Duas pessoas podem comer exatamente os mesmos alimentos e apresentar respostas diferentes no organismo. Enquanto uma metaboliza a cafeína rapidamente, outra pode sentir seus efeitos durante horas. Essas diferenças despertaram o interesse de pesquisadores por uma área que conecta genética e nutrição. Conhecida como nutrigenética, ela busca compreender como pequenas variações no DNA influenciam a maneira como aproveitamos os nutrientes e quais benefícios reais esse conhecimento pode oferecer à saúde.
O que é nutrigenética e como ela funciona?

A nutrigenética estuda a influência das variações genéticas sobre a resposta do organismo aos alimentos e nutrientes.
Nosso DNA contém instruções que participam de inúmeros processos biológicos, incluindo a produção de enzimas responsáveis pela digestão, absorção e metabolismo.
Entretanto, essas instruções não são idênticas em todas as pessoas.
Pequenas diferenças na sequência genética podem modificar a eficiência de determinadas enzimas, influenciando a maneira como o corpo processa substâncias presentes na alimentação.
A proposta da nutrigenética é utilizar essas informações para compreender necessidades individuais e, quando houver evidências suficientes, orientar escolhas alimentares mais específicas.
Ela não deve ser confundida com a nutrigenômica, que investiga como nutrientes e padrões alimentares podem influenciar a expressão dos genes.
As duas áreas se complementam, mas respondem a perguntas científicas diferentes.
O DNA pode explicar por que algumas pessoas reagem de maneira diferente aos alimentos

Um dos exemplos mais conhecidos envolve a lactose, açúcar naturalmente presente no leite.
Em muitas pessoas, a produção da enzima lactase diminui após a infância, dificultando a digestão da lactose.
Variações genéticas próximas ao gene LCT ajudam a explicar por que alguns adultos continuam produzindo quantidades suficientes dessa enzima.
Outro exemplo envolve a cafeína.
O gene CYP1A2 participa da produção de uma enzima importante para metabolizar essa substância. Certas variantes genéticas estão associadas a diferenças na velocidade desse processo.
Isso pode contribuir para explicar por que algumas pessoas toleram café no fim do dia, enquanto outras apresentam dificuldades para dormir.
Também existem pesquisas sobre genes relacionados ao metabolismo de gorduras, vitaminas e outros nutrientes.
Entretanto, conhecer uma variante genética não significa conseguir prever com precisão a resposta individual a todos os alimentos.
Como funciona um teste de nutrigenética?
O exame geralmente utiliza uma amostra de saliva para analisar variantes específicas do DNA.
Os resultados podem indicar predisposições relacionadas ao metabolismo de nutrientes e a determinados problemas metabólicos.
Em entrevista ao portal argentino Rosario3, a médica Gisela García, especialista em nutrição genômica, explicou que a interpretação deve considerar também sintomas, histórico familiar, exames laboratoriais e hábitos de vida.
Um resultado genético não confirma que a pessoa tenha diabetes, obesidade ou outra doença. Ele pode indicar uma suscetibilidade que precisa ser avaliada em conjunto com outros fatores.
Por isso, a análise não deve produzir uma simples lista de alimentos permitidos e proibidos.
As dietas baseadas no DNA realmente funcionam?
Embora a nutrigenética apresente possibilidades interessantes, sua aplicação clínica ainda possui limitações importantes.
Um relatório de consenso da Academia de Nutrição e Dietética dos Estados Unidos concluiu que as evidências disponíveis ainda são insuficientes para determinar se acrescentar testes genéticos ao acompanhamento nutricional melhora os resultados de saúde.
Isso não significa que a genética seja irrelevante, mas que muitas recomendações comerciais ultrapassam aquilo que os estudos conseguiram demonstrar.
Além disso, doenças como diabetes tipo 2 e obesidade dependem da interação de numerosos genes com alimentação, atividade física, sono e fatores ambientais.
Nenhum exame genético consegue determinar sozinho qual seria a dieta perfeita para uma pessoa.
O futuro da alimentação personalizada
A expectativa dos pesquisadores é combinar informações genéticas com exames clínicos, características metabólicas e hábitos individuais.
Essa abordagem pode contribuir para uma medicina mais precisa, especialmente quando existem questões clínicas específicas.
Entretanto, não é necessário fazer um teste de DNA para começar a melhorar a alimentação.
Consumir frutas, verduras, legumes, grãos integrais e fontes adequadas de proteínas continua sendo uma recomendação amplamente sustentada por evidências científicas.
A nutrigenética poderá acrescentar novas informações a essas orientações, mas dificilmente substituirá os princípios fundamentais de uma alimentação saudável.
O futuro das dietas personalizadas talvez esteja escrito parcialmente em nossos genes. Por enquanto, porém, o DNA é apenas uma peça de um quebra-cabeça muito maior.