A imagem tradicional do Reino Unido é quase inseparável de seus campos verdes, pastagens úmidas e dias marcados pela chuva. Mas o verão de 2026 está criando uma paisagem muito diferente em várias regiões. O solo aparece ressecado, os níveis dos rios despencaram e áreas que normalmente armazenam água começam a revelar grandes extensões de terra. E os números por trás dessa transformação são ainda mais impressionantes.
A chuva simplesmente desapareceu
Os dados provisórios do Met Office mostram a dimensão do fenômeno. Inglaterra e País de Gales registraram em julho de 2026 o mês de julho mais seco desde o início das medições, em 1836.
Considerando todo o Reino Unido, a quantidade de chuva ficou em apenas 35% da média habitual para julho.
No sul da Inglaterra, a situação foi ainda mais extrema. O país recebeu apenas 6,5 milímetros de chuva durante todo o mês, cerca de 10% do normal. No País de Gales, foram 9,3 milímetros, equivalentes a aproximadamente 9% da média histórica.
No sul da Inglaterra, o número caiu para impressionantes 1,9 milímetro, apenas 3% da precipitação normalmente esperada.
Dezenove condados receberam um milímetro de chuva ou menos durante todo o mês.
Ao mesmo tempo, o Reino Unido teve um dos julhos mais ensolarados já registrados, enquanto as temperaturas médias ficaram entre as mais altas das séries históricas.
A combinação de calor, céu aberto e ausência de chuva rapidamente começou a afetar os recursos hídricos.
Em 29 de julho, a Agência de Meio Ambiente colocou mais da metade da Inglaterra oficialmente em situação de seca. Os reservatórios nacionais estavam com apenas 72% de sua capacidade, cerca de 9,5 pontos percentuais abaixo da média.
No País de Gales, Natural Resources Wales ampliou a declaração de seca para todo o território no dia seguinte, diante de rios excepcionalmente baixos, trechos secos e problemas para peixes e agricultores.
A falta de água já chegou às torneiras e aos campos
O problema deixou de ser apenas uma mudança perceptível na paisagem.
Antes mesmo do fim de julho, sete empresas de abastecimento de água haviam anunciado restrições temporárias para aproximadamente 23 milhões de consumidores.
Entre as medidas estão as chamadas hosepipe bans, que restringem o uso de mangueiras para atividades como regar jardins, lavar carros ou abastecer piscinas.
A agricultura também começou a sentir os efeitos da escassez. Alguns produtores anteciparam colheitas, enquanto determinadas propriedades precisaram reduzir a irrigação por causa da diminuição dos níveis dos rios.
O calor ainda aumentou a pressão sobre o sistema. Nos dias mais quentes, a demanda pública por água chegou a crescer 30%.
E existe uma consequência que transforma a seca em um problema ainda mais perigoso: quando a vegetação perde umidade, o próprio território pode se tornar combustível.
Foi exatamente isso que começou a acontecer.
O verde virou combustível para incêndios
A vegetação seca criou condições favoráveis para a propagação de incêndios florestais.
Somente em julho, os bombeiros atenderam a 393 incêndios em áreas naturais na Inglaterra e no País de Gales. Foi o maior número registrado para um mês de julho.
Até o final daquele mês, 2026 já acumulava 716 incêndios.
A Escócia também enfrentou uma situação grave. Um grande incêndio no Parque Nacional Cairngorms atingiu aproximadamente 25 quilômetros quadrados, exigindo a utilização de helicópteros e reacendendo o debate sobre a necessidade de ampliar a capacidade aérea permanente para combater incêndios no país.
O episódio chama atenção porque a imagem de um Reino Unido predominantemente úmido e verde costuma estar associada a um clima relativamente chuvoso.
Mas essa percepção pode estar começando a ficar desatualizada.
As projeções climáticas do Met Office indicam que, em um cenário de altas emissões, os verões britânicos poderão ser entre 1 °C e 6 °C mais quentes até 2070, dependendo da região. A redução das chuvas também pode chegar a 60% em algumas áreas.
Isso não significa que a chuva desaparecerá do Reino Unido. O país continuará tendo períodos chuvosos.
A questão é a frequência e a intensidade das mudanças.
Se períodos de calor extremo e seca se tornarem mais comuns, os campos marrons, rios baixos e reservatórios recuados poderão deixar de ser uma imagem excepcional do verão britânico.
E é justamente essa possibilidade que torna os números de 2026 tão importantes: eles podem não representar apenas um verão fora do padrão, mas um vislumbre de como algumas partes do Reino Unido poderão parecer com mais frequência no futuro.