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Ciência

Sua voz pode revelar como seu corpo e cérebro estão envelhecendo

Uma inteligência artificial treinada com quase 3 mil pessoas que falam espanhol conseguiu estimar sinais de envelhecimento biológico pela voz. O método também identificou padrões associados ao Alzheimer e a outras formas de demência.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A maneira como uma pessoa fala pode revelar muito mais do que sua idade aproximada. Velocidade, pausas, tom de voz, vocabulário e até a organização das frases podem carregar pistas sobre como o corpo e o cérebro estão envelhecendo.

Um grupo internacional de pesquisadores desenvolveu uma ferramenta de inteligência artificial capaz de analisar essas características e estimar a chamada idade biológica a partir da fala.

O sistema, descrito na revista científica Science Advances, recebeu o nome de “relógio da fala”. Ele foi treinado com gravações de 2.928 pessoas de Argentina, Chile, Colômbia, México e Peru.

Entre os participantes estavam adultos saudáveis e pessoas com comprometimento cognitivo leve, doença de Alzheimer e diferentes formas de demência frontotemporal.

As idades variavam entre 18 e 88 anos, com média de 65 anos.

A IA procura centenas de pistas na voz

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© Fellipe Ditadi – Unsplash

Para desenvolver o sistema, os pesquisadores analisaram centenas de características acústicas e linguísticas.

Não se trata apenas de reconhecer se uma voz parece mais jovem ou mais velha.

O modelo observa elementos como velocidade da fala, duração e frequência das pausas, tom de voz, conteúdo emocional, vocabulário, precisão semântica e quantidade de informações produzidas durante uma conversa.

Também considera como essas informações são organizadas.

Algoritmos de aprendizado de máquina combinam esses diferentes sinais para estimar a idade cronológica de uma pessoa e identificar possíveis diferenças em relação à idade que sua fala aparenta.

Essa diferença pode fornecer pistas sobre o envelhecimento biológico.

A fala revelou sinais associados à demência

Os resultados mostraram que o “relógio da fala” conseguiu diferenciar participantes saudáveis daqueles com comprometimento cognitivo leve e diferentes tipos de demência.

Um dos principais achados apareceu quando os pesquisadores compararam a idade cronológica dos participantes com aquela estimada pela IA.

Pessoas cuja fala parecia mais velha do que o esperado também apresentavam sinais de envelhecimento acelerado em avaliações clínicas.

Os participantes saudáveis registraram as menores diferenças entre idade real e idade estimada pela fala.

Essa distância aumentava progressivamente entre pessoas com Alzheimer e diferentes formas de demência frontotemporal.

Uma voz “mais velha” também apareceu ligada à memória

O envelhecimento acelerado detectado pela fala apresentou ainda associações com diferentes capacidades cognitivas.

Quanto maior a diferença entre a idade real e aquela estimada pelo sistema, pior tendia a ser o desempenho em testes de cognição global, função executiva, capacidades funcionais e diferentes tipos de memória.

Os pesquisadores também encontraram relações com outros indicadores independentes de envelhecimento biológico e saúde cerebral.

Isso sugere que a voz pode concentrar informações provenientes de diferentes processos que acontecem simultaneamente no organismo.

Mas existe outro componente importante: o ambiente em que uma pessoa vive.

Condições sociais também deixam marcas na fala

Os cientistas encontraram uma associação entre o envelhecimento acelerado da fala e condições sociais desfavoráveis ao longo da vida.

Fatores como situação econômica, alimentação e acesso aos serviços de saúde podem influenciar o envelhecimento e, segundo os resultados, parte desses efeitos também parece deixar sinais detectáveis na maneira como uma pessoa fala.

A relação apareceu tanto entre participantes saudáveis quanto entre aqueles que apresentavam demência.

Isso transforma a fala em uma espécie de marcador que pode reunir informações biológicas, cognitivas e sociais.

Uma gravação poderia complementar exames mais complexos

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© Pexels

Agustín Ibáñez, professor de Saúde Cerebral da Faculdade de Medicina do Trinity College Dublin e um dos autores do estudo, afirma que a voz parece conter muito mais informações sobre o envelhecimento do que se imaginava.

A descoberta abre a possibilidade de utilizar gravações de voz como ferramenta complementar em avaliações médicas.

Atualmente, muitos métodos utilizados para investigar envelhecimento biológico e alterações cerebrais dependem de ressonâncias magnéticas, exames de sangue, análises moleculares ou avaliações clínicas especializadas.

Analisar a fala apresenta algumas vantagens importantes.

Uma gravação pode ser realizada remotamente, repetida várias vezes, não é invasiva e tem custo relativamente baixo.

Isso pode ser particularmente útil em regiões onde o acesso a tecnologias avançadas de diagnóstico é limitado.

América Latina foi fundamental para o estudo

Outro aspecto importante da pesquisa está na população analisada.

Estudos sobre demência e inteligência artificial foram historicamente concentrados em populações de países de alta renda e, principalmente, em pessoas que falam inglês.

A América Latina permanece sub-representada em grande parte dessa literatura científica.

Ao desenvolver o sistema utilizando quase 3 mil participantes de cinco países latino-americanos, os pesquisadores conseguiram investigar características linguísticas e sociais específicas de populações que normalmente aparecem menos nesse tipo de estudo.

Ainda assim, os próprios autores destacam que será necessário testar o método em outros idiomas e culturas.

A voz ainda não pode diagnosticar Alzheimer

Apesar dos resultados, o “relógio da fala” não deve ser interpretado como um teste capaz de diagnosticar demência.

O estudo também não demonstrou que uma pessoa cuja voz apresenta sinais de envelhecimento acelerado necessariamente desenvolverá Alzheimer ou outro tipo de comprometimento cognitivo no futuro.

Essa é uma diferença fundamental.

Antes de qualquer utilização clínica, serão necessários novos estudos, acompanhamento de pacientes ao longo do tempo e validações independentes em outras populações.

Por enquanto, a descoberta mostra algo diferente: uma simples gravação pode carregar uma quantidade surpreendente de informações sobre o organismo.

A voz que usamos todos os dias pode refletir não apenas nossa idade cronológica, mas também aspectos do envelhecimento do corpo, da saúde cerebral, da memória e até das condições sociais acumuladas durante a vida.

 

[ Fonte: DW ]

 

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