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Ciência

Rios, lagos e deltas revelam o passado de Marte, mas deixam um mistério ainda maior

Canais, deltas e minerais revelam um passado muito diferente do atual. Agora, os cientistas tentam reconstruir a origem e o destino da água que transformou Marte.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Hoje, Marte parece um deserto congelado, seco e hostil. Mas basta olhar para sua superfície com atenção para encontrar sinais de um passado quase irreconhecível: antigos rios, lagos, deltas e minerais formados na presença de água. O grande mistério não é mais saber se o planeta teve água líquida, mas entender como ela chegou ali, quanto existia e o que aconteceu com ela depois.

A água pode ter vindo de dentro do próprio planeta

Marte começou a se formar há cerca de 4,5 bilhões de anos, a partir de poeira e pequenos corpos que orbitavam o jovem Sol. Parte desse material continha hidrogênio e outros elementos voláteis, que acabaram incorporados aos minerais que formaram o interior do planeta.

Isso significa que uma parcela da água marciana pode ser tão antiga quanto o próprio planeta.

Meteoritos originários de Marte preservam pistas sobre esses antigos reservatórios. Elas ajudam os cientistas a reconstruir a quantidade de água que poderia estar presente no interior do planeta desde seus primeiros momentos.

Marte também era muito mais ativo geologicamente naquela época. Vulcões gigantes liberavam continuamente vapor d’água, dióxido de carbono e outros gases para a atmosfera. Esse processo, conhecido como desgasificação, teria ajudado a criar uma atmosfera muito mais espessa do que a atual.

Com temperaturas e pressão atmosférica adequadas, parte desse vapor poderia se condensar e retornar à superfície na forma de chuva ou neve, alimentando rios e lagos.

Mas essa provavelmente não foi a única fonte.

Asteroides podem ter completado a entrega

Durante os primeiros centenas de milhões de anos do Sistema Solar, Marte sofreu uma verdadeira chuva de impactos. Asteroides e outros corpos colidiam frequentemente com sua superfície, e alguns deles eram ricos em minerais hidratados e compostos voláteis.

Cada colisão poderia, portanto, acrescentar novos ingredientes ao planeta.

Por isso, uma das hipóteses mais aceitas é que a água marciana tenha uma origem mista. Uma parte teria sido incorporada durante a própria formação do planeta, enquanto outra chegou posteriormente por meio de impactos cósmicos.

Para tentar separar essas contribuições, os pesquisadores analisam os isótopos de hidrogênio presentes em diferentes materiais. A proporção entre hidrogênio comum e deutério, uma versão mais pesada do elemento, funciona como uma espécie de registro químico do passado.

O problema é que a história não termina na chegada da água.

Quando Marte ainda possuía intensa atividade vulcânica, gases liberados pelo interior poderiam ter alimentado ciclos atmosféricos capazes de sustentar períodos com água líquida. As marcas desse passado continuam visíveis em sua superfície.

O delta preservado na cratera Jezero, onde atualmente trabalha o rover Perseverance, é uma dessas pistas.

Os rios antigos deixaram um mapa do passado

As imagens obtidas por sondas orbitais e os dados coletados por rovers revelaram uma paisagem que dificilmente combina com o Marte atual.

Há redes de antigos canais, depósitos sedimentares, leitos de lagos e deltas que só poderiam ter se formado em um ambiente com água em estado líquido.

Até estruturas gigantes como Olympus Mons ajudam a lembrar que Marte já foi um planeta muito mais ativo.

Ainda existe, porém, uma discussão importante: o planeta primitivo era permanentemente quente e úmido ou passava por longos períodos congelados, interrompidos por episódios temporários de aquecimento e derretimento?

A resposta pode mudar completamente nossa compreensão sobre quanto tempo a água permaneceu disponível na superfície.

E isso leva ao maior mistério de todos: se Marte tinha tanta água, para onde ela foi?

O planeta é menor que a Terra e perdeu seu campo magnético global à medida que seu interior esfriou. Sem essa proteção, o vento solar passou a atingir sua atmosfera com maior intensidade durante bilhões de anos.

Nas camadas superiores da atmosfera, moléculas de água podiam ser quebradas. O hidrogênio, por ser extremamente leve, escapava com facilidade para o espaço.

Ainda assim, Marte não perdeu toda a sua água.

Parte da água ainda está escondida

Uma quantidade significativa permanece congelada nos polos e em depósitos subterrâneos. Outra parcela ficou presa dentro de minerais hidratados, incorporada quimicamente às rochas.

Isso significa que o antigo oceano marciano, rios e lagos não simplesmente desapareceram sem deixar vestígios. Parte de sua história continua armazenada no próprio solo.

É justamente por isso que entender a origem e o destino da água é muito mais importante do que apenas reconstruir a geologia de Marte.

A água líquida é um dos ingredientes fundamentais para a vida como conhecemos. Se o planeta conseguiu manter ambientes aquáticos durante períodos suficientemente longos, esses locais podem ter oferecido condições favoráveis para processos biológicos.

É uma das razões pelas quais o Perseverance está explorando a cratera Jezero e coletando amostras.

Cada sedimento, mineral ou fragmento de rocha pode ajudar a responder uma sequência de perguntas: quanta água existia, durante quanto tempo ela permaneceu líquida, de onde veio e o que aconteceu com ela.

Marte ainda é um deserto gelado. Mas suas rochas contam uma história muito diferente.

E talvez o mais fascinante seja que descobrir de onde veio aquela água possa ser também uma das melhores maneiras de descobrir se, em algum momento de sua história, Marte chegou a oferecer um lugar onde a vida pudesse existir.

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