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Ciência

Cientistas descobrem uma ameaça escondida sob o gelo da Antártida que pode mudar as previsões para 2100

Um novo estudo da NASA revela que uma das geleiras mais perigosas da Antártida pode contribuir mais para a elevação dos oceanos do que indicavam algumas projeções anteriores.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A Antártida guarda uma quantidade de gelo capaz de transformar profundamente os litorais do planeta. Embora seu derretimento já preocupe cientistas há décadas, uma nova pesquisa identificou um mecanismo que pode acelerar a perda de gelo em uma região especialmente vulnerável. A descoberta levou pesquisadores a revisar estimativas sobre a elevação do nível do mar até 2100 e reforça um alerta: parte das mudanças pode estar acontecendo longe da superfície visível.

A geleira que preocupa cientistas pode estar perdendo gelo mais rapidamente

Cientistas descobrem uma ameaça escondida sob o gelo da Antártida que pode mudar as previsões para 2100
© Pexels

Uma nova pesquisa conduzida por cientistas do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), da NASA, em colaboração com a Universidade da Califórnia em Irvine e o Dartmouth College, revelou um cenário preocupante para a Antártida Ocidental.

O estudo, divulgado em 20 de outubro de 2026, investigou o comportamento da geleira Thwaites, uma gigantesca massa de gelo que desemboca no mar de Amundsen.

Conhecida popularmente como Geleira do Juízo Final, Thwaites possui dimensões comparáveis às do estado norte-americano da Flórida e desempenha um papel importante na estabilidade da camada de gelo da Antártida Ocidental.

Segundo a NASA, que apresentou os resultados da pesquisa, novas simulações indicam que a contribuição da geleira para a elevação do nível do mar até 2100 pode ser até duas vezes maior do que algumas estimativas anteriores.

Isso não significa que o nível global dos oceanos necessariamente dobrará. A comparação se refere à contribuição específica de Thwaites em determinados cenários simulados.

A descoberta é importante porque a geleira funciona como uma espécie de barreira natural, ajudando a conter o deslocamento de enormes quantidades de gelo do interior do continente em direção ao oceano.

Se esse sistema perder estabilidade, outras regiões da Antártida Ocidental também poderão ser afetadas.

O fenômeno escondido debaixo do gelo que muda as previsões

Cientistas descobrem uma ameaça escondida sob o gelo da Antártida que pode mudar as previsões para 2100
© Pexels

O principal problema está na interação entre a água oceânica e a base da geleira.

Diferentemente do que acontece com o gelo que derrete apenas na superfície, Thwaites também sofre a influência de correntes de água relativamente quentes que alcançam suas partes inferiores.

Um dos mecanismos investigados envolve a chamada linha de aterramento, região onde o gelo deixa de estar apoiado no fundo do mar e começa a flutuar.

Nessa área, as marés e as variações de pressão podem favorecer a entrada de água oceânica sob o gelo, ampliando o contato entre a água e a base da geleira.

Esse processo contribui para o derretimento subterrâneo e pode facilitar o recuo da linha de aterramento.

O problema é que muitos modelos climáticos anteriores representavam esses fenômenos de maneira simplificada.

Ao incorporar processos físicos adicionais, os pesquisadores conseguiram simular comportamentos que podem aumentar a perda de massa de Thwaites.

Entretanto, os resultados ainda apresentam incertezas. A intensidade do derretimento depende de fatores como temperatura do oceano, geometria do fundo marinho e resposta mecânica do gelo.

As novas projeções representam possibilidades científicas fundamentadas em modelos, não uma previsão definitiva do que acontecerá em 2100.

O que pode acontecer com o nível do mar até 2100?

A geleira Thwaites contém gelo suficiente para elevar o nível médio global do mar em aproximadamente 65 centímetros caso desaparecesse completamente.

Mas esse cenário não é esperado integralmente até 2100. O derretimento total da geleira envolveria processos que poderiam se estender por períodos muito mais longos.

O que preocupa os pesquisadores é a possibilidade de uma contribuição maior do que a prevista anteriormente durante este século.

As simulações mais recentes da NASA conseguiram reproduzir o recuo histórico da geleira, observado por satélites desde a década de 1990, com uma correspondência aproximadamente quatro vezes melhor do que modelos que não consideravam a infiltração de água sob o gelo.

Isso fortalece a hipótese de que o mecanismo desempenha um papel importante na evolução da geleira.

Outra pesquisa publicada na revista Earth’s Future, utilizando 16 modelos diferentes, mostrou que a contribuição da Antártida para o aumento do nível do mar pode permanecer abaixo de 30 centímetros até 2100 em determinados cenários de altas emissões, mas crescer significativamente nos séculos seguintes.

Nas simulações mais extremas desse estudo, a contribuição antártica alcançou até 4,4 metros em 2300.

Esses valores não devem ser confundidos com previsões definitivas. Eles representam cenários condicionados às emissões de gases de efeito estufa e ao comportamento das grandes massas de gelo.

Por que a descoberta também preocupa o litoral brasileiro?

Embora Thwaites esteja a milhares de quilômetros do Brasil, o derretimento de gelo continental contribui para a elevação dos oceanos em escala global.

Cidades costeiras brasileiras, como Recife, Santos, Rio de Janeiro e Florianópolis, podem enfrentar riscos crescentes relacionados à elevação do nível do mar, dependendo das características locais.

Entre os impactos possíveis estão o avanço da erosão costeira, a intensificação de inundações durante marés altas e a entrada de água salgada em aquíferos.

O problema não depende apenas da quantidade de gelo perdida na Antártida. A expansão térmica dos oceanos, provocada pelo aquecimento da água, também contribui para o aumento do nível do mar.

Além disso, correntes oceânicas, ventos e movimentos verticais do terreno fazem com que a elevação observada varie entre diferentes regiões.

Por isso, os cientistas destacam a importância de combinar observações por satélite, medições oceânicas e modelos climáticos para desenvolver projeções mais precisas.

A descoberta sobre Thwaites não significa que uma catástrofe seja inevitável nas próximas décadas. Entretanto, revela que processos relativamente pouco conhecidos podem alterar as estimativas utilizadas no planejamento das cidades costeiras.

O futuro da geleira dependerá tanto das condições oceânicas quanto da evolução do aquecimento global.

E a principal conclusão é que compreender o que acontece sob o gelo antártico será essencial para antecipar mudanças que poderão afetar milhões de pessoas ao redor do mundo.

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