Em 1988, a União Soviética lançou duas espaçonaves com um objetivo que nenhuma missão havia conseguido realizar: pousar equipamentos científicos em uma lua de outro planeta. O projeto envolvia tecnologias avançadas, instrumentos internacionais e até um pequeno robô capaz de se movimentar aos saltos. Tudo parecia preparado para uma conquista histórica. Mas uma sequência de problemas técnicos transformou a aventura em um dos episódios mais frustrantes da exploração espacial.
A União Soviética queria conquistar uma pequena lua de Marte
Durante os anos 1970, cientistas soviéticos discutiam como recuperar o protagonismo na exploração do Sistema Solar.
Missões ambiciosas para estudar Marte e trazer amostras à Terra apresentavam dificuldades técnicas e financeiras consideráveis.
Uma alternativa ganhou força: explorar Fobos, a maior das duas luas marcianas.
O pequeno satélite despertava interesse porque sua origem permanecia incerta e sua gravidade extremamente fraca oferecia oportunidades para experimentos inéditos.
Em julho de 1988, a União Soviética lançou as sondas Fobos 1 e Fobos 2, desenvolvidas sobre uma nova plataforma espacial chamada UMVL.
As espaçonaves transportavam instrumentos construídos com a participação de pesquisadores de diferentes países.
O plano era estudar Marte, aproximar-se de Fobos, fotografar sua superfície e liberar equipamentos capazes de realizar medições diretamente no solo.
Se tudo funcionasse, os soviéticos seriam pioneiros no pouso de dispositivos científicos em um satélite natural de outro planeta.
Entretanto, a primeira missão sequer conseguiria chegar ao destino.
Um pequeno erro de programação destruiu a primeira espaçonave
A Fobos 1 deixou a Terra em 7 de julho de 1988 e iniciou sua viagem rumo a Marte.
Durante as primeiras semanas, a sonda realizou observações do Sol e do ambiente interplanetário.
Mas, em 29 de agosto, recebeu uma sequência de comandos que continha um erro aparentemente insignificante.
Um caractere ausente nas instruções fez o computador interpretar incorretamente uma ordem enviada pelos controladores.
Como consequência, foram desativados os propulsores responsáveis por manter a orientação da espaçonave.
Sem conseguir posicionar adequadamente seus painéis solares, a sonda perdeu a capacidade de recarregar as baterias.
A situação se agravou porque os comandos não haviam passado por uma verificação suficientemente rigorosa antes da transmissão.
Em 2 de setembro, a Fobos 1 deixou de responder.
Depois de várias tentativas de restabelecer a comunicação, a missão foi considerada perdida.
Uma operação que havia exigido anos de desenvolvimento terminou comprometida por uma falha em uma sequência de instruções.
A esperança soviética passou a depender exclusivamente da segunda espaçonave.
A Fobos 2 chegou a Marte, mas desapareceu perto de seu objetivo
Diferentemente de sua antecessora, a Fobos 2 conseguiu alcançar Marte em janeiro de 1989.
Durante aproximadamente dois meses, a sonda realizou observações científicas e ajustou sua trajetória para se aproximar de Fobos.
O momento decisivo estava chegando.
A espaçonave deveria fotografar a lua de perto e preparar a liberação dos equipamentos destinados à superfície.
Entretanto, em 27 de março de 1989, durante uma operação de orientação de sua antena, a Fobos 2 perdeu o controle de atitude.
Uma comunicação fraca ainda foi recebida por aproximadamente 12 minutos.
Depois disso, o contato foi interrompido definitivamente.
As investigações apontaram problemas nos processadores responsáveis pelo controle da orientação.
O sistema utilizava três processadores, mas sua lógica de decisão poderia favorecer dois equipamentos defeituosos em detrimento de um terceiro ainda funcional.
Além disso, a espaçonave não possuía um modo de emergência suficientemente robusto para recuperar automaticamente uma orientação segura.
A Fobos 2 havia percorrido milhões de quilômetros, mas desapareceu justamente quando estava próxima de realizar sua principal missão.
Os soviéticos haviam criado até um robô capaz de saltar sobre Fobos
Entre os equipamentos transportados pelas sondas estavam dois tipos de dispositivos de pouso.
O primeiro era a DAS, uma estação científica de aproximadamente 67 quilogramas.
Como Fobos possui gravidade muito baixa, o equipamento deveria utilizar um arpão para se fixar ao terreno.
Depois do pouso, abriria suas estruturas e instrumentos para investigar a composição e as propriedades físicas da superfície.
O segundo dispositivo era ainda mais curioso.
Chamado PrOP-F, recebeu o apelido de rã por causa de seu mecanismo de deslocamento.
Em vez de utilizar rodas, o pequeno robô deveria realizar saltos de aproximadamente 20 metros para explorar diferentes pontos da lua.
Seus instrumentos analisariam características do solo, temperatura, magnetismo e composição química.
Nenhum desses equipamentos chegou a ser liberado.
A perda das duas espaçonaves impediu a realização dos pousos planejados.
Apesar do fracasso, a missão deixou descobertas importantes
A Fobos 2 não conseguiu completar seu objetivo principal, mas produziu informações científicas valiosas.
Durante sua permanência nas proximidades de Marte, obteve 37 imagens de alta qualidade de Fobos.
Os registros permitiram aprimorar mapas e identificar características até então pouco conhecidas de sua superfície.
As observações também contribuíram para investigar a composição e a estrutura interna da lua.
Sua baixa densidade média levantou hipóteses sobre a presença de espaços vazios em seu interior.
Além disso, a sonda realizou medições da atmosfera superior de Marte, produziu imagens térmicas e ajudou a estudar a perda de partículas do planeta para o espaço.
O fracasso, entretanto, prejudicou a confiança na plataforma UMVL, planejada para futuras missões.
Anos depois, a missão russa Mars 96 também fracassaria, enquanto outros projetos seriam adiados ou cancelados.
Décadas depois, o sonho soviético continua inspirando novas missões
Apesar dos problemas, parte da tecnologia desenvolvida para as sondas Fobos influenciou projetos posteriores.
A etapa de propulsão ADU, por exemplo, contribuiu para a evolução de sistemas que levariam ao estágio Fregat, utilizado em lançamentos espaciais.
A ideia de pequenos veículos capazes de saltar em ambientes de baixa gravidade também reapareceu em outros projetos de exploração.
Agora, a missão japonesa MMX pretende estudar Fobos, coletar amostras de sua superfície e utilizar um pequeno rover desenvolvido em colaboração com instituições da Alemanha e da França.
O projeto busca responder perguntas que permanecem abertas desde as primeiras tentativas soviéticas.
A história das sondas Fobos demonstra que alcançar outro mundo é apenas parte do desafio.
Na exploração espacial, uma missão também precisa sobreviver aos próprios erros.
E, quase quatro décadas depois, a tentativa soviética continua sendo um lembrete de como uma pequena falha pode separar uma conquista histórica de um fracasso monumental.