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Ciência

Seu filho não consegue parar de jogar? Este pode ser um sinal mais importante que as horas

Uma pesquisa acompanhou milhares de crianças para entender a relação entre videogames, comportamento e desenvolvimento. O resultado aponta para uma fronteira interessante — mas não é tão simples quanto contar horas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quantas horas de videogame são demais para uma criança? A pergunta parece pedir uma resposta simples, mas a ciência encontra uma situação bem mais complexa. Uma criança pode passar várias horas jogando e continuar equilibrando escola, sono, amigos e família. Outra pode jogar menos tempo e ainda assim apresentar sinais de perda de controle. Um estudo com milhares de crianças ajuda a entender onde pode estar o verdadeiro sinal de alerta.

O estudo encontrou uma diferença que aparece conforme as horas aumentam

Uma das pesquisas mais conhecidas sobre o assunto foi publicada em 2016 no Annals of Neurology. O trabalho, liderado pelo pesquisador Jesús Pujol, acompanhou 2.442 crianças entre 7 e 11 anos para investigar possíveis relações entre o tempo dedicado aos videogames, desempenho cognitivo, comportamento e aspectos sociais.

Um grupo menor, formado por 260 crianças, também passou por exames de ressonância magnética.

Os resultados não apresentaram apenas aspectos negativos.

As crianças que jogavam aproximadamente uma hora por semana apresentavam respostas visomotoras mais rápidas e consistentes. Porém, quando o tempo chegava a cerca de duas horas semanais, aumentar ainda mais as sessões já não parecia trazer benefícios adicionais claros nessa habilidade.

O cenário mudava quando os pesquisadores analisavam comportamento e relações sociais.

Quanto maior era o tempo dedicado aos jogos, maior também era a associação com determinados problemas comportamentais e conflitos com outras crianças. Ao mesmo tempo, algumas atitudes consideradas pró-sociais diminuíam.

A diferença ficava particularmente evidente entre as crianças que jogavam nove horas ou mais por semana — o equivalente a pouco mais de uma hora por dia, em média.

Esse número chamou atenção, mas precisa ser interpretado com cuidado.

O estudo foi principalmente observacional. Portanto, ele não consegue provar que jogar mais videogame provoca diretamente problemas de comportamento. É possível, por exemplo, que crianças com determinadas características já fossem mais propensas a jogar por mais tempo.

E existe outro detalhe ainda mais importante: nove horas não representam um limite oficial para diagnosticar dependência.

A OMS não define dependência apenas pelo número de horas

É aqui que a questão fica mais interessante.

A Organização Mundial da Saúde considera o chamado transtorno por jogos eletrônicos a partir de um conjunto de comportamentos, e não simplesmente de um cronômetro.

Entre os principais sinais estão a dificuldade de controlar quando e quanto se joga, a prioridade cada vez maior dada aos videogames em relação a outras atividades e a continuidade do comportamento mesmo quando ele já está provocando consequências negativas.

Além disso, é necessário que exista um prejuízo significativo na vida familiar, social, escolar ou em outras áreas importantes. Em geral, o padrão também precisa persistir por pelo menos 12 meses.

Por isso, uma criança que joga dez horas em determinada semana não é automaticamente viciada em videogames.

A situação muda quando o jogo começa a ocupar sistematicamente o espaço de outras necessidades.

Sono, alimentação, escola, exercícios, amizades e convivência familiar podem começar a ser deixados de lado. A criança também pode apresentar dificuldade crescente para interromper uma partida ou aceitar limites.

A própria OMS destaca que o transtorno afeta apenas uma parcela pequena das pessoas que jogam.

Isso significa que o número de horas pode ser uma informação útil, mas não conta a história inteira.

As recomendações para crianças também estão deixando o relógio em segundo plano

Essa mudança de perspectiva também aparece nas orientações pediátricas mais recentes.

Em janeiro de 2026, a Academia Americana de Pediatria publicou uma nova política sobre mídia digital que deixou de tratar um número universal de horas como resposta suficiente para todas as famílias.

A questão passa a ser: o que o videogame está substituindo?

Se uma criança dorme adequadamente, pratica atividades físicas, mantém amizades, acompanha a escola, participa de outras atividades e consegue desligar o jogo quando chega a hora, o número isolado de minutos oferece uma informação limitada.

Por outro lado, se as partidas começam a ocupar o horário de dormir, substituir exercícios ou provocar conflitos constantes, o contexto muda completamente.

A recomendação é estabelecer períodos e ambientes livres de telas, proteger especialmente o sono — incluindo a última hora antes de dormir — e, quando possível, participar ocasionalmente das atividades digitais das crianças.

Também é importante considerar que os próprios videogames mudaram.

Muitos títulos atuais utilizam recompensas diárias, eventos temporários, passes de temporada e outros mecanismos capazes de incentivar sessões mais longas. Plataformas digitais podem ser desenhadas justamente para manter o usuário conectado pelo maior tempo possível.

Por isso, observar apenas o relógio pode esconder o problema real.

O estudo com 2.442 crianças sugere que pequenas quantidades de videogame podem coexistir com determinados benefícios visomotores, enquanto um uso muito mais frequente aparece associado a mais dificuldades comportamentais.

Mas a grande conclusão é outra.

Não existe uma quantidade mágica de horas que transforme automaticamente uma criança em dependente.

O sinal mais importante é perceber quem está no controle.

Se a criança consegue jogar e depois voltar normalmente para a escola, o sono, os amigos, os exercícios e a família, o cenário é muito diferente daquele em que o videogame começa, pouco a pouco, a ocupar o lugar de todo o resto.

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