Durante décadas, cientistas procuraram nos genes respostas para compreender as origens do autismo. Agora, uma descoberta sugere que parte dessas respostas pode estar escondida em regiões minúsculas do DNA que receberam relativamente pouca atenção. Um estudo internacional publicado nesta quarta-feira (14) na revista Nature identificou centenas de microéxons e alterações genéticas capazes de interferir no funcionamento dos neurônios, abrindo novos caminhos para investigar a complexa biologia do desenvolvimento cerebral.
O segredo pode estar em pequenos fragmentos do DNA
O transtorno do espectro autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por diferenças na comunicação, na interação social e nos padrões de comportamento e interesses.
Sua origem envolve uma combinação complexa de fatores genéticos e ambientais, e não existe uma causa única capaz de explicar todos os casos.
Embora centenas de alterações genéticas já tenham sido associadas ao autismo, muitos diagnósticos continuam sem uma explicação genética identificável.
A nova pesquisa aponta para estruturas chamadas microéxons.
Esses fragmentos extremamente pequenos participam do processamento do RNA, molécula responsável por transportar informações genéticas utilizadas na produção de proteínas.
Apesar do tamanho reduzido, os microéxons podem influenciar processos fundamentais para o desenvolvimento e funcionamento das células nervosas.
A descoberta sugere que alterações próximas dessas estruturas podem modificar a maneira como determinados genes funcionam no cérebro.
O que são microéxons e por que eles são importantes?

Para compreender a descoberta, é necessário observar como as células utilizam as informações armazenadas no DNA.
Quando um gene é ativado, suas informações são inicialmente copiadas para uma molécula de RNA.
Antes de orientar a produção de proteínas, esse RNA passa por um processo chamado splicing, no qual determinados segmentos são removidos e outros são combinados.
Os microéxons são pequenos trechos que podem ser incluídos ou excluídos durante esse processamento.
No estudo, os pesquisadores investigaram estruturas com apenas três a 27 nucleotídeos.
Embora pareçam insignificantes, essas pequenas sequências podem alterar características das proteínas produzidas pelos neurônios.
O cérebro utiliza intensamente esse mecanismo para gerar diferentes versões de proteínas a partir das informações genéticas disponíveis.
Quando o processo apresenta alterações, determinadas funções celulares podem ser afetadas.
Pesquisas anteriores já haviam identificado diferenças no processamento de microéxons em tecidos cerebrais de pessoas autistas.
O novo trabalho amplia consideravelmente esse conhecimento.
Cientistas descobriram mais de 1.500 microéxons desconhecidos
A investigação reuniu pesquisadores da Universidade de Toronto, do King’s College London, do Francis Crick Institute e de outras instituições.
A equipe analisou milhares de amostras de RNA humano, incluindo tecidos cerebrais e informações obtidas de células individuais.
Os resultados revelaram 1.514 microéxons humanos que ainda não estavam registrados nas principais bases de referência utilizadas pelos pesquisadores.
Desse total, 292 apresentaram padrões de processamento diferentes entre células nervosas e outros tecidos.
Os cientistas também identificaram 1.115 novos microéxons em camundongos.
Esses resultados ampliam o catálogo de pequenas sequências envolvidas na regulação genética do sistema nervoso.
O trabalho foi publicado na revista científica Nature, que apresenta os resultados completos da investigação e detalha como essas estruturas podem estar relacionadas a mecanismos biológicos associados ao autismo.
A descoberta não significa que todos os microéxons identificados estejam envolvidos no TEA, mas oferece novos alvos para pesquisas sobre o desenvolvimento cerebral.
Inteligência artificial ajudou a encontrar alterações invisíveis
Um dos aspectos mais importantes da pesquisa foi o uso de aprendizado de máquina.
Os cientistas desenvolveram um modelo capaz de reconhecer padrões nas sequências de DNA que regulam a inclusão dos microéxons no RNA.
A ferramenta permitiu identificar regiões próximas dessas estruturas que podem influenciar seu funcionamento.
Isso é particularmente relevante porque nem todas as alterações genéticas associadas a doenças estão localizadas nas partes do DNA que codificam diretamente proteínas.
Algumas aparecem em regiões regulatórias, responsáveis por controlar como as informações genéticas são utilizadas.
O modelo identificou variantes que, segundo suas previsões, podem modificar o processamento de microéxons em pessoas autistas.
As variantes raras apresentaram os efeitos previstos mais expressivos.
Entretanto, essas associações ainda precisam ser investigadas experimentalmente para confirmar suas consequências biológicas.
A descoberta pode explicar casos sem causa genética identificada?
Atualmente, alterações genéticas de alta confiança conseguem fornecer uma explicação molecular para apenas uma parcela das pessoas autistas.
Segundo os autores, aproximadamente 15% apresentam variantes que permitem identificar uma causa genética reconhecida.
Nos demais casos, a ausência de uma explicação não significa que a genética não participe do desenvolvimento da condição.
Pode indicar que parte dos mecanismos envolvidos ainda não foi identificada.
A nova pesquisa encontrou variantes próximas aos microéxons em genes anteriormente associados ao autismo, mas também em genes que não haviam sido relacionados à condição.
Isso amplia as possibilidades de investigação, especialmente sobre a formação das conexões entre neurônios.
Outro estudo publicado em fevereiro de 2026 na Nature Communications já havia demonstrado que alterações experimentais em determinados microéxons podem interferir na regulação de genes envolvidos no neurodesenvolvimento.
Isso significa que haverá um novo exame ou tratamento?
Apesar dos resultados promissores, a descoberta ainda pertence ao campo da pesquisa básica.
Os cientistas não desenvolveram um exame capaz de diagnosticar autismo pela análise desses microéxons.
Também não demonstraram que modificar essas estruturas possa prevenir ou tratar a condição.
O autismo envolve múltiplos caminhos biológicos e apresenta grande diversidade entre indivíduos.
Por isso, nenhuma alteração genética isolada pode ser utilizada como explicação universal.
O avanço está em identificar mecanismos que antes eram difíceis de observar, permitindo investigar como pequenas diferenças na regulação genética podem influenciar o desenvolvimento do sistema nervoso.
Uma nova perspectiva sobre a genética do cérebro
O estudo reforça uma transformação importante na genética moderna: compreender o funcionamento dos genes exige olhar além das sequências que produzem proteínas.
As regiões regulatórias e os mecanismos de processamento do RNA também podem desempenhar papéis decisivos.
Para os pesquisadores, investigar os microéxons representa uma oportunidade de compreender melhor a diversidade de mecanismos biológicos associados ao autismo.
A descoberta não encerra o debate sobre suas origens, mas mostra que algumas respostas podem estar em fragmentos do DNA tão pequenos que, até recentemente, eram difíceis de estudar.