Estudos científicos estão colocando essa ideia em dúvida e sugerem que a combinação entre trabalho presencial e remoto pode ser mais eficiente.
A ciência aponta para um equilíbrio entre escritório e home office

Uma análise publicada em novembro de 2026 pelo pesquisador Umar Boodoo, especialista em comportamento organizacional, reuniu evidências sobre a frequência ideal de trabalho presencial.
A conclusão é que dois ou três dias por semana no escritório parecem oferecer um equilíbrio favorável entre produtividade, satisfação profissional e colaboração.
Isso não significa que exista uma fórmula universal. Os resultados dependem das atividades realizadas, da organização das equipes e das características de cada empresa.
Entretanto, diferentes pesquisas indicam que exigir presença física durante toda a semana não necessariamente produz benefícios adicionais.
Um dos estudos mais relevantes foi conduzido por pesquisadores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, com funcionários de uma grande empresa de viagens da China.
O experimento envolveu 1.612 profissionais de áreas como engenharia, marketing e finanças.
Parte dos participantes passou a trabalhar remotamente às quartas e sextas-feiras, enquanto os demais continuaram comparecendo ao escritório durante toda a semana.
Os resultados, publicados na revista científica Nature, mostraram que os profissionais em regime híbrido mantiveram desempenho semelhante ao dos colegas que trabalhavam presencialmente.
Além disso, a taxa de desligamento voluntário caiu aproximadamente um terço entre aqueles que puderam trabalhar de casa dois dias por semana.
Trabalhar menos dias no escritório pode melhorar a produtividade?

A relação entre presença física e produtividade é mais complexa do que muitas empresas imaginam.
No experimento conduzido em Stanford, os pesquisadores acompanharam avaliações de desempenho e promoções durante dois anos.
Não encontraram evidências de que o trabalho híbrido prejudicasse os resultados profissionais ou diminuísse as oportunidades de promoção.
O benefício mais evidente apareceu na satisfação dos funcionários e na retenção de talentos.
Mulheres, profissionais que não ocupavam cargos de chefia e trabalhadores que enfrentavam deslocamentos longos apresentaram reduções particularmente expressivas nas taxas de saída da empresa.
Outra pesquisa, publicada em 2026 na revista Review of Economics and Statistics, analisou um experimento com 148 funcionários de uma organização internacional de desenvolvimento.
Os participantes foram distribuídos entre diferentes regimes de presença no escritório.
Aqueles que compareciam aproximadamente dois dias por semana relataram maior satisfação profissional, melhor equilíbrio entre vida pessoal e trabalho e menor sensação de isolamento.
As avaliações de desempenho, entretanto, não apresentaram diferenças significativas entre os grupos.
Os resultados sugerem que a flexibilidade pode melhorar a experiência profissional sem necessariamente comprometer a produtividade.
O detalhe que pode ser mais importante do que a quantidade de dias
Existe um aspecto frequentemente ignorado nas discussões sobre home office: não basta determinar quantos dias os funcionários devem comparecer ao escritório.
É fundamental decidir quando as equipes estarão presentes.
Uma pesquisa envolvendo aproximadamente 48 mil funcionários de uma empresa de tecnologia identificou dificuldades de inovação em equipes cujos integrantes compareciam presencialmente em dias diferentes.
O problema é relativamente simples.
Um profissional pode enfrentar uma hora de trânsito para chegar ao escritório e descobrir que seus principais colegas estão trabalhando remotamente.
Nesse cenário, reuniões continuam acontecendo por videoconferência, mesmo dentro da empresa.
A presença física perde parte de sua principal vantagem: facilitar interações espontâneas e atividades colaborativas.
Pesquisas também indicam que encontros presenciais podem favorecer determinadas tarefas criativas, especialmente aquelas que exigem geração conjunta de ideias.
Por isso, especialistas recomendam organizar os dias presenciais em torno de atividades que realmente se beneficiem da proximidade, como reuniões estratégicas, desenvolvimento de projetos e orientação de novos profissionais.
Já tarefas que exigem concentração prolongada podem ser realizadas remotamente, dependendo das condições disponíveis em casa.
O que as pesquisas revelam sobre o futuro do trabalho?
O trabalho híbrido deixou de ser apenas uma solução emergencial adotada durante a pandemia.
Segundo dados divulgados pela Gallup em setembro de 2026, 52% dos profissionais norte-americanos cujas atividades permitem trabalho remoto utilizavam um modelo híbrido.
Outros 26% trabalhavam exclusivamente a distância, enquanto 22% compareciam presencialmente durante toda a semana.
Entre os profissionais híbridos, a média de presença no escritório era de aproximadamente 2,3 dias semanais.
A pesquisa também identificou que a qualidade da gestão e a coordenação entre equipes desempenham papéis importantes nos resultados.
Essas conclusões são especialmente relevantes para empresas brasileiras que adotaram modelos híbridos, embora os dados internacionais não possam ser automaticamente generalizados para todas as ocupações do país.
Setores como tecnologia, serviços financeiros e atividades administrativas possuem maior possibilidade de flexibilidade do que profissões que exigem atendimento presencial.
Outro desafio é evitar que funcionários sejam avaliados principalmente pelo tempo que passam no escritório, em vez dos resultados que entregam.
Estudos sobre comportamento organizacional mostram que a visibilidade presencial ainda pode influenciar decisões sobre promoções e reconhecimento profissional.
A conclusão das pesquisas não é que o escritório tenha perdido sua importância, mas que sua utilização precisa ser mais estratégica.
Dois ou três dias presenciais podem funcionar bem para muitas equipes, desde que exista coordenação, objetivos claros e autonomia para realizar tarefas individuais.
Ainda não há evidências suficientes para afirmar que dois dias sejam universalmente melhores do que três.
O que os estudos mostram é que aumentar a presença física sem uma justificativa concreta pode gerar custos e insatisfação sem produzir ganhos proporcionais de desempenho.