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Ciência

Chegar aos 100 anos já é extraordinário, mas o que acontece depois revela uma barreira que a ciência ainda não conseguiu vencer

Vivemos muito mais do que nossos antepassados, mas existe uma enorme diferença entre aumentar a expectativa de vida e superar os limites biológicos do corpo humano.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Vacinas, antibióticos, saneamento e avanços médicos permitiram que milhões de pessoas chegassem a idades antes consideradas excepcionais. Mas será que esse progresso significa que viver 150 ou até 200 anos está ao nosso alcance? Para Venki Ramakrishnan, vencedor do Nobel de Química, a resposta passa por um detalhe frequentemente ignorado: depois de determinada idade, as probabilidades começam a mudar de maneira impressionante.

Viver mais não significa necessariamente ampliar o limite da vida

Chegar aos 100 anos já é extraordinário, mas o que acontece depois revela uma barreira que a ciência ainda não conseguiu vencer
© Pexels

A humanidade conseguiu uma transformação impressionante nos últimos 150 anos. Doenças que anteriormente matavam milhões passaram a ser prevenidas ou tratadas, enquanto melhorias na alimentação, higiene e medicina reduziram drasticamente a mortalidade.

Como resultado, a expectativa de vida aumentou.

Mas Venkatraman “Venki” Ramakrishnan, vencedor do Nobel de Química em 2009, destaca uma diferença fundamental: fazer com que mais pessoas cheguem aos 80 ou 90 anos não significa necessariamente aumentar a idade máxima que um ser humano consegue alcançar.

O recorde reconhecido continua pertencendo à francesa Jeanne Calment, que morreu em 1997 aos 122 anos e 164 dias. Décadas se passaram e ninguém conseguiu superar oficialmente essa marca.

É aí que aparece um dado particularmente curioso.

Segundo estimativas apresentadas por Ramakrishnan em seu trabalho sobre envelhecimento, aos 25 anos a probabilidade de uma pessoa morrer durante o ano seguinte gira em torno de 0,1%. Aos 60, sobe para aproximadamente 1%. Aos 80, chega a cerca de 6%.

Aos 100 anos, alcança aproximadamente 16%.

Mas a progressão não termina aí.

Depois dos 108 anos, sobreviver ao próximo aniversário vira quase um cara ou coroa

Chegar aos 100 anos já é extraordinário, mas o que acontece depois revela uma barreira que a ciência ainda não conseguiu vencer
© Pexels

Quando alguém chega aos 108 anos, a probabilidade de sobreviver por mais um ano fica próxima de 50%.

Isso ajuda a compreender por que supercentenários são tão raros e por que o recorde absoluto de longevidade humana permanece praticamente congelado, mesmo com os enormes avanços da medicina.

Ramakrishnan não afirma que viver 150 ou 200 anos seja proibido por alguma lei fundamental da física. O problema é biológico.

Nosso organismo possui uma sofisticada rede de manutenção. As células reparam danos no DNA, eliminam componentes defeituosos, reciclam proteínas e trabalham continuamente para manter estruturas essenciais, incluindo as mitocôndrias.

Com o envelhecimento, porém, esses mecanismos deixam de funcionar com a mesma eficiência.

Pequenos danos começam a se acumular. Gradualmente, tecidos perdem capacidade funcional e aumenta a vulnerabilidade a diferentes doenças.

Isso significa que prolongar radicalmente a vida exigiria algo muito mais complexo do que encontrar tratamentos melhores para câncer, doenças cardiovasculares ou Alzheimer. Seria necessário interferir nos próprios mecanismos fundamentais do envelhecimento.

Algumas pistas já apareceram nos laboratórios

É justamente isso que diferentes grupos científicos estão tentando fazer.

Uma das estratégias mais estudadas é a restrição calórica. Experimentos realizados com diferentes organismos indicaram que reduzir a ingestão de calorias pode modificar vias metabólicas relacionadas ao envelhecimento.

Outra área importante envolve a autofagia, processo pelo qual as células eliminam e reciclam componentes deteriorados.

Mas transformar resultados obtidos em animais em recomendações para seres humanos é outra história. Até agora, não há evidência suficiente para afirmar que uma redução drástica de alimentos prolongará significativamente a vida de pessoas saudáveis.

Também existem medicamentos sob investigação.

A rapamicina, por exemplo, atua sobre a via mTOR, relacionada ao metabolismo e crescimento celular. Experimentos conseguiram prolongar a vida de camundongos, mas o medicamento também pode interferir no sistema imunológico.

Metformina e medicamentos agonistas de GLP-1 também aparecem nas pesquisas sobre envelhecimento. Isso não significa, entretanto, que tenham sido comprovados como tratamentos para prolongar a vida de indivíduos saudáveis.

E se fosse possível fazer uma célula voltar no tempo?

Existe uma abordagem ainda mais ambiciosa: tentar rejuvenescer diretamente as células.

Nesse campo aparecem os chamados fatores de Yamanaka, capazes de reprogramar células e modificar profundamente suas características.

O potencial é enorme, mas também existem riscos.

Uma reprogramação completa pode fazer a célula perder sua identidade e aumentar o perigo de formação de tumores. Por isso, cientistas investigam formas de reprogramação parcial, tentando recuperar determinadas características associadas à juventude sem apagar completamente aquilo que aquela célula é.

E ainda existe outro obstáculo: as mutações somáticas.

Ao longo da vida, células acumulam alterações genéticas. Mesmo que fosse possível restaurar outros mecanismos celulares, essas mutações poderiam continuar estabelecendo limites para uma eventual tentativa de prolongar radicalmente a existência.

A ciência, portanto, está começando a compreender algumas das engrenagens que determinam como envelhecemos. Mas isso está muito distante de significar que uma geração de humanos de 150 ou 200 anos esteja prestes a aparecer.

Talvez a grande conquista das próximas décadas seja outra: não simplesmente adicionar anos ao calendário, mas prolongar o período em que conseguimos vivê-los com saúde.

[Fonte: Minutouno]

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