Os robôs estão deixando ambientes industriais isolados para ocupar hospitais, lojas, espaços públicos e até nossas casas. Essa aproximação traz um desafio inevitável: como garantir que máquinas pesadas e poderosas consigam interagir fisicamente com pessoas sem machucá-las?
O problema não é apenas teórico. Nos últimos anos, diferentes incidentes envolvendo robôs mostraram o que pode acontecer quando movimentos inesperados encontram seres humanos pelo caminho.
A resposta pode estar em uma área que pretende transformar a própria construção dessas máquinas: a robótica flexível, ou soft robotics.
Robôs fortes também podem representar riscos

À medida que os humanoides se tornam mais ágeis, suas capacidades físicas aumentam. Mas força e velocidade também ampliam as consequências de uma falha.
Recentemente, um robô precisou ser retirado de um restaurante depois de apresentar um comportamento descontrolado. Em outro episódio, uma máquina humanoide atingiu uma criança durante uma apresentação de dança na China.
Também houve um caso em que um jovem acabou recebendo acidentalmente um forte chute de um robô humanoide durante uma demonstração pública.
Acidentes envolvendo automação industrial podem ter consequências ainda mais graves. Em maio de 2023, um trabalhador de 20 anos morreu em um armazém da Amazon nos Estados Unidos depois de ser atingido na cabeça enquanto tentava resolver um problema em um transportador aéreo.
Nesse cenário, pesquisadores defendem que não basta tornar os robôs mais inteligentes. Também será necessário modificar a maneira como seus corpos são construídos.
O corpo humano pode inspirar robôs mais seguros
Manuel Catalano, pesquisador do Instituto Italiano de Tecnologia (IIT), acredita que uma das respostas está diante de nós: o próprio corpo humano.
Músculos, tendões e articulações não formam uma estrutura completamente rígida. Pelo contrário, nosso corpo possui elasticidade e consegue absorver impactos e adaptar movimentos constantemente.
Essa flexibilidade é fundamental sempre que tocamos, seguramos ou manipulamos alguma coisa.
Para Catalano, máquinas desenvolvidas para trabalhar próximas às pessoas deveriam seguir princípios semelhantes.
A ideia é observar como a natureza funciona e transportar algumas dessas características para sistemas artificiais. Isso significa abandonar, quando possível, estruturas excessivamente rígidas e desenvolver mecanismos capazes de ceder e se adaptar ao contato.
O que é robótica flexível?

Quando imaginamos um robô, materiais macios provavelmente não são a primeira coisa que vem à cabeça. Historicamente, essas máquinas foram construídas com estruturas rígidas, motores e peças metálicas.
A robótica flexível tenta mudar essa lógica.
Em vez de desenvolver apenas máquinas extremamente resistentes e precisas, pesquisadores trabalham com estruturas, articulações e materiais capazes de se deformar ou adaptar ao ambiente.
Isso pode fazer uma enorme diferença quando os robôs precisam tocar pessoas, manipular objetos frágeis ou circular em espaços compartilhados.
Catalano concentra suas pesquisas principalmente em duas áreas nas quais essa característica é especialmente importante: próteses e robôs humanoides.
SoftHand imita características da mão humana
Um dos projetos desenvolvidos com participação do pesquisador é a SoftHand, uma mão protética criada a partir dos princípios da robótica flexível.
O dispositivo possui diversas articulações comparáveis às encontradas em uma mão humana. Sua estrutura mecânica consegue se adaptar automaticamente ao formato dos objetos que toca.
Em vez de exigir movimentos completamente rígidos e previamente determinados, a mão se ajusta durante o contato. Como resultado, consegue executar gestos mais naturais.
Os materiais também fazem parte dessa estratégia.
A SoftHand utiliza componentes de borracha para reproduzir algumas características elásticas do sistema musculoesquelético humano. Quanto mais próximo o comportamento artificial estiver das propriedades do nosso corpo, mais intuitiva pode se tornar a interação.
A equipe também desenvolveu um conceito semelhante para os pés, chamado SoftFoot.
Alter Ego mostra outra abordagem para os humanoides
Os mesmos princípios chegaram aos robôs humanoides.
Um exemplo é Alter Ego, equipado justamente com as mãos SoftHand. O objetivo não é fazer com que a máquina seja confundida com uma pessoa.
Segundo Catalano, porém, existe uma diferença importante na percepção do público. As pessoas tendem a enxergar o robô como confiável, em vez de intimidante, aumentando a disposição para interagir com ele.
Alter Ego já está sendo testado em situações reais.
Uma unidade atua no Hospital IRCCS Maugeri, em Milão, auxiliando profissionais ligados ao atendimento de pacientes com esclerose lateral amiotrófica (ELA). Outra trabalha no Templo de Adriano, em Roma, recebendo visitantes e participando de visitas guiadas.
Robótica flexível vai muito além dos humanoides
Os mesmos conceitos podem ser úteis em áreas completamente diferentes.
O robô Frasky, por exemplo, foi desenvolvido para trabalhar em vinhedos. Nesse ambiente, delicadeza é uma característica essencial.
A máquina precisa manipular uvas sem danificá-las, além de assumir atividades repetitivas relacionadas ao cuidado das plantações, como irrigação e aplicação de tratamentos.
Outro projeto é o FlexCycle, apoiado pela Comissão Europeia, que pesquisa novas tecnologias para reciclar materiais flexíveis.
Esses exemplos mostram que o futuro da robótica pode não depender apenas de máquinas mais fortes, rápidas ou inteligentes.
Se robôs realmente passarem a dividir nossos espaços diariamente, eles também precisarão aprender algo que a evolução incorporou ao corpo humano há milhões de anos: flexibilidade suficiente para interagir com o mundo sem destruir aquilo que tocam.
[ Fonte: TN ]