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Primeira prefeita japonesa a tirar licença-maternidade provoca reação inesperada

A escolha de uma jovem prefeita de se afastar temporariamente do cargo após o nascimento do filho dividiu opiniões e reacendeu uma discussão sobre trabalho, maternidade e igualdade de gênero.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O anúncio parecia ser apenas uma decisão pessoal, mas rapidamente ganhou dimensão nacional. Ao comunicar que faria uma pausa para o nascimento do primeiro filho, uma prefeita japonesa se tornou protagonista de um debate que expôs antigas questões sobre o papel das mulheres na política. A repercussão revelou como maternidade, carreira e expectativas sociais ainda se cruzam de forma delicada em um dos países mais desenvolvidos do mundo.

Um afastamento inédito colocou a prefeita no centro de uma discussão nacional

Aos 35 anos, Shoko Kawata entrou para a história ao anunciar que será a primeira prefeita do Japão a se afastar do cargo por causa da maternidade. A decisão, que parecia apenas uma questão administrativa, acabou provocando uma intensa discussão em todo o país.

Prefeita da cidade de Yawata, ao sul de Kyoto, Kawata informou que pretende interromper suas atividades por cerca de quatro meses, divididos entre o período anterior e posterior ao parto, previsto para setembro.

O detalhe é que a legislação japonesa ainda não prevê oficialmente licença-maternidade para prefeitos e outros cargos eletivos municipais. Por isso, o afastamento será viabilizado por meio da delegação temporária das funções ao vice-prefeito, Shigeto Nose, que assumirá a administração durante esse período.

Segundo Kawata, seus colegas de trabalho apoiaram integralmente a decisão. No entanto, a reação nas redes sociais foi muito mais intensa do que ela esperava.

Enquanto milhares de pessoas elogiaram a iniciativa e afirmaram que ela representa um avanço para a participação feminina na política, outras defenderam que ocupantes de cargos públicos deveriam permanecer integralmente dedicados às suas funções ou até renunciar caso desejassem formar uma família durante o mandato.

A própria prefeita afirmou ter ficado surpresa com a dimensão do debate, mas reforçou que nunca considerou incompatíveis a maternidade e a responsabilidade de administrar uma cidade.

O caso reacendeu um antigo debate sobre mulheres na política japonesa

Primeira prefeita japonesa a tirar licença-maternidade provoca reação inesperada
© Unsplash

Para Kawata, as críticas refletem uma visão ainda presente na sociedade japonesa de que determinados cargos exigem dedicação absoluta, sem espaço para a vida pessoal.

Ela argumenta que condenar mulheres que tiram licença-maternidade na política significaria, na prática, afastar dos cargos públicos grande parte das mulheres em idade fértil.

A discussão ganhou ainda mais repercussão porque Kawata construiu uma carreira marcada por recordes. Eleita aos 33 anos, tornou-se a prefeita mais jovem da história do Japão após uma trajetória iniciada na administração pública e formação em Economia pela Universidade de Kyoto.

Apesar desses avanços individuais, a presença feminina na política japonesa continua reduzida.

Até o ano passado, apenas cerca de 4% dos aproximadamente 1.700 prefeitos e líderes municipais do país eram mulheres.

Pesquisas realizadas pelo governo japonês apontam que gravidez, maternidade, assédio e a percepção de que a política ainda é um ambiente predominantemente masculino continuam entre os principais obstáculos enfrentados pelas mulheres interessadas em disputar cargos públicos.

Mesmo sendo a quarta maior economia do planeta, o Japão ocupa posições pouco favoráveis nos rankings internacionais de igualdade de gênero. No levantamento mais recente do Fórum Econômico Mundial, divulgado em 2025, o país apareceu na 118ª colocação entre 146 nações avaliadas, o pior desempenho entre os integrantes do G7.

Mudanças culturais começam a aparecer, mas especialistas dizem que ainda há desafios

O caso também evidenciou uma transformação gradual na maneira como parte da sociedade japonesa encara a divisão das responsabilidades familiares.

Durante o afastamento de Kawata, o vice-prefeito Shigeto Nose ficará responsável pela administração da cidade, mantendo contato semanal com a prefeita para tratar apenas de assuntos considerados estratégicos.

A experiência também levou Nose a refletir sobre sua própria trajetória. Pai de dois filhos, ele admite que nunca tirou licença-paternidade e que praticamente todos os cuidados com as crianças ficaram sob responsabilidade da esposa.

Hoje, observa uma realidade diferente dentro da própria família. Seu genro decidiu utilizar seis meses de licença para cuidar do segundo filho ao lado da esposa, mudança que ele considera um reflexo da evolução dos costumes.

Embora o Japão disponha de licenças-maternidade e paternidade previstas em lei para trabalhadores, especialistas afirmam que muitos profissionais ainda evitam utilizar esses direitos por receio de impactos na carreira ou pela pressão cultural existente em diversos ambientes de trabalho.

Para Kawata, seu caso pode contribuir para ampliar esse debate. Ela acredita que a sociedade precisa avançar para que mulheres não sejam obrigadas a escolher entre construir uma família e exercer uma carreira pública.

Mais do que discutir uma licença-maternidade específica, o episódio colocou em evidência uma pergunta que continua atual em diversos países: até que ponto ainda se espera que mulheres sacrifiquem a vida pessoal para ocupar posições de liderança?

[Fonte: BBC]

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