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Ciência

Saturno escondia um mistério há 40 anos, mas o Hubble acaba de encontrar algo ainda mais estranho no outro polo

Durante décadas, uma formação geométrica gigantesca intrigou astrônomos em Saturno. Agora, imagens do Hubble revelaram outra estrutura surpreendente, com movimentos que desafiam as explicações científicas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Saturno sempre foi um dos planetas mais fascinantes do Sistema Solar, não apenas por seus anéis, mas também pelos fenômenos extraordinários que acontecem em sua atmosfera. Há mais de quatro décadas, cientistas tentam compreender uma gigantesca figura geométrica que permanece sobre um de seus polos. Agora, quando parecia que o planeta já havia revelado suas maiores surpresas, novas observações do telescópio Hubble trouxeram um mistério ainda mais intrigante.

Uma descoberta inesperada mudou o que sabíamos sobre a atmosfera de Saturno

Desde as primeiras observações realizadas pelas sondas Voyager, na década de 1980, os astrônomos conhecem uma das estruturas atmosféricas mais curiosas do Sistema Solar: um enorme hexágono que circunda o polo norte de Saturno.

Formado por correntes de ar extremamente rápidas, esse padrão de seis lados permanece reconhecível mesmo depois de décadas de tempestades e mudanças sazonais.

Durante muito tempo, os pesquisadores procuraram uma formação semelhante no hemisfério sul, mas não encontraram evidências convincentes.

A situação mudou com novas observações realizadas pelo telescópio espacial Hubble.

Uma equipe internacional liderada pelo astrônomo espanhol Agustín Sánchez-Lavega, da Universidade do País Basco (EHU), identificou uma gigantesca onda atmosférica com dez lados ao redor do polo sul de Saturno.

A estrutura, conhecida como decágono, apresenta uma geometria diferente daquela observada no hemisfério norte.

O fenômeno foi identificado inicialmente em imagens de 2023, obtidas pelo programa OPAL, responsável por acompanhar mudanças atmosféricas nos planetas gigantes.

Naquele momento, os pesquisadores perceberam uma deformação discreta próxima à latitude de 63 graus sul.

Em 2024, o padrão tornou-se mais evidente. Já nas imagens de 2025, os dez lados puderam ser reconhecidos com maior clareza.

O estudo, publicado na revista científica Science Advances, representa a primeira identificação de uma onda atmosférica gigante com geometria regular no hemisfério sul de Saturno.

Entretanto, a descoberta não significa que a estrutura tenha surgido recentemente. Ela pode existir há mais tempo, mas somente agora tornou-se suficientemente visível para ser estudada.

Ventos de mais de 400 km/h escondem um comportamento que surpreendeu os cientistas

A geometria do decágono já seria suficiente para chamar a atenção dos astrônomos. Mas o que realmente surpreendeu os pesquisadores foi seu movimento.

A estrutura está associada a uma poderosa corrente de jato atmosférica, com ventos que alcançam aproximadamente 418 quilômetros por hora.

Apesar dessa velocidade impressionante, o padrão de dez lados se desloca para o leste a apenas cerca de 9 quilômetros por hora.

Existe ainda outra característica inesperada.

Os vértices do decágono não permanecem em posições fixas. Eles apresentam oscilações para a frente e para trás, completando ciclos de aproximadamente 32 dias.

Esse comportamento contrasta com a estabilidade do famoso hexágono do polo norte, que mantém sua estrutura reconhecível há mais de quatro décadas.

Para tentar compreender o fenômeno, os cientistas utilizaram simulações computacionais desenvolvidas com participação da Universidade Politécnica da Catalunha.

Os modelos conseguiram reproduzir estruturas com dez lados a partir de perturbações nas correntes atmosféricas.

Entretanto, ainda não explicam completamente os movimentos identificados pelo Hubble.

Segundo os pesquisadores, a descoberta pode oferecer uma oportunidade rara para compreender como grandes ondas atmosféricas surgem, evoluem e interagem com os ventos dos planetas gasosos.

Por que Saturno tem um hexágono em um polo e um decágono no outro?

Essa é uma das perguntas mais importantes levantadas pela descoberta.

Embora Saturno apresente características atmosféricas semelhantes nos dois hemisférios, suas estruturas polares parecem seguir comportamentos bastante diferentes.

Uma possível explicação envolve a profundidade das correntes atmosféricas.

O decágono pode estar relacionado a movimentos relativamente superficiais das nuvens ou representar a manifestação visível de processos que acontecem em camadas mais profundas.

Outro fator importante são as estações do planeta.

Saturno leva aproximadamente 29 anos terrestres para completar uma volta ao redor do Sol. Por isso, suas estações duram vários anos.

As condições de iluminação dificultaram a observação do polo sul desde 2012, e sua recente exposição permitiu que os cientistas identificassem detalhes antes pouco visíveis.

Ainda não se sabe se o decágono permanecerá estável durante décadas ou desaparecerá conforme as condições atmosféricas mudarem.

O Hubble pode estar observando o nascimento de um fenômeno raro

Os astrônomos pretendem continuar acompanhando a estrutura com o Hubble e, possivelmente, com o telescópio espacial James Webb.

Novas observações poderão ajudar a determinar se o padrão está restrito às camadas superiores da atmosfera ou se possui conexões com regiões mais profundas.

A descoberta também pode contribuir para compreender fenômenos semelhantes em outros gigantes gasosos, como os agrupamentos de ciclones encontrados nos polos de Júpiter.

O mais fascinante é que os cientistas podem estar testemunhando uma estrutura atmosférica em plena evolução.

Enquanto o hexágono do norte permanece como um dos fenômenos mais duradouros de Saturno, o decágono do sul apresenta mudanças que ainda não foram completamente explicadas.

Depois de mais de 40 anos tentando compreender por que Saturno possui uma gigantesca figura de seis lados, os astrônomos agora precisam responder a uma pergunta ainda mais intrigante: por que o outro polo apresenta uma estrutura de dez lados com um comportamento tão diferente?

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