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Leonardo DiCaprio chegou ao Brasil para falar da Amazônia enquanto outra riqueza coloca o país diante de uma escolha decisiva

Um encontro no Palácio do Planalto colocou floresta, povos indígenas e clima no centro das atenções. Ao mesmo tempo, outra disputa estratégica avança silenciosamente no Brasil.
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Tempo de leitura: 5 minutos

Leonardo DiCaprio é conhecido mundialmente pelo cinema, mas sua passagem pelo Brasil teve um roteiro bem diferente. Depois de visitar territórios ligados à conservação ambiental, o ator chegou a Brasília para uma conversa de cerca de 40 minutos com Lula. Enquanto Amazônia e povos indígenas dominavam a reunião, o país discutia outra questão capaz de definir parte de seu futuro econômico: o destino de minerais disputados pelas grandes potências.

Uma conversa de 40 minutos levou a Amazônia ao Palácio do Planalto

Leonardo DiCaprio chegou ao Brasil para falar da Amazônia enquanto outra riqueza coloca o país diante de uma escolha decisiva
© YouTube

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu Leonardo DiCaprio no Palácio do Planalto em 2 de setembro. Participaram também a primeira-dama Janja Lula da Silva e representantes do governo e da organização ambiental Re, ligada ao ator.

A conversa passou pelas mudanças climáticas, pela redução do desmatamento, pelo combate ao garimpo ilegal e pela proteção dos territórios indígenas.

DiCaprio também recuperou uma história pessoal com o Brasil. Ele contou sobre sua passagem pelo Xingu há cerca de 25 anos e sua relação com o cacique Raoni Metuktire, uma das figuras mais conhecidas internacionalmente na defesa dos povos indígenas e da floresta. Antes de chegar a Brasília, o ator voltou a encontrar Raoni durante sua passagem pelo país.

O encontro também serviu para discutir iniciativas que tentam transformar conservação em uma atividade economicamente sustentável.

Wes Sechrest, CEO da Re, destacou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, conhecido pela sigla TFFF. A proposta busca criar um mecanismo financeiro de longo prazo para recompensar países que conseguem manter suas florestas tropicais preservadas.

Mas, enquanto essa agenda ambiental avançava em Brasília, outra discussão igualmente ligada aos recursos naturais brasileiros ganhava força no Congresso.

Debaixo do solo, o Brasil possui uma riqueza que o mundo inteiro deseja

Leonardo DiCaprio chegou ao Brasil para falar da Amazônia enquanto outra riqueza coloca o país diante de uma escolha decisiva
© YouTube

Um dia depois do encontro, o Senado aprovou uma legislação destinada a estabelecer novas regras para minerais críticos e estratégicos, incluindo as chamadas terras raras. O texto já havia passado pela Câmara e segue para sanção presidencial.

O nome pode sugerir materiais extremamente escassos, mas a questão é mais complexa. As terras raras formam um conjunto de 17 elementos químicos fundamentais para diversas tecnologias modernas.

Elas aparecem em motores elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos, equipamentos militares, veículos e componentes utilizados na transição energética.

E o Brasil ocupa uma posição excepcional nessa corrida.

O país possui as segundas maiores reservas conhecidas de terras raras do planeta, atrás apenas da China. O problema é que ter o mineral debaixo da terra não significa dominar toda a cadeia tecnológica necessária para transformá-lo em produtos de alto valor agregado.

A China construiu uma enorme vantagem justamente no processamento e na separação desses elementos.

Por isso, a questão brasileira não é simplesmente decidir quanto extrair. O debate é sobre o que fazer com esses recursos depois que saem do solo.

Lula não quer que a história das commodities se repita

A posição defendida pelo governo é que o Brasil não deveria limitar-se a retirar os minerais e enviá-los ao exterior.

A ambição é desenvolver uma cadeia industrial capaz de processar as terras raras nacionalmente e produzir itens de maior valor, como ímãs e baterias.

A legislação aprovada prevê incentivos fiscais para estimular esse processamento doméstico. Também cria o Conselho Nacional para a Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos e amplia o papel do governo em determinadas decisões envolvendo empresas do setor.

A estratégia possui uma dimensão geopolítica evidente.

Com a China dominando grande parte da cadeia mundial de terras raras, países interessados em diversificar seus fornecedores enxergam o Brasil como uma alternativa estratégica. Estados Unidos e empresas internacionais já demonstraram forte interesse nesses recursos.

Um exemplo recente mostra o tamanho dessa movimentação: a americana USA Rare Earth fechou a compra dos ativos da brasileira Serra Verde por cerca de US$ 2,8 bilhões.

Lula, por sua vez, tem defendido que o país pode estabelecer parcerias internacionais sem ficar preso a uma única potência. A ideia é utilizar as reservas como instrumento de desenvolvimento tecnológico e industrial.

A mesma riqueza que promete uma revolução também cria um dilema ambiental

Existe, porém, uma contradição difícil de ignorar.

Muitos dos minerais considerados fundamentais para tecnologias de baixo carbono precisam ser obtidos por mineração, uma atividade capaz de produzir impactos significativos sobre água, solo, biodiversidade e comunidades próximas.

Algumas áreas potencialmente envolvidas na expansão mineral também estão próximas de regiões ambientalmente sensíveis.

Organizações ambientais já criticaram pontos da nova legislação. O Observatório do Clima argumenta que acelerar a exploração sem garantias socioambientais suficientes pode ameaçar comunidades e territórios justamente em nome da transição energética.

É aí que as duas histórias aparentemente separadas começam a se encontrar.

De um lado, Lula recebe Leonardo DiCaprio para falar sobre proteção da Amazônia, combate ao desmatamento, povos indígenas e financiamento da conservação.

Do outro, o Brasil tenta aproveitar uma oportunidade econômica gigantesca criada pela corrida mundial por minerais estratégicos.

A questão não precisa necessariamente ser apresentada como uma escolha entre preservar ou desenvolver. O verdadeiro desafio será demonstrar que o país consegue fazer as duas coisas simultaneamente.

O Brasil pode ter nas mãos duas das riquezas mais disputadas deste século

Florestas tropicais e minerais críticos parecem recursos completamente diferentes. Mas ambos se tornaram centrais na discussão sobre clima, tecnologia e geopolítica.

A Amazônia desempenha um papel decisivo para a biodiversidade e para o equilíbrio climático global. As terras raras, por sua vez, são fundamentais para inúmeras tecnologias que devem ganhar importância conforme o mundo avança na eletrificação e na transição energética.

O Brasil possui os dois.

Essa combinação cria uma oportunidade extraordinária, mas também aumenta a responsabilidade sobre as decisões tomadas agora.

O encontro entre Lula e DiCaprio chamou atenção pela presença de uma estrela de Hollywood no Palácio do Planalto. A discussão sobre terras raras talvez tenha produzido imagens muito menos chamativas.

Mas, juntas, as duas histórias revelam algo maior.

Nas próximas décadas, parte do protagonismo brasileiro poderá depender de uma equação especialmente complicada: descobrir como transformar aquilo que está debaixo da terra em desenvolvimento sem destruir aquilo que precisa continuar de pé sobre ela.

[Fonte: Noticias ambientales]

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