Enquanto o foco da poluição por mercúrio costuma recair sobre a atmosfera ou os mares, os rios foram, por muito tempo, negligenciados nessa equação. Um estudo recente vem mudar esse cenário, mostrando que eles são, na verdade, uma rota vital para esse metal tóxico. O fluxo constante de mercúrio, alimentado por atividades humanas, ameaça a vida marinha, os ecossistemas e nossa saúde de forma silenciosa, porém alarmante.
Um fluxo tóxico que atravessa séculos
Pesquisadores da Universidade de Tulane, nos Estados Unidos, analisaram como o transporte de mercúrio pelos rios evoluiu desde 1850. Utilizando o modelo MOSART-Hg, eles constataram que hoje mais de mil toneladas métricas de mercúrio chegam aos oceanos anualmente — três vezes mais do que no período pré-industrial.
A principal origem desse aumento é a ação humana: mineração, escoamento de solos expostos, despejo de resíduos industriais e esgotos. Após chegar ao ambiente aquático, o mercúrio se transforma em metilmercúrio, substância altamente tóxica que se acumula na cadeia alimentar, especialmente em peixes e frutos do mar. O consumo frequente pode gerar danos neurológicos, cardiovasculares e complicações graves na gravidez e no desenvolvimento infantil.

Regiões mais críticas e um alerta global
Américas do Norte e do Sul são as maiores responsáveis por esse avanço, concentrando 41% do aumento registrado. No Brasil, a situação do Amazonas chama atenção: sozinho, o rio contribui com mais de 200 toneladas métricas por ano, sendo a mineração artesanal e o desmatamento as maiores causas. Na Ásia, o sudeste e o sul do continente somam quase metade da contribuição total, com destaque para o rio Yangtzé, na China, onde a indústria pesada é o principal vetor.
Curiosamente, algumas regiões fogem à regra: o Mediterrâneo apresenta níveis até abaixo dos registros históricos, um efeito atribuído à construção de grandes barragens, como a de Assuã, que retêm sedimentos contaminados.
Monitorar para agir antes que seja tarde
Além de traçar um panorama histórico, o estudo sugere que os rios funcionam como termômetros ambientais, refletindo rapidamente mudanças no uso da terra e na eficácia de políticas de controle, como o Acordo de Minamata. Assim, acompanhar de perto o mercúrio fluvial pode ser vital para frear esse envenenamento global.
Agir agora, reforçando monitoramento e medidas de redução de contaminação, é essencial para proteger a biodiversidade aquática e a saúde de populações que dependem dos rios e mares para viver.