O Sistema Solar pode estar reencontrando parte do próprio passado. Um novo estudo indica que alguns dos cometas expulsos pelo Sol durante seus primeiros milhões de anos de existência podem estar retornando após uma longa viagem pela Via Láctea.
A pesquisa, publicada no repositório científico arXiv, mostra que o Sol lançou ao espaço profundo cerca de 10 quadrilhões de objetos primordiais durante sua formação. A maioria nunca mais voltou. No entanto, uma pequena parcela desses corpos gelados pode retornar ao Sistema Solar. Segundo os pesquisadores, eles formam uma categoria inédita de visitantes cósmicos.
O Sol pode estar recebendo antigos cometas de volta

Nos últimos anos, objetos interestelares como 1I/’Oumuamua, 2I/Borisov e, mais recentemente, 3I/ATLAS chamaram a atenção dos astrônomos.
Esses corpos cruzam o Sistema Solar vindos de outras estrelas. Além disso, oferecem pistas valiosas sobre a formação de sistemas planetários espalhados pela galáxia.
Agora, os pesquisadores propõem a hipótese inversa. Se outras estrelas enviam objetos para nossa vizinhança, o Sol também pode recuperar parte do material que expulsou bilhões de anos atrás.
Os cientistas chamam esses corpos de objetos quase interestelares. Eles nasceram ao redor do Sol, viajaram pelo espaço interestelar e, posteriormente, voltaram a sofrer a influência gravitacional da nossa estrela.
Uma gigantesca diáspora de cometas
Segundo os modelos utilizados na pesquisa, aproximadamente 95% dos cometas e asteroides formados nas regiões externas do Sistema Solar foram expulsos durante os estágios iniciais de sua evolução.
Esse processo lançou cerca de 10 quadrilhões de objetos maiores que um arranha-céu para diferentes regiões da Via Láctea.
Apesar dessa enorme dispersão, a gravidade do Sol continua exercendo uma influência muito fraca sobre alguns desses corpos. Por isso, uma quantidade extremamente pequena consegue retornar após bilhões de anos vagando pelo espaço.
Como diferenciar esses objetos dos visitantes interestelares?

Os pesquisadores explicam que os objetos quase interestelares apresentam características muito diferentes dos visitantes originários de outros sistemas estelares.
A principal diferença está na velocidade.
Enquanto objetos como ‘Oumuamua e Borisov atravessaram o Sistema Solar em alta velocidade, os corpos que nasceram ao redor do Sol retornam muito mais lentamente.
Além disso, suas trajetórias e propriedades dinâmicas também são distintas. Dessa forma, os astrônomos conseguem diferenciá-los com mais facilidade durante as observações.
Segundo os autores, essas diferenças são tão marcantes que dificilmente ocorrerão confusões entre as duas categorias.
Encontrar um desses “bumerangues cósmicos” será um enorme desafio
Embora o Sol tenha expulsado uma quantidade gigantesca de objetos, apenas uma fração mínima consegue retornar.
Os cálculos mostram que, em média, existe menos de um objeto quase interestelar por ano dentro da órbita de Júpiter.
Por esse motivo, detectá-los será extremamente difícil. Mesmo telescópios de última geração enfrentarão esse desafio.
Os pesquisadores acreditam que projetos como o Legacy Survey of Space and Time (LSST), do Observatório Vera C. Rubin, terão dificuldades para identificar esses visitantes. Isso acontece porque existe uma população muito maior de cometas vindos da Nuvem de Oort.
Assim, distinguir um objeto quase interestelar de um cometa comum continuará sendo uma tarefa bastante complexa.
Descoberta pode revelar como nasceu o Sistema Solar
Caso os astrônomos encontrem um desses objetos no futuro, eles poderão reconstruir parte da história dos primeiros milhões de anos do Sistema Solar.
Ao contrário dos visitantes vindos de outras estrelas, esses corpos preservam materiais formados ao redor do próprio Sol antes de serem lançados ao espaço interestelar.
Por isso, analisar sua composição, sua órbita e sua estrutura poderá revelar informações importantes sobre a formação dos planetas, a evolução da Nuvem de Oort e os processos gravitacionais que moldaram o Sistema Solar há cerca de 4,6 bilhões de anos.
Embora a confirmação dessa hipótese ainda dependa de novas observações, o estudo abre uma possibilidade fascinante. Alguns dos objetos mais antigos produzidos pelo Sol talvez estejam encontrando, lentamente, o caminho de volta para casa.
[ Fonte: National Geographic ]