A sucessão papal é um momento de grande expectativa global. Com a cadeira de São Pedro novamente vaga, o Vaticano inicia um dos rituais mais tradicionais e misteriosos do catolicismo: o conclave. Trata-se de um processo rigoroso, realizado sob absoluto sigilo na Capela Sistina, que segue normas seculares e mantém tradições que remontam à Idade Média.
A origem e as regras rígidas do conclave
A palavra “conclave” vem do latim cum clave, que significa “com chave” — e não é figura de linguagem. Desde o século XIII, os cardeais são literalmente trancados até escolherem o novo Papa, com o intuito de evitar influências externas.
O primeiro conclave com confinamento oficial aconteceu em 1241. Mas foi em 1271, após anos de impasse na escolha papal, que o Papa Gregório X determinou as regras: isolamento total, racionamento de alimentos (apenas pão e água) e proibição de qualquer comunicação com o mundo exterior.
Com o tempo, algumas regras se suavizaram — há relatos de cardeais que levavam conhaque ou até fumavam entre as sessões —, mas o sigilo permanece absoluto. A Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis, instituída por João Paulo II, reforça o uso de juras solenes e a proibição de celulares, jornais, internet ou qualquer contato externo.
Como o Papa é escolhido
O conclave começa com uma procissão até a Capela Sistina, ao som do cântico Veni Creator Spiritus. Lá, o Camarlengo (encarregado de gerenciar a transição papal) exclama “Extra omnes!” — “Todos para fora!” — e as portas são seladas.
Os cardeais prestam juramento de sigilo e então iniciam as votações. Cada um escreve seu voto em uma cédula, mostra aos demais e a deposita na urna. Para que um candidato seja eleito, ele precisa receber dois terços dos votos.
As cédulas são queimadas após cada votação. A fumaça preta indica que ainda não houve consenso. Fumaça branca significa que o novo Papa foi escolhido. Ao eleito, é perguntado se aceita o cargo e qual nome deseja adotar. A decisão é então anunciada ao mundo com a frase: Habemus Papam.

Histórias e curiosidades do conclave
O conclave já rendeu momentos únicos. Em 2005, o primeiro sinal de fumaça durante a escolha de Bento XVI causou confusão, pois a cor não era clara. Desde então, são usados produtos químicos específicos para garantir a visibilidade nítida da cor.
Em 1740, após dezenas de votações infrutíferas, um cardeal brincou: “Se querem um santo, escolham Gotti; um político, Aldrovandi; um tolo, escolham a mim”. Ele foi eleito — e teve um pontificado respeitável.
Apesar de raro, o Papa não precisa ser obrigatoriamente um cardeal presente no conclave. Pode-se escolher até mesmo alguém fora da sala — embora ele precise ser ordenado bispo antes de assumir o pontificado.
Um novo capítulo para a Igreja
Durante seu pontificado, o Papa Francisco nomeou 142 cardeais de 70 países. Destes, 113 têm direito a voto. O processo já está em andamento e pode definir o rumo da Igreja por décadas.
Agora, com as portas fechadas da Capela Sistina, o mundo aguarda o momento em que a fumaça branca subirá novamente sobre o Vaticano. E a voz anunciará: Habemus Papam.