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Ciência

Ser pai parece exigir um mestrado: especialistas questionam a sensação de que estamos criando os filhos de forma errada

Pesquisadores espanhóis alertam que o excesso de recomendações, medo e discursos pessimistas pode fazer pais acreditarem que precisam de especialistas para cada decisão
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Tempo de leitura: 4 minutos

Criar filhos nunca foi exatamente fácil. Mas talvez nunca tenha parecido tão complicado.

Tempo de tela, redes sociais, saúde mental, alimentação, autonomia, desempenho escolar, tecnologia. Para praticamente qualquer decisão envolvendo crianças ou adolescentes, existe hoje uma recomendação especializada — e, muitas vezes, outra dizendo exatamente o contrário.

O resultado pode ser uma sensação permanente de fracasso.

“Parece que ser pai exige quase um mestrado, um doutorado e formação extra”, resume Fátima García Doval, professora associada da Universidade de Santiago de Compostela e coautora, com o psicólogo José César Perales, do livro “Ni frágiles ni idiotas”.

Os dois pesquisadores defendem uma ideia provocadora: talvez crianças e adolescentes não estejam tão mal quanto frequentemente imaginamos. E talvez o medo esteja distorcendo nossa percepção.

Até as recomendações sobre telas estão mudando

A psicologia finalmente explicou por que alguns pais parecem ter um filho favorito
© Unsplash

Um exemplo dessa transformação apareceu em fevereiro de 2026.

Depois de anos enfatizando limites de tempo diante das telas, a Academia Americana de Pediatria reformulou sua abordagem. Em vez de concentrar toda a atenção na quantidade de minutos, passou a considerar de maneira mais ampla o contexto digital, o conteúdo consumido e a dinâmica familiar.

A mudança reconhece uma realidade difícil de ignorar: separar completamente crianças e adolescentes das telas se tornou praticamente impossível.

Para Libby Milkovich, uma das autoras das novas recomendações, parte do objetivo também é diminuir a pressão e a culpa colocadas sobre os pais.

Isso não significa ignorar os riscos da tecnologia. Significa reconhecer que o problema não pode ser reduzido simplesmente a uma contagem de minutos.

“Temos a sensação de que fazemos tudo errado”

Perales acredita que a comunicação entre gerações melhorou nas últimas décadas.

Segundo ele, muitos pais atualmente demonstram mais preocupação e envolvimento com os filhos do que gerações anteriores.

Isso tem um lado claramente positivo.

Saúde mental, por exemplo, deixou de ser um assunto ignorado e passou a receber muito mais atenção.

O problema aparece quando a preocupação se transforma em vigilância constante ou quando intervenções criadas para prevenir problemas são aplicadas sem considerar seus possíveis efeitos indesejados.

Para García Doval, existe também uma perda progressiva da sensação de autonomia.

Pais, avós, professores e cuidadores podem começar a acreditar que precisam da aprovação de um especialista para tomar decisões que seres humanos tomaram durante milhares de anos.

O paradoxo é evidente.

O conhecimento especializado permite navegar por uma sociedade extremamente complexa. Ao mesmo tempo, depender dele para absolutamente tudo pode reduzir a confiança das pessoas em sua própria capacidade de decidir.

Estamos criando uma “sociedade do medo”?

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© Pexels

Perales vai além e afirma que os próprios especialistas podem estar contribuindo para construir uma visão excessivamente pessimista do futuro.

Tecnologia, redes sociais e mudanças culturais frequentemente aparecem como ameaças especialmente perigosas para crianças e adolescentes.

Mas esse comportamento não é exatamente novo.

A história está cheia dos chamados “pânicos morais”: momentos em que uma tecnologia ou comportamento novo foi interpretado como uma ameaça profunda à sociedade.

Trens, televisão, videogames, internet e smartphones, em diferentes momentos, despertaram preocupações desse tipo.

Isso não significa que novas tecnologias sejam inofensivas.

O problema surge quando o medo substitui a análise das evidências.

Segundo García Doval, existe ainda outro fenômeno: antes que a sociedade consiga avaliar completamente se determinado temor era realmente justificado, uma nova ameaça já ocupou seu lugar.

O resultado pode ser um ciclo permanente de ansiedade.

O medo também influencia decisões políticas

Perales argumenta que o medo nunca é completamente neutro.

Preocupações legítimas com crianças e adolescentes podem ser utilizadas para defender determinadas políticas educacionais, modelos familiares ou restrições tecnológicas.

O pesquisador chama atenção especialmente para discursos que utilizam os supostos efeitos negativos da tecnologia sobre jovens para justificar o retorno a modelos considerados tradicionais.

Isso não significa que qualquer preocupação com smartphones ou redes sociais seja politicamente motivada.

A questão é outra: transformar um problema complexo em uma ameaça absoluta pode facilitar soluções igualmente absolutas.

E é justamente aí que os pesquisadores pedem cautela.

Proibir tudo ou permitir tudo são respostas fáceis

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© Kampus Production – Pexels

Diante de uma tecnologia nova, Perales defende avaliações cuidadosas de custos e benefícios.

É necessário reconhecer aquilo que a ciência realmente sabe, antecipar possíveis danos e, ao mesmo tempo, aceitar as incertezas.

Prevenir também não é automaticamente melhor do que cuidar de um problema quando ele aparece.

Para García Doval, o medo empurra decisões para dois extremos: ou proibimos completamente ou permitimos sem qualquer limite.

A realidade costuma ser muito mais complicada.

Criar crianças e adolescentes em um mundo cheio de tecnologia provavelmente exigirá regras, acompanhamento e adaptações constantes. Mas isso não significa que cada decisão cotidiana precise de validação científica.

Talvez uma das tarefas mais difíceis da parentalidade moderna seja justamente recuperar esse equilíbrio: ouvir especialistas quando eles realmente podem ajudar, considerar as evidências disponíveis e, ao mesmo tempo, não perder a confiança na própria capacidade de educar e tomar decisões.

 

[ Fonte: Xataka ]

 

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