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Ciência

Prefere treinar sozinho? A psicologia ajuda a entender o que está por trás dessa escolha

Autonomia, concentração e liberdade para organizar a rotina podem explicar a preferência, mas não revelam, por si só, a personalidade de alguém
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Tempo de leitura: 3 minutos

A pessoa chega à academia, coloca os fones e começa a treinar sem procurar companhia. Para quem observa, esse comportamento pode parecer falta de interesse em conversar. Mas uma sessão de exercícios oferece poucas informações sobre a vida social de alguém. A preferência pelo treino individual pode envolver razões práticas e pessoais, como controlar os horários, acompanhar o próprio ritmo e reservar um momento do dia para ficar em silêncio.

A liberdade de organizar o próprio treino

O músculo parece enorme depois do treino, mas a ciência tem uma notícia para quem persegue o ‘pump’ na academia
© Erik Mclean – Unsplash

Treinar sem um parceiro permite escolher quando começar, quanto tempo permanecer na academia e como distribuir os exercícios. Também dispensa a necessidade de combinar agendas ou acompanhar os intervalos de outra pessoa.

A reportagem do TN apresenta essa liberdade como uma possível explicação para a preferência pelo exercício individual. Para alguns praticantes, organizar a sessão sem negociações transforma a academia em um espaço de autonomia.

Outro motivo possível é a concentração. Há quem prefira acompanhar a execução dos movimentos e as sensações do corpo sem interromper a sequência para conversar. Outros simplesmente aproveitam aquele período como uma pausa das interações do trabalho e das obrigações cotidianas.

Essas possibilidades ajudam a compreender uma escolha, mas não permitem atribuir a mesma motivação a todos que treinam sozinhos. O comportamento observado pode ser semelhante, enquanto as razões variam de pessoa para pessoa.

Autonomia não significa evitar outras pessoas

Uma referência para discutir essa questão é a teoria da autodeterminação, desenvolvida por Edward Deci e Richard Ryan. Ela investiga como diferentes formas de motivação influenciam o envolvimento nas atividades.

A abordagem destaca três necessidades psicológicas: autonomia, competência e vínculo com outras pessoas. Autonomia envolve sentir que as próprias ações correspondem aos interesses e valores pessoais. Competência diz respeito à percepção de capacidade. Já o vínculo se relaciona à conexão com os demais.

Nesse contexto, escolher livremente uma atividade não exige realizá-la sozinho. Uma pessoa pode participar de uma aula coletiva por vontade própria e experimentar autonomia. Outra pode treinar individualmente porque sente uma obrigação externa.

A distinção importa porque companhia e motivação são aspectos diferentes. A teoria oferece ferramentas para investigar por que alguém pratica exercícios; ela não funciona como um teste de sociabilidade baseado no uso de fones ou na ausência de um parceiro.

O que os estudos mostram sobre constância

Uma revisão de 66 estudos publicada em 2012 analisou a relação entre atividade física e conceitos da teoria da autodeterminação. Os resultados apoiaram uma associação positiva entre formas mais autônomas de motivação e participação em exercícios.

A pesquisa também identificou uma diferença relevante. Reconhecer o valor pessoal da atividade apareceu mais associado ao início e à adoção em curto prazo. Já o prazer de praticar mostrou uma relação mais forte com a continuidade em longo prazo.

Isso ajuda a explicar por que encontrar uma forma agradável de se exercitar pode favorecer a permanência na rotina. Porém, a revisão não demonstra que praticantes solitários sejam mais disciplinados ou persistentes.

Os autores também registraram limitações: a maioria dos trabalhos utilizava desenhos descritivos, e algumas relações apresentavam evidências inconsistentes. Portanto, os resultados sustentam a importância da motivação, sem estabelecer uma fórmula única para manter o hábito.

Treinar em grupo também pode trazer benefícios

Treino Individual
© FreePik

Um estudo de 2017 com 69 estudantes de Medicina acompanhou, durante 12 semanas, participantes de aulas coletivas, praticantes de outras rotinas e um grupo de controle.

Quem frequentou as aulas apresentou redução de 26,2% no estresse percebido, além de melhorias nas dimensões física, mental e emocional da qualidade de vida. No outro grupo de exercícios, a melhora significativa apareceu na dimensão mental.

Há detalhes importantes: os participantes escolheram seus grupos, e a categoria apresentada como individual permitia treinar com até dois parceiros. A amostra também era pequena e específica. Esses fatores limitam a possibilidade de concluir que aulas coletivas sejam superiores para qualquer pessoa.

A preferência pelo silêncio pode coexistir com amizades, convivência e interesse pelos outros. Da mesma forma, gostar de companhia durante o exercício não impede autonomia. O formato do treino descreve uma escolha naquele contexto; sozinho, ele não define a personalidade de quem está na academia.

 

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