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Ciência

Satélite registrou a maior onda já medida do espaço em pleno oceano aberto

Uma tempestade extrema no Pacífico gerou ondas gigantescas que viajaram quase o planeta inteiro — e um satélite registrou tudo de um jeito nunca visto antes.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, os cientistas monitoraram tempestades oceânicas tentando entender como ondas extremas surgem e atravessam o planeta. Mas parte desse fenômeno ainda escapava das medições tradicionais feitas por boias e embarcações. Agora, um satélite conseguiu registrar algo extraordinário em pleno oceano aberto: uma parede de água com quase 20 metros de altura no coração de uma megatempestade no Pacífico Norte. E o que os pesquisadores descobriram depois disso pode mudar modelos climáticos e previsões marítimas no futuro.

A maior onda já registrada do espaço surgiu no meio de uma tempestade extrema

Satélite registrou a maior onda já medida do espaço em pleno oceano aberto
© Unsplash

O fenômeno foi captado em dezembro de 2024 pelo satélite SWOT, missão conjunta da Nasa com a agência espacial francesa CNES.

No auge da tempestade Eddie, o equipamento registrou ondas com altura significativa de 19,7 metros em pleno Pacífico Norte. Isso equivale aproximadamente a um prédio de seis andares emergindo do oceano.

Segundo os pesquisadores, trata-se da maior onda já medida diretamente por satélite em mar aberto.

O mais impressionante é que o registro aconteceu longe de qualquer costa, em uma região onde instrumentos tradicionais raramente conseguem operar com precisão suficiente.

A tempestade Eddie foi considerada um ciclone extratropical extremamente intenso e acabou se tornando responsável pela maior altura média de ondas registrada no Pacífico na última década.

O sistema provocou danos em diversos pontos da costa americana, do Canadá até o Peru, além de gerar as condições extremas associadas à famosa competição de surfe Eddie, realizada no Havaí.

Embora o número oficial registrado tenha sido de 19,7 metros, os cientistas acreditam que algumas cristas individuais dentro da tempestade possam ter alcançado cerca de 35 metros.

Mesmo assim, esse valor mais alto permanece como estimativa matemática e não como medição oficial confirmada pelo satélite.

O satélite revelou detalhes inéditos sobre como o oceano transporta energia

Antes do SWOT, outros satélites já mediam ondas oceânicas desde os anos 1990. O problema é que os equipamentos antigos cobriam apenas pequenas partes do oceano e quase nunca atravessavam exatamente o centro das tempestades mais violentas.

No caso da tempestade Eddie, o SWOT cruzou justamente a região mais intensa do sistema no momento exato em que as ondas atingiam seu pico.

Isso permitiu criar mapas bidimensionais extremamente detalhados da superfície do oceano, registrando altura, direção e comprimento das ondas ao mesmo tempo.

Mas o que realmente chamou atenção dos pesquisadores foi a distância percorrida pela energia da tempestade.

As ondas gigantes acabaram se transformando em marulhos — ondulações capazes de continuar viajando mesmo depois que a tempestade desaparece.

Segundo o estudo, essa energia percorreu cerca de 24 mil quilômetros pelo oceano.

As ondulações deixaram o Pacífico Norte, passaram pela Passagem de Drake, entre a América do Sul e a Antártica, e chegaram até o Atlântico Tropical semanas depois.

Para os cientistas, isso mostra que tempestades podem influenciar regiões extremamente distantes, funcionando quase como “mensageiros oceânicos” capazes de transportar energia pelo planeta inteiro.

Os modelos antigos estavam errando a força real das ondas

A pesquisa também revelou um problema importante nos modelos usados atualmente para calcular energia oceânica.

Segundo os cientistas, os sistemas anteriores não ignoravam as ondas longas, mas superestimavam em até 20 vezes a quantidade de energia transportada por elas.

Na prática, isso significa que os modelos distribuíam a força das tempestades de maneira diferente do que realmente acontece no oceano.

Com os novos dados coletados pelo SWOT, os pesquisadores começaram a desenvolver modelos muito mais precisos, levando em conta interações complexas entre ondas curtas e longas.

Essa melhoria pode ter impacto direto na segurança marítima.

Ondas extremas representam ameaça real para cargueiros, plataformas offshore, cabos submarinos, portos e embarcações de grande porte. Saber exatamente onde elas se formam e como se propagam pode ajudar a evitar acidentes e ajustar rotas durante tempestades severas.

Cientistas agora tentam entender se o clima está alimentando megatempestades

Uma das perguntas mais importantes levantadas pelo estudo ainda permanece sem resposta definitiva: tempestades gigantes como Eddie estão se tornando mais frequentes por causa das mudanças climáticas?

Os pesquisadores tratam o tema com cautela, mas reconhecem que oceanos mais quentes armazenam mais energia e favorecem ventos capazes de formar ondas extremas.

Ao mesmo tempo, outros fatores também influenciam esse processo, como relevo submarino, trajetórias atmosféricas e variações naturais do clima global.

Por isso, os cientistas acreditam que o SWOT terá papel central nos próximos anos.

O satélite permitirá comparar tempestades futuras com precisão inédita, ajudando a identificar se os oceanos realmente estão entrando em uma nova fase marcada por eventos cada vez mais extremos.

Mais do que um recorde impressionante, a onda registrada do espaço revelou que parte da força dos oceanos ainda permanecia invisível para a ciência moderna.

[Fonte: O Globo]

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