Pular para o conteúdo
Tecnologia

Quase metade dos jovens que usam vape diariamente consome altas doses de nicotina, revela estudo

Pesquisa americana revela que 49,2% dos jovens adultos que usam cigarros eletrônicos diariamente escolhem produtos com alta concentração de nicotina, aumentando as preocupações com dependência.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

O cigarro eletrônico conquistou espaço entre os jovens com a promessa de ser uma alternativa ao tabaco convencional. Mas um novo estudo revela uma tendência preocupante: os dispositivos estão sendo utilizados com concentrações cada vez maiores de nicotina. Entre americanos de 18 a 24 anos que vapeavam diariamente em 2022, quase metade recorria a produtos de alta potência, um comportamento associado a níveis mais elevados de dependência.

Uso de vape com alta nicotina disparou entre os jovens

Pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego analisaram a evolução do consumo de cigarros eletrônicos nos Estados Unidos entre 2017 e 2022.

O estudo, publicado na revista científica Tobacco Control, utilizou informações da pesquisa nacional PATH, que acompanha os hábitos de consumo de tabaco e nicotina da população americana.

Os resultados revelaram uma transformação expressiva.

Em 2017, apenas 3,1% dos jovens de 18 a 24 anos que vapeavam diariamente utilizavam dispositivos com concentração de nicotina igual ou superior a 4%.

Em 2019, esse percentual chegou a 40,1%. Três anos depois, atingiu 49,2%.

A diferença entre as faixas etárias também chamou atenção. Entre usuários diários com 55 anos ou mais, apenas 4,5% consumiam produtos com concentrações semelhantes em 2022.

Segundo os dados divulgados pela Infosalus, a chance de utilização de dispositivos com alta nicotina era aproximadamente 12 vezes maior entre adultos de 18 a 24 anos do que entre aqueles com 55 anos ou mais.

Por que os cigarros eletrônicos mais fortes preocupam?

Quase metade dos jovens que usam vape diariamente consome altas doses de nicotina, revela estudo
© Stephen Noble – Unsplash

A nicotina é uma substância altamente viciante, capaz de provocar alterações nos mecanismos cerebrais relacionados à recompensa e ao prazer.

Quanto maior a exposição, maior pode ser o risco de desenvolver dependência.

O estudo identificou uma associação entre o uso de dispositivos com alta concentração de nicotina e níveis mais elevados de dependência em diferentes grupos etários.

Entre jovens que utilizavam exclusivamente cigarros eletrônicos, os indicadores de dependência aumentaram significativamente durante o período analisado.

Em 2022, esses indicadores haviam alcançado níveis semelhantes aos observados entre jovens fumantes de cigarros convencionais em 2017.

Outro resultado importante envolveu a dificuldade de abandonar o hábito.

Entre participantes que vapeavam em 2019, aqueles que utilizavam dispositivos com alta nicotina apresentaram chances 31% menores de estar abstinentes no acompanhamento realizado em 2022.

Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que a investigação é observacional. Isso significa que os resultados demonstram associações, mas não comprovam que a concentração elevada de nicotina tenha causado diretamente o aumento da dependência.

Sabores e redes sociais podem influenciar o consumo

Os pesquisadores também investigaram possíveis diferenças na escolha dos dispositivos.

Mesmo entre consumidores das mesmas marcas, os jovens adultos demonstraram maior preferência pelas versões com concentrações elevadas de nicotina.

Algumas dessas marcas utilizaram influenciadores digitais em campanhas publicitárias, levantando dúvidas sobre o papel das estratégias de marketing.

Entretanto, o estudo não foi desenvolvido para determinar se a publicidade levou diretamente os participantes a escolher produtos mais fortes.

Outro fator importante é a evolução tecnológica dos cigarros eletrônicos. Dispositivos modernos conseguem fornecer nicotina em concentrações elevadas, enquanto aromatizantes e agentes refrescantes podem tornar a inalação menos desagradável.

Essa combinação preocupa especialistas porque pode facilitar o consumo frequente e dificultar a percepção da quantidade de nicotina absorvida.

O que os resultados significam para o Brasil?

Embora a pesquisa tenha sido realizada nos Estados Unidos, suas conclusões reforçam o debate sobre a regulamentação dos cigarros eletrônicos em outros países.

No Brasil, a Anvisa mantém a proibição da fabricação, importação, comercialização, distribuição, armazenamento, transporte e propaganda de dispositivos eletrônicos para fumar, conforme as regras sanitárias aplicáveis.

A utilização desses produtos, entretanto, continua sendo observada, especialmente entre jovens.

Os autores do estudo defendem uma reavaliação das políticas de autorização dos cigarros eletrônicos nos Estados Unidos, considerando tanto seu possível papel na substituição do cigarro convencional por fumantes adultos quanto o risco de criar novos consumidores dependentes de nicotina.

A pesquisa deixa um alerta importante: não basta saber quantas pessoas utilizam cigarros eletrônicos. É fundamental entender a quantidade de nicotina consumida e como isso influencia a dependência ao longo do tempo.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados