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Se o logotipo de Stranger Things parece familiar, é porque você o vê há anos — e provavelmente nunca percebeu

Os criadores da série buscaram uma fonte “discreta” entre tipografias prontas, mas acabaram escolhendo uma das mais onipresentes da cultura pop e do varejo europeu. Do supermercado às telas de cinema, a mesma letra conecta mundos que não deveriam ter nada em comum.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Quando Stranger Things estreou em 2016, muita gente sentiu uma estranha sensação de déjà-vu ao ver o logotipo vermelho brilhando na tela. Não era só nostalgia dos anos 1980. Havia algo objetivamente familiar ali — e levou um tempo até cair a ficha.

A série da Netflix, criada pelos Duffer Brothers, não usou uma tipografia desenhada sob medida. Em vez disso, a equipe mergulhou em fontes prontas até encontrar uma que julgou pouco explorada. A escolha parecia perfeita para evocar livros pulp, capas de terror clássico e o clima de aventuras juvenis. O problema é que ela já estava em todo lugar.

A fonte que atravessou gêneros, décadas — e supermercados

Stranger Things Back
© Netflix

Com o tempo, espectadores mais atentos começaram a ligar os pontos. Na Espanha, por exemplo, a mesma tipografia aparece desde 1996 nas embalagens da marca branca Hacendado, do grupo Mercadona. Basta uma passada pelo corredor do supermercado para perceber: o “S” alongado e as serifas marcantes são inconfundíveis.

Claro que o objetivo da Netflix nunca foi associar a série a produtos de prateleira. A ideia era capturar o espírito gráfico de obras dos anos 1970 e 1980 — algo que remetesse a ficção científica clássica e literatura popular. E, nesse sentido, a escolha funciona. O curioso é que o mesmo visual já tinha uma longa carreira no cinema.

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© https://x.com/updatecharts

Se você prestar atenção aos créditos iniciais de Pulp Fiction, vai reconhecer exatamente o mesmo estilo de letra. O filme de Quentin Tarantino usa a tipografia para apresentar seus atores, provando que ela pode tanto evocar terror sobrenatural quanto violência estilizada em Los Angeles.

E não para por aí. A fonte também apareceu nos títulos de Star Trek: The Next Generation e do filme Star Trek: First Contact. Ou seja: se você já assistiu a aventuras da Frota Estelar ou acompanhou Vincent Vega e Jules Winnfield, seus olhos já estavam treinados para reconhecer o visual de Stranger Things muito antes da série existir.

Essa reciclagem tipográfica não é exceção em Hollywood. Um caso ainda mais famoso envolve Avatar, cuja identidade visual inteira — pôsteres, logotipo e até legendas internas — foi construída com a fonte Papyrus, amplamente disponível em qualquer computador. Mesmo depois de descobrir que não se tratava de algo exclusivo, James Cameron decidiu manter o estilo nas continuações.

Por que usar fontes “comuns” ainda funciona

À primeira vista, pode parecer estranho que produções bilionárias recorram a tipografias pré-instaladas. Mas há um motivo prático: fontes populares carregam memória cultural. Elas já vêm carregadas de associações visuais que ajudam a comunicar um clima instantaneamente, sem precisar explicar nada.

No caso de Stranger Things, a escolha conversa com capas de Stephen King, romances de aventura juvenil e cartazes de cinema oitentistas. É uma linguagem gráfica que o cérebro reconhece em milissegundos. Mesmo que você não saiba nomear a fonte, sente que ela pertence àquele universo.

Ao mesmo tempo, esse reaproveitamento cria colisões inesperadas. Um mesmo traço tipográfico conecta uma cidade fictícia cheia de Demogorgons, um supermercado , um clássico de Tarantino e viagens interestelares da Federação. É a prova de que design não vive em compartimentos isolados.

O detalhe invisível que molda nossa percepção

Tipografia costuma ser um elemento silencioso. A gente percebe quando algo está “errado”, mas raramente quando está funcionando. Justamente por isso, escolhas como essa passam despercebidas durante anos — até alguém apontar.

Depois disso, é impossível desver.

A próxima vez que você der play em Stranger Things, passar pelo corredor de massas do supermercado ou rever Pulp Fiction, repare nas letras. Você vai notar que todos esses mundos compartilham o mesmo DNA visual. E talvez perceba que, às vezes, o segredo de um logotipo icônico não está em ser único — mas em ativar memórias que já estavam aí, escondidas à vista de todos.

 

[ Fonte: Sensacine ]

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