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Ciência

Ler pode fazer pelo cérebro algo que nem exercícios e sono conseguem, sugere novo estudo

Uma nova pesquisa indica que o hábito da leitura provoca mudanças profundas no cérebro e pode impulsionar funções cognitivas de forma mais ampla do que atividades tradicionalmente associadas à saúde mental.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Ler costuma ser visto como uma forma de adquirir conhecimento, relaxar ou passar o tempo. No entanto, pesquisadores afirmam que o impacto desse hábito vai muito além das páginas de um livro. Um amplo levantamento científico sugere que a alfabetização modifica o funcionamento do cérebro, fortalece diferentes capacidades cognitivas e pode exercer um papel decisivo ao longo de toda a vida, mesmo na era da inteligência artificial.

A leitura muda o cérebro de maneiras que a ciência ainda está descobrindo

A leitura sempre foi associada ao aprendizado, mas um novo trabalho realizado pelo Instituto Max Planck de Psicolinguística sugere que seus efeitos são muito mais profundos do que se imaginava. Ao reunir evidências de áreas como psicologia, neurociência, linguística e educação, os pesquisadores concluíram que aprender a ler reorganiza diversos processos cerebrais fundamentais.

Segundo a análise, a alfabetização fortalece capacidades como memória, atenção, raciocínio, compreensão da linguagem e processamento de informações. O conjunto dessas mudanças, afirmam os autores, produz um impacto cognitivo mais abrangente do que hábitos frequentemente relacionados ao desempenho mental, como praticar exercícios físicos regularmente, dormir bem ou consumir cafeína.

Ler pode fazer pelo cérebro algo que nem exercícios e sono conseguem, sugere novo estudo
© Pexels

A pesquisa também reforça que esses benefícios não ficam restritos à infância. Embora aprender a ler seja um marco importante nos primeiros anos de vida, o cérebro continua sendo estimulado conforme o indivíduo mantém contato frequente com textos mais complexos ao longo da vida.

De acordo com o pesquisador alemão Falk Huettig, responsável pelo estudo, a alfabetização vai muito além da simples capacidade de decodificar palavras. Ela promove uma reorganização das funções cognitivas, influenciando desde a memória e a atenção até habilidades de linguagem, raciocínio e reconhecimento visual.

Um dos resultados mais curiosos apresentados pelo levantamento desafia uma hipótese antiga. Alguns especialistas sugeriam que o cérebro poderia dedicar recursos à leitura em detrimento de outras funções. Entretanto, pesquisas comparando adultos alfabetizados e analfabetos apontam justamente o contrário: pessoas que sabem ler e escrever também demonstram maior capacidade para reconhecer rostos.

O hábito constante é o que transforma a leitura em uma poderosa ferramenta mental

Os pesquisadores defendem que a alfabetização não deve ser encarada como uma habilidade adquirida apenas na escola, mas como um processo permanente de desenvolvimento intelectual.

Segundo o estudo, alcançar um nível elevado de compreensão depende da exposição contínua a textos desafiadores. Quanto maior o contato com diferentes estilos de escrita, argumentos e estruturas narrativas, mais o cérebro automatiza processos cognitivos e amplia capacidades de interpretação, análise e pensamento crítico.

A pesquisa também analisou o impacto dos diferentes formatos de leitura. Os audiolivros, por exemplo, oferecem vantagens importantes ao apresentar vocabulário sofisticado e narrativas complexas para um público amplo. Ainda assim, os autores ressaltam que o conjunto completo dos benefícios cognitivos observados no estudo aparece principalmente durante a leitura de textos escritos.

Ler pode fazer pelo cérebro algo que nem exercícios e sono conseguem, sugere novo estudo
© pexels

Quando o assunto é o suporte utilizado, os resultados são menos definitivos. As evidências atuais não permitem afirmar que ler em papel seja necessariamente superior às telas. No entanto, diversos trabalhos sugerem que muitos leitores conseguem manter níveis mais elevados de concentração e atenção quando utilizam livros impressos.

Essa diferença pode estar relacionada não apenas ao material físico, mas também à menor quantidade de distrações presentes durante a leitura tradicional, especialmente quando comparada ao ambiente digital repleto de notificações e múltiplos estímulos.

A preocupação dos cientistas vai além da leitura e envolve o futuro da cognição

Além dos benefícios individuais, o estudo chama atenção para uma tendência observada em diversos países: a queda gradual dos índices de alfabetização e da capacidade de compreensão textual.

Para Falk Huettig, adaptar constantemente os textos a níveis cada vez menores de compreensão pode trazer consequências que vão além do ambiente escolar. O pesquisador também demonstra preocupação com a crescente dependência de ferramentas de inteligência artificial para revisar, corrigir ou produzir textos completos, reduzindo o envolvimento ativo das pessoas com a escrita e a leitura.

Segundo ele, o que está em jogo não é apenas uma competência acadêmica, mas um conjunto de capacidades cognitivas essenciais para interpretar informações, resolver problemas e compreender o mundo de maneira crítica.

Os autores alertam que a redução contínua dos níveis de alfabetização pode contribuir para um enfraquecimento gradual de habilidades cognitivas avaliadas inclusive por testes de inteligência. Embora as novas tecnologias ofereçam inúmeras oportunidades de acesso ao conhecimento, elas dificilmente conseguirão compensar, sozinhas, os efeitos da diminuição do hábito da leitura.

Para os pesquisadores, manter o contato frequente com livros, artigos e outros textos desafiadores continua sendo uma das estratégias mais eficazes para preservar o cérebro ativo, fortalecer o pensamento crítico e estimular funções mentais que acompanham as pessoas durante toda a vida.

[Fonte: el dia]

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