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Ciência

Seu pedido no delivery pode ter muito mais sal do que o cardápio promete — e um novo estudo mostra que isso é mais comum do que parece

Uma pesquisa feita no Reino Unido revelou que quase metade das refeições de fast food analisadas continha mais sal do que o informado nos rótulos. A descoberta levanta dúvidas sobre a precisão das informações nutricionais e reforça que esses dados devem ser vistos apenas como estimativas.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Pedir comida por aplicativo virou rotina para milhões de pessoas. Cardápios digitais exibem números precisos de calorias, gorduras e sódio, criando a sensação de controle sobre o que está sendo consumido. Mas um novo estudo sugere que essa confiança pode ser ilusória. Na prática, o seu prato pode estar trazendo bem mais sal do que o anunciado.

Pesquisadores do Reino Unido descobriram que uma parcela significativa das refeições de delivery contém níveis de sal superiores aos declarados nos menus. O resultado reforça uma suspeita antiga entre nutricionistas: informações nutricionais em restaurantes funcionam mais como orientação geral do que como um retrato fiel do que chega ao prato.

Quase metade das refeições tinha mais sal do que o informado

O estudo, publicado na revista científica PLOS One, analisou 39 refeições para viagem compradas em 23 restaurantes diferentes, incluindo redes conhecidas internacionalmente e estabelecimentos locais na cidade de Reading, no condado de Berkshire, na Inglaterra. Entre os pratos avaliados estavam pizzas, hambúrgueres, massas e sanduíches.

Após a compra, os alimentos passaram por um processo rigoroso de análise em laboratório: foram congelados, liofilizados e triturados antes da medição precisa do teor de sal. O foco da pesquisa foi o sódio, por ser um nutriente diretamente associado ao risco de doenças cardiovasculares, como hipertensão, infarto e AVC.

O resultado chamou a atenção: entre os restaurantes que informavam o teor de sal no cardápio, 47% das refeições apresentaram níveis mais altos do que o declarado. Em alguns casos, uma única porção continha sal suficiente para ultrapassar a ingestão diária recomendada.

No Reino Unido, a orientação oficial é consumir no máximo 5 gramas de sal por dia — valor semelhante ao recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Algumas massas analisadas chegaram perigosamente perto desse limite em apenas uma refeição.

Por que o sal varia tanto no fast food?

Segundo Gunter Kuhnle, professor de nutrição e ciência dos alimentos da Universidade de Reading e autor principal do estudo, a variabilidade é inerente ao preparo dos alimentos. Pequenas diferenças na quantidade de ingredientes, no tamanho das porções ou no método de preparo já são suficientes para alterar de forma significativa o valor nutricional final.

“A composição dos alimentos é muito variável”, explicou Kuhnle. Isso significa que rótulos e tabelas nutricionais não conseguem capturar com exatidão o que cada pessoa consome em uma refeição específica. Eles servem como referência, mas não como uma medida precisa.

Pesquisas anteriores do grupo já haviam mostrado que até alimentos naturais apresentam variações relevantes em seus nutrientes. A ideia agora foi testar se isso também acontecia com refeições consideradas mais padronizadas, como as de fast food — e a resposta foi sim.

Um problema que vai além do Reino Unido

Embora o estudo tenha sido realizado no Reino Unido, ele incluiu redes amplamente presentes em outros países, como McDonald’s, Burger King, Domino’s, KFC e Subway. Isso sugere que o problema não é local, mas estrutural.

Diferenças culturais, normas sanitárias e práticas de cozinha podem variar entre países, mas a lógica do preparo em larga escala é semelhante. Por isso, os pesquisadores acreditam que a inconsistência entre o valor declarado e o real não se limita a uma única região.

“Rótulos devem ser vistos como indicativos”, disse Kuhnle. Segundo ele, isso afeta não apenas consumidores, mas também pesquisadores que dependem dessas informações para estudos populacionais sobre dieta e saúde.

O que o consumidor pode fazer

No curto prazo, não há uma solução simples. Os cientistas pretendem seguir investigando como incorporar essa variabilidade de forma mais realista nos rótulos nutricionais. O desafio é refletir melhor o que acontece fora do laboratório, na cozinha real.

Enquanto isso, a recomendação geral é cautela. Reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados e de fast food continua sendo uma das estratégias mais eficazes para controlar a ingestão de sódio.

Nos Estados Unidos, por exemplo, estima-se que o consumo médio diário ultrapasse 3.300 miligramas de sódio — bem acima do limite de 2.300 miligramas recomendado por entidades como a American Heart Association.

No fim das contas, o estudo reforça uma lição conhecida, mas muitas vezes ignorada: quando se trata de fast food, os números do cardápio nem sempre contam toda a história. E, nesse caso, é melhor mesmo levar as informações nutricionais com uma boa pitada de sal.

 

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