A rivalidade entre países vizinhos costuma se manifestar no futebol, na política e até na música. Mas, quando o assunto é gastronomia, a disputa pode ganhar contornos ainda mais passionais. É exatamente o que acontece entre Colômbia e Venezuela, que travam uma batalha silenciosa, porém fervorosa, pela paternidade de um dos pratos mais icônicos da América do Sul: a arepa.
Arepa: o centro de uma rivalidade cultural

A arepa, um tipo de pão feito de massa de milho, é consumida diariamente tanto na Colômbia quanto na Venezuela, e cada país a reivindica como sua. Para os venezuelanos, a arepa é um prato principal, geralmente recheado com queijo, carne, frango ou banana. Já na Colômbia, a receita é mais variada e pode servir como acompanhamento ou ser preparada com milho fresco.
Apesar das diferenças, ambos os países veem a arepa como um símbolo nacional. E quando algo é tão identitário, surge o que os estudiosos chamam de “fundamentalismo culinário”: o sentimento de que um prato típico faz parte do DNA cultural de uma nação, tornando difícil aceitar que ele possa também ser de outro lugar.
Raízes históricas e a partilha da origem
Do ponto de vista histórico, a origem da arepa remonta aos povos indígenas que habitavam o norte da América do Sul antes da colonização espanhola. A palavra “arepa” vem do termo cumanagoto “erepa”, de onde hoje é a Venezuela. Mas registros indicam que a receita era difundida por toda a região, em comunidades que não conheciam fronteiras como as que existem hoje.
Com o tempo, a receita foi evoluindo em diferentes territórios, adaptando-se a ingredientes e técnicas locais. Assim como acontece com muitos pratos típicos da América Latina, a arepa se tornou patrimônio de uma cultura que transcende limites geográficos e que se nutre da troca entre povos.
Migração e o fortalecimento da identidade
Nos últimos anos, a crise na Venezuela levou milhões de pessoas a migrarem, especialmente para a Colômbia. Com elas, também viajaram suas versões da arepa. As “areperias” venezuelanas passaram a surgir em cidades colombianas e em diversos países da Europa e das Américas, aumentando a visibilidade internacional da arepa como prato venezuelano.
Isso gerou ainda mais tensão na disputa, alimentada por redes sociais e declarações de líderes políticos. Nicolás Maduro, por exemplo, tentou politizar a arepa, afirmando que ela é exclusivamente venezuelana e sugerindo que a Unesco a reconhecesse como patrimônio cultural do país — o que, obviamente, irritou os colombianos.
Cultura compartilhada ou apropriação?
A apropriação cultural é um tema delicado. No caso da arepa, muitos argumentam que rotular o prato como propriedade de um só país ignora seu passado comum e suas adaptações locais. Enquanto a Venezuela lidera a propagação do prato no exterior, a Colômbia vem conquistando espaço na cultura pop internacional, como mostra o sucesso do filme “Encanto”, da Disney, que apresentou a arepa ao mundo com um toque colombiano.
O comediante venezuelano Angelo Colina chegou a ironizar, em tom de brincadeira, que a arepa colombiana é “sem sabor”, o que gerou memes e reações hilárias nas redes. Mas o humor também abriu espaço para reflexões: será que um prato típico precisa ter nacionalidade?
A arepa como símbolo de união
Para muitos, a resposta está em transformar o que divide em algo que une. O migrante venezuelano Diego Mendoza, dono de uma areperia em Roterdã, declarou em entrevista ao New York Times que a arepa deveria ser um símbolo de convivência e não de rivalidade. Segundo ele, o prato reflete a fusão de culturas e a capacidade de adaptação de quem está longe de casa.
E talvez seja exatamente isso que torna a arepa tão especial: sua simplicidade e versatilidade permitem que ela seja reinventada em diferentes lugares, mantendo-se fiel à sua essência ancestral.
Um legado que ultrapassa fronteiras
O debate sobre a verdadeira origem da arepa é, no fundo, um reflexo da riqueza cultural da América Latina. Assim como o tamal, a empanada ou o ceviche, a arepa faz parte de uma herança coletiva, moldada por séculos de história, migrações e trocas culturais.
Na prática, a arepa já cruzou continentes e ganhou o mundo. E como disse Mendoza, talvez o mais justo seja aceitarmos que a arepa pertence a todos — ou, como ele mesmo resumiu: “a arepa deve pertencer ao mundo”.
[Fonte: Terra]