Quase todo mundo já passou por isso: dificuldade para ir ao banheiro, seja ocasional ou persistente. Para alguns, a prisão de ventre se torna um problema constante, capaz de afetar bem-estar e qualidade de vida. Agora, um grupo de cientistas britânicos publicou as primeiras diretrizes rigorosas baseadas em evidências para orientar a alimentação e o uso de suplementos no tratamento dessa condição.
Um problema mais comum do que parece
Estima-se que cerca de 16% da população mundial sofra de constipação, e que entre 9% e 20% dos casos nos EUA sejam crônicos. Entre idosos, os números são ainda mais altos: entre um quarto e um terço das pessoas com mais de 65 anos enfrentam o problema.
Na maioria das vezes, não há uma única causa identificável, mas sim fatores de risco relacionados ao estilo de vida — especialmente a dieta. Até hoje, as recomendações médicas se concentravam em aumentar a ingestão de fibras, mas havia pouca clareza sobre quais alimentos ou suplementos realmente faziam diferença.
A busca por evidências sólidas
Para preencher essa lacuna, pesquisadores do King’s College London revisaram 75 ensaios clínicos randomizados e controlados. Com base nesses dados, elaboraram 59 recomendações classificadas pelo sistema GRADE — que avalia a força e a qualidade das evidências.
O processo foi validado por consenso de especialistas (Delphi) e resultou em diretrizes publicadas em duas revistas científicas: Journal of Human Nutrition & Dietetics e Neurogastroenterology & Motility.
Segundo a pesquisadora Elrini Dimidi, que liderou o estudo, a iniciativa busca oferecer uma base prática e confiável: “Pela primeira vez indicamos alimentos e suplementos com real eficácia, e também destacamos quais orientações carecem de respaldo científico.”
O que funciona de fato
Entre os suplementos mais eficazes contra a constipação crônica estão:
- Psyllium (fibra solúvel): melhora o trânsito intestinal e a consistência das fezes.
- Óxido de magnésio: auxilia no relaxamento muscular do intestino, favorecendo a evacuação.
- Probióticos específicos: algumas cepas demonstraram resultados positivos, embora nem todas funcionem da mesma forma.
No caso dos alimentos, três itens ganharam destaque: kiwis, pão de centeio e água rica em minerais.
Curiosamente, os pesquisadores não encontraram evidências suficientes para recomendar dietas ricas em fibras como solução definitiva, embora reconheçam seus múltiplos benefícios gerais para a saúde.
Limitações e perspectivas
Apesar dos avanços, os autores reconhecem que muitos estudos revisados não têm qualidade robusta. Isso significa que mais pesquisas serão necessárias para identificar combinações ideais de alimentos e suplementos. Ainda assim, as recomendações atuais já podem trazer alívio para milhões de pessoas.
“Melhorar essa condição por meio de mudanças na dieta pode reduzir os sintomas e transformar a qualidade de vida”, reforçou Dimidi.
Um guia para o dia a dia
A nova diretriz representa um marco no tratamento da prisão de ventre. Pela primeira vez, pacientes e profissionais de saúde contam com orientações claras, baseadas em evidências científicas.
A mensagem final é simples: pequenas escolhas alimentares — como incluir kiwis ou optar por pão de centeio — podem ser mais eficazes do que dietas genéricas. E quando necessário, suplementos como psyllium e magnésio se tornam aliados importantes.
A ciência ainda busca respostas mais completas, mas já deixa claro: existem caminhos reais e acessíveis para devolver regularidade e bem-estar.