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Ciência

O que é ruído rosa e por que ele pode ajudar o cérebro a se “limpar” enquanto você dorme

Sons semelhantes à chuva ou às ondas do mar podem aumentar o movimento do líquido que ajuda a remover resíduos do cérebro durante o sono, segundo pesquisadores do MIT.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O barulho constante da chuva, das ondas do mar ou das folhas balançando com o vento pode fazer mais do que simplesmente ajudar algumas pessoas a dormir. Um estudo do Massachusetts Institute of Technology (MIT) indica que o chamado ruído rosa pode intensificar ondas do líquido cefalorraquidiano durante o sono.

Esse líquido circula ao redor do cérebro e da medula espinhal e participa, entre outras funções, da remoção de resíduos produzidos pelas células cerebrais. Os pesquisadores descobriram que pequenas rajadas de ruído rosa, aplicadas no momento correto, conseguem aumentar esse fluxo.

Os resultados foram publicados na revista Science Translational Medicine.

O que é exatamente o ruído rosa?

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© Pixabay/MARXCINE

O ruído rosa é parecido com o conhecido ruído branco, mas existe uma diferença importante.

O ruído branco distribui sua potência igualmente entre diferentes frequências, o que produz aquele som constante e relativamente agudo associado à estática de uma televisão ou rádio.

No ruído rosa, a energia diminui à medida que a frequência aumenta. Na prática, as frequências graves ficam mais presentes e as agudas são suavizadas.

Isso cria uma sensação sonora mais natural e equilibrada para o ouvido humano.

Chuva constante, ondas do mar, uma cachoeira distante e folhas movimentadas pelo vento são exemplos de sons que podem apresentar características semelhantes ao ruído rosa.

O cérebro realiza uma espécie de limpeza durante o sono

O líquido cefalorraquidiano é transparente e envolve o cérebro e a medula espinhal.

Além de proteger o sistema nervoso contra impactos, ele participa do transporte de nutrientes e da remoção de substâncias residuais produzidas pelo metabolismo das células cerebrais.

Em 2019, a pesquisadora Laura Lewis, atualmente ligada ao Instituto de Engenharia e Ciências Médicas do MIT, ajudou a desenvolver uma técnica para acompanhar o movimento desse líquido entrando e saindo do cérebro durante o sono.

Os pesquisadores descobriram que essas oscilações estavam estreitamente relacionadas às chamadas ondas cerebrais lentas, características principalmente das fases mais profundas do sono não REM.

No novo experimento, a equipe quis descobrir se seria possível manipular essas ondas cerebrais e, como consequência, alterar também o movimento do líquido cefalorraquidiano.

O segredo está em tocar o som no momento exato

Estudos anteriores já haviam mostrado que estímulos auditivos aplicados em momentos específicos podem intensificar as ondas lentas do cérebro.

Lewis compara o processo a empurrar uma criança em um balanço.

Se o impulso acontece no momento certo, o balanço chega mais longe. Se ocorre no instante errado, o efeito é muito menor.

Para conseguir essa precisão, os pesquisadores monitoraram a atividade cerebral dos participantes enquanto eles dormiam.

O estímulo utilizado consistia em uma pequena rajada de ruído rosa com apenas 50 milissegundos de duração.

O desafio era descobrir exatamente quando cada onda lenta atingiria seu pico.

Um algoritmo precisava prever as ondas cerebrais

Anestesia Cerebrais
© Canva/Divulgação/ND

Os cientistas utilizaram eletroencefalografia para acompanhar a atividade elétrica cerebral e ressonância magnética funcional para observar o fluxo do líquido cefalorraquidiano.

Combinar as duas tecnologias não é simples.

Os fortes campos magnéticos utilizados na ressonância interferem nas medições elétricas do eletroencefalograma.

Para contornar o problema, a equipe desenvolveu um sistema capaz de processar os sinais e eliminar rapidamente a interferência provocada pelo equipamento de ressonância.

Mesmo assim, existia um atraso inferior a 100 milissegundos.

A solução foi criar um algoritmo capaz de prever quando ocorreria o próximo pico das ondas cerebrais lentas. Assim, o ruído rosa podia ser reproduzido praticamente no instante ideal.

Ruído rosa aumentou as ondas em 14 voluntários

O experimento foi realizado com 14 adultos saudáveis.

As pequenas rajadas sonoras eram suficientemente suaves para não acordar os participantes.

Os resultados mostraram que os estímulos aumentaram tanto a amplitude das ondas cerebrais lentas quanto as oscilações do líquido cefalorraquidiano.

As imagens de ressonância também ajudaram a revelar o mecanismo envolvido.

As ondas cerebrais lentas parecem estimular ciclos de contração e dilatação dos vasos sanguíneos. Essas mudanças funcionariam como uma espécie de bomba, ajudando a movimentar o líquido dentro e fora do cérebro.

Segundo os pesquisadores, foi a primeira demonstração de que seria possível aumentar dessa maneira a amplitude das ondas de fluxo do líquido cefalorraquidiano durante o sono.

Isso pode melhorar o sono ou ajudar contra o Alzheimer?

Ainda é cedo para afirmar.

O estudo envolveu apenas 14 voluntários saudáveis e demonstrou principalmente que o mecanismo pode ser manipulado. Ele não mostrou que simplesmente colocar sons de chuva ou ruído rosa para tocar durante a noite produzirá o mesmo resultado.

O efeito dependeu de estímulos extremamente curtos e sincronizados com as ondas cerebrais de cada participante.

Agora, os pesquisadores querem descobrir se aumentar o fluxo do líquido cefalorraquidiano pode tornar o sono mais reparador, especialmente em pessoas com insônia.

Outra possibilidade envolve doenças neurodegenerativas.

A remoção de resíduos cerebrais é particularmente relevante no Alzheimer e em outras demências, condições associadas ao acúmulo de proteínas como beta-amiloide e tau.

Se futuros estudos demonstrarem que estimular o fluxo do líquido cefalorraquidiano também melhora a eliminação dessas substâncias, a técnica poderá abrir uma nova linha de investigação.

Por enquanto, o experimento não significa que dormir ouvindo chuva seja uma forma de prevenir o Alzheimer. Mas mostra que um estímulo sonoro aplicado no momento exato consegue interferir em um dos processos fisiológicos que ocorrem enquanto o cérebro dorme.

 

[ Fonte: La Voz de Galicia ]

 

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