A retatrutida pode se tornar um dos medicamentos mais potentes já desenvolvidos para tratar a obesidade. Entretanto, antes mesmo de uma aprovação regulatória, versões clandestinas da substância já circulam pela internet. Agora, relatos enviados à agência reguladora americana FDA descrevem complicações graves, incluindo duas mortes. Ainda não é possível estabelecer uma relação de causa e efeito, mas os registros ampliam a preocupação com produtos vendidos sem controle adequado.
Os documentos foram obtidos pela CBS News por meio de um pedido de acesso à informação. Eles descrevem pacientes que utilizaram produtos identificados como retatrutida, adquiridos fora dos canais de pesquisa clínica.
Uma promessa científica que chegou ao mercado clandestino
Desenvolvida pela Eli Lilly, a retatrutida integra uma nova geração de medicamentos que atuam sobre sinais hormonais envolvidos no metabolismo e no apetite.
A substância imita a ação de três hormônios: GLP-1, GIP e glucagon. Os resultados dos ensaios clínicos indicam um potencial expressivo de emagrecimento, com reduções de peso que chegaram a aproximadamente 30%.
Esse desempenho ajuda a explicar o interesse pelo medicamento. Contudo, resultados promissores não substituem a avaliação regulatória nem garantem aprovação.
O mercado clandestino de medicamentos para emagrecer já havia crescido com a popularização da semaglutida e da tirzepatida. Preços elevados e dificuldades de cobertura por seguros contribuíram para a procura por alternativas mais baratas.
Agora, vendedores também oferecem retatrutida e outros peptídeos sem aprovação, frequentemente produzidos na China. A distribuição alcança consumidores de diferentes países, apesar das incertezas sobre composição, qualidade e segurança.
O que dizem os relatos enviados à FDA
As duas mortes foram notificadas ao sistema de registro de eventos adversos da FDA. Essa ferramenta permite reunir suspeitas de problemas relacionados ao uso de medicamentos e identificar situações que merecem investigação.
O primeiro caso foi registrado por um profissional de saúde em julho. Envolvia uma mulher de 41 anos, com obesidade, que sofreu uma parada cardíaca após utilizar retatrutida obtida de uma fonte descrita como não confiável.
A segunda notificação ocorreu em setembro. O registro descreve uma pessoa de 49 anos que morreu após apresentar desidratação grave, desnutrição e parada cardíaca.
Segundo o relato, o produto havia sido comprado de um vendedor de peptídeos pela internet, por recomendação de uma profissional de enfermagem habilitada.
Essas notificações não demonstram, isoladamente, que a retatrutida provocou as mortes. Elas funcionam como sinais de possível risco, que precisam de avaliação adicional.
Complicações graves também apareceram em outros países
Os registros americanos se somam a outros relatos envolvendo produtos clandestinos vendidos como retatrutida.
Em setembro, autoridades australianas descreveram um caso de ruptura do esôfago após episódios persistentes de vômito. Em maio, médicos relataram a hospitalização de um homem que apresentou diarreia contínua durante uma semana após uma superdose de um produto identificado como o medicamento experimental.
Há, porém, uma dificuldade importante para interpretar esses episódios: nem sempre é possível confirmar o conteúdo das substâncias utilizadas.
Produtos falsificados de outros medicamentos dessa categoria já foram encontrados com insulina ou componentes diferentes daqueles anunciados. Portanto, um frasco rotulado como retatrutida não garante que contenha essa molécula.
A incerteza vai além do nome no rótulo
Mesmo quando o produto contém a substância anunciada, permanecem dúvidas sobre concentração e quantidade administrada. Doses superiores às utilizadas nos ensaios clínicos podem aumentar o risco de efeitos adversos graves.
Os estudos controlados acompanham participantes e utilizam protocolos definidos. Produtos clandestinos não oferecem necessariamente essas mesmas condições.
Nenhum medicamento está livre de riscos, mesmo depois de aprovado. No caso da retatrutida vendida fora dos canais autorizados, somam-se às incertezas de uma substância experimental os problemas de procedência e composição.
A promessa de emagrecimento expressivo ajuda a alimentar a procura. Os relatos recentes mostram por que essa promessa não pode ser confundida com segurança comprovada dos produtos disponíveis na internet.